A terra das sombras

Srie A Mediadora 01

Meg Cabot


ndice


ndice        2
Captulo 1        3
Captulo 2        14
Captulo 3        22
Captulo 4        28
Captulo 5        34
Captulo 6        40
Captulo 7        45
Captulo 8        51
Captulo 9        61
Captulo 10        71
Captulo 11        80
Captulo 12        87
Captulo 13        93
Captulo 14        101
Captulo 15        106
Captulo 16        116
Captulo 17        124
Captulo 18        137
Captulo 19        149









http://groups-beta.google.com/group/digitalsource

          Captulo 1

     De modo que l estava eu naquele avio, com uma jaqueta de motoqueira, vendo as palmeiras pela janela ao aterrissar. E pensei: genial. Jaqueta de couro e palmeiras.
No podia estar acertando mais, exatamente como achava que ia mesmo...
     Para no dizer o contrrio.
     Minha me no gosta muito da minha jaqueta de couro, mas eu juro que no a vesti para deix-la furiosa, ou algo assim. No fiquei aborrecida com o fato de ela 
ter decidido casar com um sujeito que vive a 4.800 quilmetros de distncia, me obrigando a sair do colgio no meio do segundo ano; a abandonar a melhor - no fundo, 
a nica - amiga que tive desde o jardim de infncia; a deixar a cidade onde vivi todos os meus 16 anos.
     No mesmo. No fiquei nada aborrecida.
     Pois o fato  que eu realmente gosto do Andy, meu novo padrasto. Ele  bom para a minha me. Ele a deixa feliz. E  super bonzinho comigo.
     Essa histria de mudar para a Califrnia  que me deixou meio fora de esquadro.
     E acho at que ainda nem falei dos trs filhos do Andy.
     Estavam todos l para me receber quando desci do avio. Minha me, Andy e os trs filhos dele. Soneca, Dunga e Mestre.  como eu os chamo. So os meus novos 
meios-irmos.
     - Suze!
     Mesmo se eu no tivesse ouvido minha me berrando meu nome quando passei pelo porto, no tinha como deixar de v-los - minha nova famlia. Andy fazia os dois 
menores segurarem aquele enorme cartaz dizendo "Seja bem-vinda, Suzannah!". Todos os passageiros que saam do avio passavam por ali e ficavam dizendo "Olha s que 
gracinha!" e sorrindo para mim com aquele olhar enjoativo.
      isso a. No podia mesmo estar acertando mais. Estou acertando horrores.
     - Tudo bem - fui dizendo, enquanto me aproximava depressinha da minha nova famlia. - Agora podem abaixar isso a.
     Mas a minha me estava preocupada demais em me abraar para prestar ateno. Ficava dizendo: "Minha Suzinha!" Eu odeio quando algum que no seja minha me 
me chama de Suzinha, de modo que fui logo tratando de fulminar os garotos com um olhar bem malvado, para que no alimentassem qualquer esperana. Eles ficavam s 
rindo para mim por cima daquele cartaz imbecil, Dunga por ser boboca demais, Mestre porque ... bem, ele at que podia estar contente mesmo de me ver. O Mestre tem 
dessas esquisitices. Soneca, o mais velho, ficava l parado, com ar de ... de sono, ora.
     - Como foi de viagem, guria?
     Andy tirou a mochila do meu ombro e botou no dele. Visivelmente, estranhou o peso:
     - Uau! O que  que voc est trazendo aqui? No sabia que  considerado crime contrabandear hidrantes de Nova York para outros estados?
     Eu sorri para ele. Andy  aquele tipo de pateta grandalho, mas  um pateta legal. No podia ter a menor idia do que  crime no estado de Nova York, pois s 
esteve l umas cinco vezes. E por sinal foi o suficiente para convencer minha me a se casar com ele.
     No  um hidrante - eu disse. -  um parqumetro. E ainda tenho mais quatro malas.
     Quatro? - Andy fingiu que estava espantado. - Voc por acaso pensa que est fazendo uma mudana?...
     No sei se j disse que o Andy se acha o maior comediante? S que no . Ele  carpinteiro.
     - Suze - disse o Mestre, todo entusiasmado. - Voc reparou que na aterrissagem a cauda do avio sacudiu um pouco? Foi uma corrente de ar ascendente. Acontece 
quando uma massa de ar que se move em grande velocidade vai de encontro a uma contracorrente de vento com velocidade igual ou maior.
     Mestre, o filho menor do Andy, tem 12 anos, mas parece que tem uns 40. Na festa do casamento, ficou quase o tempo todo me falando de mutilao de cabeas de
gado importadas, e que a tal da rea 51 no passa de uma grande farsa do governo americano, que no quer que a gente saiba que "no estamos ss" neste universo...
     - Puxa, Suzinha - minha me repetia. - Estou to feliz por voc ter vindo. Voc vai adorar a casa. No incio no parecia que era a nossa casa, mas agora que 
voc est aqui... E espere s at ver o seu quarto. Andy deixou-o uma gracinha...
     Antes de se casarem, Andy e minha me passaram semanas procurando uma casa que tivesse pelo menos um quarto para cada filho. Finalmente se decidiram por aquela 
enorme casa na colina de Carmel, que s puderam comprar porque estava num estado lamentvel, e a firma de construo para a qual o Andy costuma trabalhar a reformou 
por um preo supercamarada. H dias minha me vinha falando sobre o meu quarto, que ela jura ser o mais bonito da casa.
     - Que vista! - dizia ela a toda hora. - Da sacada do seu quarto d para ver o mar! Puxa, Suze, voc vai adorar.
     Eu sabia mesmo que ia adorar. Exatamente como adoraria trocar o bagel de Nova York por brotos de alfafa, o metr pelas pranchas de surfe e tudo mais.
     No sei bem como nem por que, mas Dunga conseguiu abrir a boca e perguntou com aquela voz abobalhada:
     - Gostou do cartaz?
     Nem consigo acreditar que ele tem a mesma idade que eu. Mas no dava mesmo para esperar outra coisa: ele est na equipe de luta livre. A nica coisa em que 
consegue pensar, pelo que pude perceber quando tive que ficar sentada a seu lado na festa do casamento (fiquei sentada entre ele e o Mestre, d para sentir como 
a conversa fluiu),  em chaves de pescoo e shakes de protena para ganhar massa muscular.
     -  mesmo, grande cartaz - respondi, arrancando-o das suas manoplas e virando-o de cabea para baixo para ningum mais ler os dizeres. - Podemos ir agora? Quero 
pegar minhas malas antes que algum tenha a mesma idia.
     - Claro, claro - disse mame, dando-me um ltimo abrao. - Puxa, estou to contente de te ver! Voc est to bem...
     Foi ento que ela disse, embora estivesse na cara que no queria dizer, mas disse mesmo assim, baixinho, para ningum mais ouvir:
     - Pensei que j tivesse falado com voc sobre a jaqueta, Suze. E achei que voc tinha jogado fora esses jeans.
     Eu estava usando meus jeans mais velhos, os que so furados nos joelhos. Combinavam perfeitamente com a minha camiseta de seda preta e minhas botas de zper. 
Aquela combinao dos jeans e botas com minha jaqueta preta de motoqueira e minha mochila das foras armadas me faziam parecer uma adolescente rebelde fugindo de 
casa num filme de televiso.
     Mas, puxa, para atravessar o pas num avio durante oito horas, a gente tem mais  que se sentir confortvel.
     Foi o que eu disse, e minha me revirou os olhinhos e deixou pra l.  o lado bom da minha me. Ela no fica insistindo, como outras mes. Soneca, Dunga e Mestre 
no tm nem idia de como so sortudos.
      Tudo bem - concordou ela. - Vamos pegar sua bagagem. E levantando novamente a voz, chamou:
     Vamos, Jake. Vamos pegar as coisas da Suze.
     Ela precisou chamar Soneca pelo nome, pois ele parecia que j estava dormindo em p. Uma vez perguntei a minha me se o Jake, que j est adiantado no colegial, 
sofre de narcolepsia ou  viciado em alguma droga, e ela estranhou que eu estivesse dizendo aquilo.  que o cara fica l piscando o tempo todo sem falar com ningum.
     Espera a, no  verdade. Uma vez ele realmente me disse uma coisa. Perguntou se eu fazia parte de alguma gangue. Foi no casamento, quando me pegou do lado
de fora fumando um cigarro, com minha jaqueta de couro por cima do meu vestido de dama de honra.
     V se me esquece, t bem? Foi o primeiro e nico cigarro que eu jamais fumei. O estresse era muito grande. Eu estava preocupada com o casamento da minha me,
ela ia se mudar para a Califrnia e podia at me esquecer. Juro que nunca mais fumei nenhum cigarro.
     E no me interpretem mal quando eu falo do Jake. Com seu metro e oitenta e tal, a mesma cabeleira loura rebelde e os mesmos olhos azuis brilhantes do pai, ele 
 o que a minha melhor amiga, Gina, chamaria de um pedao. Apenas, no  exatamente a mente mais brilhante do mundo, se  que me entendem.
     O Mestre continuava falando da velocidade do vento. Estava explicando qual a velocidade necessria para que o avio possa romper a fora gravitacional da Terra. 
 conhecida como velocidade de decolagem. Decidi ento que poderia ser til ter o Mestre por perto para os deveres de casa, mesmo eu sendo trs perodos mais adiantada 
que ele.
     Enquanto o Mestre falava, eu ia olhando em volta. Era a primeira vez que eu ia  Califrnia, e vou dizer uma coisa: embora ainda estivssemos no aeroporto - 
e no era qualquer um, mas o Aeroporto Internacional de San Jos - j dava para sentir que no estvamos mais em Nova York. Quer dizer, para comear, era tudo limpo. 
Nada de sujeira, nem de baguna, nem pichaes. O saguo era todo em tons pastis, e qualquer um sabe que a sujeira aparece mais em cores claras. Por que voc acha 
que os nova-iorquinos se vestem de preto o tempo todo? Nada a ver com estar na onda. No mesmo.  s para no precisar botar as roupas para lavar toda vez que samos 
com elas.
     Mas este problema no parecia existir na ensolarada Califrnia. Pelo que eu podia perceber, a onda eram os tons pastis. Passou por ns uma mulher vestindo 
cala colante de ginstica cor-de-rosa e top branco. E s. Se aquilo era estar vestido a carter na Califrnia, dava para ver que eu ia passar pelo maior choque 
cultural.
     E sabe o que mais achei estranho? Ningum estava brigando. Havia filas de passageiros aqui e ali, mas eles no estavam levantando a voz com os balconistas. 
Em Nova York, todo cliente est sempre brigando com os atendentes, no importa onde: no aeroporto, na Bloomingdales, na carrocinha de cachorro quente, em qualquer 
lugar.
     Aqui no. Estava todo mundo perfeitamente calmo.
     E acho que eu sabia por qu. Simplesmente no me parecia que houvesse qualquer motivo para se irritar. L fora, o sol se derramava nas palmeiras que eu havia 
visto do cu. No estacionamento havia gaivotas ciscando - nada de pombos, gaivotas mesmo, grandes gaivotas brancas e cinzentas. E quando fomos apanhar minha bagagem, 
ningum se preocupou em saber se os adesivos nelas combinavam com os meus canhotos. Nada disso. Todo mundo s ficava dizendo "At logo! Tenham um bom dia!".
     Completamente irreal.
     Antes de eu viajar, a Gina (ela era a minha melhor amiga no Brooklyn; bem, na verdade, a minha nica amiga) tinha me dito que eu ia ver que ter trs meios-irmos 
tinha l suas vantagens. E ela sabia do que estava falando, pois tinha quatro - no meios-irmos, mas irmos de verdade. Seja como for, no acreditei nela, assim 
como no havia acreditado nas pessoas que falavam das palmeiras. Mas quando o Soneca pegou duas malas minhas e o Dunga pegou as outras duas e eu no precisei carregar 
absolutamente nada, pois o Andy j estava com a minha mochila de mo, finalmente eu entendi do que ela estava falando: os irmos podem ter sua utilidade. Podem carregar 
o que  pesado mesmo, como se no fosse nada.
     Afinal, eu tinha feito minhas malas, e sabia o que havia nelas. No estavam nada leves. Mas Soneca e Dunga iam andando assim, tipo, sem problema, vamos nessa.
     De posse da minha bagagem, fomos para o estacionamento. Quando as portas automticas se abriram, todo mundo - inclusive minha me - levou a mo ao bolso para 
botar os culos escuros. Aparentemente estavam todos sabendo alguma coisa que eu no sabia. Mas bastou chegar  calada para entender o que era. 
     Aqui faz sol!
     E no  s que faa sol -  uma luminosidade incrvel, to forte e colorida que os olhos doem. Eu tambm tinha os meus culos escuros; estavam em algum lugar, 
mas como estava fazendo uns cinco graus e caindo chuva de granizo quando eu sa de Nova York, nem me passou pela cabea deix-los  mo. Quando minha me me disse 
que ns amos nos mudar - ela e Andy decidiram que era mais fcil ela se mudar, pois tinha s uma filha e trabalhava como reprter de televiso, do que ele, que 
tinha trs filhos e um negcio prprio -, ela me explicou que eu ia adorar o norte da Califrnia.
     -  l que foram feitos todos aqueles filmes da Goldie Hawn e do Chevy Chase! - disse ela.
     Eu gosto da Goldie Hawn e do Chevy Chase, mas no sabia que eles tinham feito algum filme juntos.
     - L  que se passam as histrias de todos aqueles romances do Steinbeck que voc leu na escola - explicou. - Voc lembra, O pnei vermelho...
     Bom, no fiquei to impressionada assim. Do Pnei vermelho, s me lembrava que no havia meninas na histria, embora houvesse um bocado de colinas. E agora 
ali no estacionamento, passando os olhos pelas colinas ao redor do Aeroporto Internacional de San Jos, eu podia ver que havia mesmo muitas colinas, e que a relva 
nelas estava ressecada e amarelada.
     Mas, espalhadas pelas colinas, havia umas rvores diferentes de todas que eu j tinha visto. Eram achatadas no alto, como se um punho gigantesco tivesse vindo 
do cu e dado um murro. Mais tarde eu ficaria sabendo que eram ciprestes.
     E pelo estacionamento todo, que evidentemente tinha um sistema de irrigao, havia arbustos enormes com flores vermelhas gigantescas, quase sempre ao redor 
de palmeiras incrivelmente altas e grossas. Depois, olhando melhor as flores, eu descobriria que eram hibiscos. E os estranhos besouros que ficavam pairando em volta, 
com um zumbido, no eram besouros coisa nenhuma, mas beija-flores.
     - Claro - disse minha me quando eu observei isto. - Eles esto em toda parte. L em casa ns temos bebedouros para eles. Se quiser voc pode pendurar um
na
sua janela tambm.
     Beija-flores bebendo aginha na nossa janela? L no Brooklyn os nicos pssaros que vinham at a minha janela eram pombos. E minha me no chegava exatamente 
a me estimular a aliment-los.
     Meu momento de alegria com os beija-flores foi interrompido quando o Dunga de repente anunciou que ia dirigir, e se encaminhou para o assento do motorista do 
enorme utilitrio de que nos aproximvamos.
     Eu vou dirigir - disse Andy com firmeza.
     Puxa, pai - fez o Dunga. - Como  que eu vou conseguir a minha carteira se voc nunca me deixa praticar?
     Voc pode praticar no Rambler - respondeu o Andy, abrindo a mala do Land Rover e comeando a acomodar minha bagagem. - Voc tambm, Suze, Fiquei espantada.
     - Eu tambm o qu?
     - Voc pode praticar direo no Rambler, mas s tendo ao lado algum que tenha carteira de motorista - respondeu ele, sacudindo o dedo indicador na minha direo.
     Eu pisquei para ele.
     - No sei dirigir - disse.
     Dunga soltou uma gargalhada que parecia um relincho.
     Voc no sabe dirigir? - e com o cotovelo ele cutucou o Soneca, que estava recostado na lateral do carro, com o rosto voltado para o sol. - Olha a, Jake, ela 
no sabe dirigir!
     No  to incomum assim que um nova-iorquino no tenha carteira de motorista, Brad - disse o Mestre. - Voc no sabe que Nova York tem o trfego mais pesado 
de todo o pas, com uma populao de mais de 13 milhes de pessoas num permetro de 6.400 quilmetros que vai at Connecticut, passando por Long Island? E que sua
ampla malha de metr, ferrovias e nibus atende a um bilho e setecentos milhes de usurios anualmente?
     Todo mundo ficou olhando para o Mestre. At que minha me conseguiu dizer, modestamente:
     - Eu nunca ando de carro na cidade.
     Andy fechou a porta da traseira do Land Rover.
     - No se preocupe, Suze - disse ele. - Vamos te matricular sem demora numa auto-escola. Num piscar de olhos voc vai se equiparar ao Brad. Eu olhei para Dunga.
Jamais teria imaginado que algum pudesse dizer que eu ainda precisava me equiparar ao Brad em alguma coisa.
     Mas dava para ver que muitas surpresas ainda me esperavam. As palmeiras tinham sido apenas o comeo. No trajeto para casa, que ficava bem a uma hora do aeroporto 
- e uma hora que no passava nada rpido, espremida que eu estava entre o Dunga e o Soneca, com Mestre empoleirado em cima da minha bagagem l atrs e sem parar 
de discorrer sobre as maravilhas do departamento de trnsito da cidade de Nova York -, eu comecei a me dar conta de que as coisas seriam diferentes, mas muito, muito 
diferentes do que eu imaginara, e com certeza diferentes de tudo a que eu estava acostumada.
     E no apenas porque eu passaria a viver do outro lado do continente. No s porque, para qualquer lado que eu olhasse, via coisas que nunca havia visto em Nova 
York: quiosques de beira de estrada vendendo alcachofras e roms a um dlar a dzia; quilmetros e quilmetros de vinhedos se enrascando infindavelmente em caramanches; 
plantaes de limo e abacate; toda uma vegetao de um verde deslumbrante que eu nem era capaz de identificar. E por cima de tudo aquilo, um cu to azul, to vasto, 
que o enorme balo de gs que ia passando l adiante parecia incrivelmente minsculo - como um boto no fundo de uma piscina olmpica.
     E alm do mais havia o mar, que aparecia to de repente diante dos nossos olhos que de incio eu no o reconheci, achando que era apenas mais uma plantao. 
At que eu notei que aquela plantao estava brilhando, refletindo o sol e me enviando pequenas mensagens de SOS em cdigo Morse. A luz era to resplandecente que 
ficava difcil olhar sem culos escuros. Mas l estava ele, o Oceano Pacfico... enorme, quase to vasto quanto o cu, uma coisa viva e pulsante se projetando contra 
uma tira de praia em forma de vrgula.
     Como eu era de Nova York, s muito raramente tinha visto o mar, pelo menos com praia. Fiquei mesmo de boca aberta quando o vi, era mais forte que eu. E quando 
meu queixo caiu todo mundo parou de falar - exceto Soneca, claro, que estava dormindo.
     Que foi? - perguntou minha me, espantada. - Que aconteceu?
     Nada - respondi. Eu estava sem graa. Claro que todos ali estavam acostumados a ver o mar. Iam pensar que eu era uma aberrao, ficando to impressionada com 
aquilo. - Nada no,  s o mar.
     Ah, sim - disse minha me. -  mesmo, no  lindo? A foi a vez do Dunga:
     Ondas muito maneiras. Vou  praia antes do jantar.
     S depois de terminar aquele trabalho - cortou o pai.
     - Poxa, paiee!...
     Foi a deixa para minha me comear a fazer uma longa e detalhada descrio do colgio para o qual eu ia, o mesmo que era freqentado por Soneca, Dunga e Mestre.
O colgio, batizado com o nome de Junipero Serra, um espanhol que chegou no sculo XVIII e obrigou os indgenas americanos que j viviam na regio a trocar sua religio
pelo cristianismo, era na realidade uma gigantesca misso construda com tijolos crus, que todo ano atraa vinte mil turistas ou coisa parecida.
     Na realidade eu no estava ouvindo o que minha me dizia. Meu interesse pela escola sempre foi mais ou menos igual a zero. O nico motivo pelo qual eu no pudera 
mudar-me para c antes do Natal  que no havia vaga para mim no Colgio da Misso; tive ento de esperar o semestre seguinte para aparecer alguma coisa. Mas no 
me importei - acabei morando com minha av por alguns meses, o que no foi nada mau. Minha av, alm de ser uma excelente advogada criminal,  uma cozinheira de 
mo cheia.
     Eu ainda estava me recuperando da impresso causada pelo mar, que havia desaparecido por trs das colinas. Eu ficava esticando o pescoo, na esperana de dar 
mais uma olhadela, e de repente me ocorreu!... E eu disse:
     Espera a. Quando esse colgio foi construdo?
     No sculo XVIII - respondeu Mestre. - As misses, implantadas pelos franciscanos de acordo com as normas da Igreja Catlica e do governo espanhol, foram criadas 
no s para cristianizar os indgenas americanos, mas tambm para torn-los comerciantes bem preparados no contexto da sociedade espanhola. Inicialmente, a misso 
servia como...
     Sculo XVIII? - insisti, inclinando-me para a frente. Eu estava espremida entre o Soneca (cuja cabea j estava repousando no meu ombro, de tal modo que eu 
era capaz de dizer, s de respirar, que ele usava xampu Finesse) e Dunga. A Gina no tinha me dito nada sobre o espao que os garotos so capazes de ocupar, e que 
no  pouca coisa no, quando eles passam do metro e oitenta de altura e podem pesar algo em torno de 90 quilos. - Sculo XVIII?
     Minha me deve ter percebido o pnico na minha voz, pois virou-se no assento da frente e disse, com sua voz suave:
     Suze, ns j conversamos sobre isto. Eu te expliquei que no colgio Robert Louis Stevenson a lista de espera  de um ano e voc me disse que no queria ir para 
um colgio s de meninas, de modo que o Sagrado Corao fica descartado e o Andy ficou sabendo de histrias terrveis de drogas e violncia nos colgios pblicos 
aqui da regio...
     Mas, sculo XVIII? - insisti, j sentindo meu corao bater forte, como se estivesse correndo. - Isto quer dizer que ele tem trezentos anos!
     No estou entendendo - disse o Andy.
     J estvamos atravessando a cidadezinha de Carmel-sobre-o-Mar, cheia de chals pitorescos - alguns deles com telhados de palha - e pequenos restaurantes e galerias 
de arte cheios de charme. Andy tinha de dirigir com cuidado, pois as ruas estavam cheias de carros com placas de outros estados e no havia sinais luminosos, algo 
de que os moradores por algum motivo se orgulhavam.
     - O que h de to errado com o sculo XVIII? - ele quis saber.
     Minha me respondeu, sem a menor inflexo na voz - aquela voz que eu chamo de voz das ms notcias, a que ela usa na televiso para noticiar desastres de avio 
e assassinatos de crianas: - Suze nunca gostou muito de prdios antigos.
     - Ah - fez o Andy. - Ento  provvel que ela no goste da casa.
     Eu me agarrei no encosto de cabea do assento dele.
     - Por qu? - perguntei numa voz seca. - Por que no vou gostar da casa?
      claro que eu percebi o motivo assim que chegamos. A casa era enorme e inacreditavelmente bonita, com direito at a torrinhas de estilo vitoriano e uma plataforma-mirante 
no telhado. Minha me mandara pint-la de azul, branco e creme, e ela era cercada de grandes pinheiros frondosos e arbustos floridos por toda parte. Com trs andares, 
toda construda em madeira e no a terrvel combinao de vidro e ao ou a terracota de que eram feitas as casas ao redor, pode-se dizer que era a casa mais charmosa 
e de bom gosto da vizinhana.
     Mas eu no queria pisar l dentro.
     Quando concordei em me mudar para a Califrnia com minha me, eu sabia que teria de enfrentar muitas mudanas. As alcachofras  beira da estrada, as plantaes 
de limo, o mar... nada disso tinha importncia. No fundo, a maior mudana seria ter de compartilhar minha me com outras pessoas. Desde que o meu pai morrera h 
dez anos, ramos s ns duas. E eu tenho de reconhecer que gostava das coisas desse jeito. Na realidade, se no fosse pelo fato de que o Andy to evidentemente fazia 
a minha me feliz, eu teria fincado p e dito no  mudana.
     Mas era impossvel simplesmente olhar para os dois - Andy e minha me - e no ver logo de cara que babavam completamente um pelo outro. E que tipo de filha 
eu seria se dissesse "nem pensar"? De modo que aceitei o Andy, aceitei seus trs filhos e aceitei o fato de que teria de deixar para trs tudo que eu tinha e amava 
- minha melhor amiga, minha av, os bagels, o bairro do Soho - para dar  minha me a felicidade que ela merecia.
     Mas eu ainda no tinha parado para pensar realmente no fato de que, pela primeira vez na minha vida, ia morar numa casa,
     E no uma casa qualquer, e sim, como ia dizendo o Andy cheio de orgulho enquanto tirava minha bagagem do carro e a entregava aos filhos, um casaro que havia 
funcionado como estalagem no sculo XIX. Construdo em 1849, ele aparentemente tinha uma pssima reputao na poca. No salo principal haviam ocorrido tiroteios 
por causa de jogos de cartas e mulheres. Ainda era possvel ver os buracos das balas. Um deles, inclusive, havia sido emoldurado pelo Andy. Ele confessava que era 
um pouco mrbido, mas argumentava que no deixava de ser interessante. E apostava que estvamos morando na nica casa da colina de Carmel que tinha um buraco de 
bala feito no sculo XIX.
     - Hmmm, eu disse. E aposto que era verdade.
     Enquanto subamos os muitos degraus at a varanda da frente, minha me ficava olhando para mim. Eu sabia que ela estava apreensiva com o que eu ia pensar. E 
eu estava mesmo meio danada com ela por no me ter avisado. Mas acho que posso entender por que ela no disse nada. Se ela tivesse me dito que tinha comprado uma 
casa com mais de cem anos, eu no teria mudado para l. Teria ficado com a vov at chegar a hora de entrar para a faculdade.
     Pois o fato  que a minha me tem toda razo: eu no gosto de construes antigas.
     Embora desse para ver que em matria de prdios antigos aquele era realmente especial... De p na varanda, a gente podia ver toda Carmel l embaixo, a cidadezinha, 
o vale, a praia, o mar. Era uma vista sensacional, e muita gente estaria disposta a pagar milhes para t-la - e na verdade pagava mesmo, a julgar pelo luxo das 
casas em volta; uma vista para ningum botar defeito.
     Ainda assim, quando minha me me chamou para ver meu quarto, eu tremi um pouco nas bases.
     A casa era to bonita por dentro quanto por fora, toda alegre com seus amarelos e azuis e seus alaranjados brilhantes. Eu logo reconheci as coisas da minha 
me, o que me fez sentir um pouco melhor. L estava a cristaleira que tnhamos comprado num fim de semana em Vermont. L estavam minhas fotos de beb, penduradas 
na parede da sala de estar, bem ao lado das fotos de Soneca, Dunga e Mestre. L estavam os livros da minha me, nas prateleiras embutidas na saleta. Suas plantas, 
por cujo transporte ela pagara to caro, por no conseguir se separar delas, estavam por toda parte, em trips de madeira, penduradas em frente s janelas, encarapitadas 
no alto do corrimo da escada.
     Mas tambm havia coisas que eu no estava reconhecendo: um belo de um computador branco na escrivaninha que minha me costumava usar para assinar cheques e 
pagar as contas; uma televiso de tela gigante absurdamente enfiada numa lareira na saleta, com fios ligando-a a uma espcie de videogame; pranchas de surfe encostadas 
na parede ao lado da porta que dava para a garagem; um enorme cachorro babo, que parecia convencido de que eu trazia comida nos bolsos, onde no parava de enfiar 
seu enorme focinho mido.
     Todas essas coisas pareciam estranhamente masculinas, objetos estranhos no tipo de vida que eu e minha me tnhamos cultivado. Ia ser necessrio algum tempo 
para eu me acostumar a elas.
     Meu quarto ficava no primeiro andar, bem em cima do telhado da varanda. Durante todo o percurso do aeroporto minha me ficara falando agitada sobre o assento 
que o Andy tinha instalado na janela de trs faces projetada para fora, do tipo conhecido como bay window. A janela dava para a mesma vista que a varanda, aquela 
paisagem impressionante que abarcava toda a pennsula. Era mesmo uma gracinha da parte deles me darem um quarto to bom, o quarto com a melhor vista da casa.
     E quando eu vi a trabalheira que eles tiveram, para que eu me sentisse em casa naquele quarto (ou pelo menos para que alguma garota excessivamente feminina 
e fantasmagrica se sentisse em casa... no, eu... Eu nunca tinha sido do tipo penteadeira com tampo de vidro e telefone cor de rosa), quando vi que o Andy mandara 
botar papel de parede creme com miostis azuis por cima dos intrincados lambris brancos ao longo das paredes; que as paredes do meu banheiro particular eram recobertas 
pelo mesmo papel; e que eles tinham comprado uma cama nova para mim - uma cama com armao de quatro colunas e dossel de rendas, do tipo que minha me sempre quisera 
me dar e dessa vez no pudera resistir, eu me senti culpada pela maneira como me havia comportado no carro. Realmente me senti. Caminhando pelo quarto, eu dizia 
a mim mesma: tudo bem, no  to ruim assim. Por enquanto voc est na boa. Talvez tudo d certo, talvez ningum tenha sido infeliz nesta casa, talvez aquelas pessoas 
todas que levaram tiros merecessem mesmo...
     At que me virei para a janela e vi que algum j estava aboletado no assento que o Andy fizera para mim com tanto carinho.
     Era uma pessoa que no era minha parenta, nem de Soneca, Dunga ou Mestre.
     Voltei-me para o Andy, para ver se ele tinha notado a presena do intruso. Mas ele no tinha, embora a pessoa estivesse bem ali, bem diante do seu rosto.
     Minha me tambm no a havia visto. Ela s estava vendo o meu rosto. Desconfio que a minha expresso no devia ser das mais agradveis, pois a expresso da 
minha me mudou completamente, e ela disse, num suspiro:
     - Ah, Suze, outra vez?!...
      
      Captulo 2

     Vou ter de explicar.  que eu no sou exatamente como qualquer garota de 16 anos. Quer dizer, acho que eu pareo bastante normal. No uso drogas, nem bebo,
nem fumo - tudo bem, s daquela vez em que o Soneca me pegou. No tenho nenhum piercing, s furos nas orelhas, e s um em cada lbulo. No tenho nenhuma tatuagem. 
Nunca pintei o cabelo.  parte minhas botas e minha jaqueta de couro, no exagero no preto. Nem uso esmalte escuro nas unhas. No final das contas, sou uma adolescente 
americana perfeitamente normal e comum.
     S que eu falo com os mortos.
     Talvez no devesse dizer assim. Talvez devesse dizer que os mortos  que falam comigo. Quer dizer, eu no ando por a procurando esse tipo de conversa. Na realidade, 
tento evitar essa coisa toda o mais que posso.
     Mas o negcio  que s vezes eles no me largam. 
     Estou me referindo aos fantasmas.
     No acho que eu seja maluca. Pelo menos no mais maluca que qualquer outra adolescente de 16 anos. Suponho que posso parecer maluca para certas pessoas. A maioria 
do pessoal no bairro onde eu morava certamente achava isto. Que eu era biruta. Mais de uma vez puseram os conselheiros da escola para cuidar de mim. s vezes chego 
a pensar que talvez at fosse mais fcil simplesmente deixar que me trancafiassem.
     Mas mesmo no nono andar de Bellevue - que  onde eles trancafiam os loucos em Nova York - eu provavelmente ainda no estaria a salvo dos fantasmas. Eles me 
achariam.
     Eles sempre me acham.
     Ainda me lembro do primeiro. Lembro-me dele com a mesma clareza das minhas outras lembranas daquela poca, o que significa que no me lembro muito bem, pois 
tinha apenas cerca de dois anos. Acho que me lembro to bem quanto me lembro de ter livrado um camundongo das garras do nosso gato, mantendo-o protegido em meus 
braos at que minha me, horrorizada, o arrancasse das minhas mos.
     Puxa vida, eu s tinha 2 anos, t? Na poca, ainda no sabia que a gente devia ter medo de ratos. Nem de fantasmas, por sinal. Por isto  que, quatorze anos 
depois, nenhum dos dois me assusta. Talvez me espantem, s vezes. E certamente me chateiam um bocado. Mas me dar medo?
     Nunca. 
     A apario, exatamente como o camundongo, era pequena, cinzenta e desprotegida. At hoje no sei quem era. Mas eu falei com ela, algum tatibitate de beb que 
ela no entendeu. Os fantasmas no entendem crianas de dois anos, como alis ningum entende. Ela s ficou me olhando tristemente do alto da escada do nosso prdio.
Acho que eu estava com pena dela, assim como tivera pena do camundongo, e queria ajud-la. S no sabia como. De modo que fiz o que qualquer criana de dois anos 
faria. Corri para a minha me.
     Foi ento que aprendi minha primeira lio a respeito dos fantasmas: s eu sou capaz de v-los.
     Quer dizer,  claro que outras pessoas tambm podem v-los. Caso contrrio, no teramos casas mal-assombradas, histrias de fantasmas, seriados de mistrio 
e tudo mais. Mas existe uma diferena. A maioria das pessoas que vem fantasmas s vem um. J eu vejo todos os fantasmas.
     Todos mesmo. Qualquer um. Qualquer pessoa que tenha morrido e por algum motivo ainda esteja por a, em vez de ir para onde deveria ir, eu sou capaz de ver.
     E posso lhe garantir que isto significa um bocado de fantasmas.
     No mesmo dia em que vi meu primeiro fantasma tambm descobri que a maioria das pessoas - at mesmo minha me - no consegue v-los. E alis ningum que eu tenha 
conhecido consegue. Ou pelo menos ningum confessa.
     O que me faz lembrar da segunda coisa que aprendi sobre os fantasmas naquele mesmo dia, h quatorze anos: no fim das contas,  sempre melhor no dizer que voc 
viu um fantasma. Ou, no meu caso, qualquer fantasma.
     No estou dizendo que minha me entendeu que eu estava apontando para um fantasma ao mesmo tempo que balbuciava umas coisas incompreensveis naquela tarde, 
quando tinha 2 anos. Duvido que ela soubesse. Provavelmente pensou que eu estava querendo dizer alguma coisa sobre o camundongo que ela havia tirado de mim naquela 
manh. Mas ela parecia descontrada l no alto da escada e concordou com a cabea, dizendo:
     - R-r... Escuta, Suze. O que vai querer para o almoo? Queijo quente? Atum?
     Eu no esperava exatamente uma reao semelhante  que ela teve no caso do camundongo. Minha me, que na poca tambm estava cuidando do beb de uma vizinha, 
soltara um berro daqueles ao ver o camundongo nos meus braos e berrara mais alto ainda quando eu anunciei orgulhosamente que agora tambm tinha o meu beb - e hoje 
eu me dou conta de que ela podia no ter entendido, j que no sacou a histria do fantasma.
     Mas eu esperava pelo menos que ela percebesse aquela coisa que estava flutuando no alto da escada. Diariamente estavam me dando explicaes sobre praticamente 
tudo que eu encontrava pela frente, dos hidrantes s instalaes eltricas. Por que no sobre aquela coisa no alto da escada?
     Mas quando eu estava comendo o meu queijo quente, um pouco depois, entendi que minha me no havia explicado nada sobre aquela coisa cinzenta porque no a tinha 
visto. Para ela, a coisa no estava l.
     Com dois anos de idade, isto no me pareceu absurdo. Na poca, pareceu simplesmente mais uma coisa que tornava as crianas diferentes dos adultos. As crianas 
tinham de comer os legumes at o fim. Os adultos no precisavam. As crianas podiam andar no carrossel no parque. Os adultos, no. As crianas podiam ver as coisas 
cinzentas. Os adultos no conseguiam.
     E embora eu tivesse apenas dois anos, entendi que aquela coisinha cinzenta no alto da escada no deveria ser comentada. No deveria ser comentada com ningum.
Nunca.
     E eu nunca comentei. Nunca falei com ningum sobre o meu primeiro fantasma, nem nunca comentei com ningum sobre as centenas de fantasmas que viria a encontrar 
nos anos seguintes. E no fim das contas, comentar o qu? Eu os via. Eles falavam comigo. Na maioria das vezes, eu no entendia o que eles estavam dizendo, o que 
queriam, e geralmente eles iam embora. Ponto final.
     Provavelmente a coisa teria continuado assim indefinidamente se meu pai no tivesse morrido de repente.
     Isso mesmo. Simples assim. L estava ele um belo dia na cozinha, cozinhando e contando piadas como sempre fazia, e no dia seguinte tinha partido.
     E durante toda a semana que se seguiu  sua morte - que eu passei na varanda em frente ao nosso prdio, esperando meu pai voltar para casa - as pessoas ficavam 
me dizendo a toda hora que ele nunca voltaria. 
     Claro que eu no acreditava. E por que haveria de acreditar? Meu pai no ia voltar? Eles tinham ficado malucos? Tudo bem, ele podia ter morrido. Esta parte 
eu tinha pego. Mas certamente ia voltar. Quem ia me ajudar com o dever de matemtica? Quem ia acordar cedo comigo nos sbados para fazer waffles e ver desenhos animados? 
Quem ia me ensinar a dirigir quando eu tivesse 16 anos, como ele havia prometido? Meu pai podia ter morrido, mas com toda certeza eu voltaria a v-lo. Todo dia eu 
estava vendo uma quantidade de pessoas mortas. Por que no haveria de ver o meu pai?
     E no fim eu estava certa. Puxa vida, meu pai tinha morrido. Quanto a isto no havia a menor dvida. Ele morreu de um enfarte fulminante. Minha me mandou cremar 
seu corpo, e guardou suas cinzas numa antiga caneca de cerveja alem - aquela com ala. Meu pai adorava cerveja. Ela botou a caneca numa prateleira bem alta, onde 
o gato no pudesse derrub-la, e s vezes, quando achava que eu no estava por perto, eu a surpreendia conversando com ela.
     Isto me deixava muito triste. Quer dizer, ela no tinha culpa. Se estivesse na situao dela, sem saber o que eu sabia, provavelmente eu tambm conversaria 
com a caneca.
     Mas, como voc v, era a que todas aquelas pessoas do meu quarteiro se enganavam. Meu pai estava morto,  verdade. Mas eu realmente voltei a v-lo.
     Na realidade,  provvel que o veja mais hoje em dia do que quando ele estava vivo. Quando estava vivo, ele tinha de ir para o trabalho quase todo dia. Agora 
que est morto, j no tem muito o que fazer. De modo que o vejo um bocado. s vezes at demais, no fundo. O passatempo favorito dele  aparecer de repente quando 
eu menos espero.  meio chato.
     Foi meu prprio pai que finalmente me explicou tudo. De modo que num certo sentido  bom que ele tenha morrido, pois de outra forma eu nunca ficaria sabendo.
     Na verdade, no  bem verdade. Certa vez, uma cartomante de tar disse algo a respeito. Foi numa festa na escola. Eu s fui porque a Gina no queria ir sozinha.
Para mim ia ser uma chatice, mas acabei indo porque  para essas coisas que servem as melhores amigas. A mulher - Zara, mdium vidente - leu as cartas da Gina, dizendo
exatamente o que ela queria ouvir: voc ter muito sucesso, ser neurocirurgi, vai se casar com 30 anos, ter trs filhos, blablabl. Quando ela acabou, eu me levantei
para ir embora, mas Gina insistiu em que Madame Zara tambm lesse cartas para mim.
     Voc pode imaginar o que aconteceu. Madame Zara leu as cartas uma vez, ficou confusa, embaralhou-as e leu de novo. Depois olhou para mim:
     - Voc fala com os mortos - disse ela. Gina ficou agitada:
     - Meu Deus do cu! Meu Deus!  mesmo? Suze, voc ou viu isso? Voc  capaz de falar com os mortos! Voc tambm  mdium!
     - Mdium, no - atalhou Madame Zara. - Mediadora. Gina ficou com ar de absoluto espanto. 
     - O qu? Que diabo  isso?
     Mas eu sabia. No sabia que nome davam, mas sabia o que era. Meu pai no tinha explicado as coisas exatamente daquela maneira quando falou comigo, mas de qualquer 
modo eu peguei a raiz da questo: simplesmente eu sou o contato para praticamente todo mundo que estica as canelas deixando as coisas... digamos, incompletas. E 
a, quando posso, eu ajeito as coisas.
      a nica maneira que eu consigo explicar a coisa. No sei por que fui ter tanta sorte - quer dizer, nas outras coisas eu sou to normal. Bom, quase... Simplesmente 
e infelizmente tenho essa capacidade de me comunicar com os mortos.
     Mas no qualquer morto. S os que esto infelizes.
     Voc j entendeu ento que nos ltimos 16 anos a minha vida tem sido mesmo um mar de rosas.
     Imagine s, ser assombrada - literalmente assombrada - pelos mortos, a cada minuto de cada dia da sua vida. No  nada agradvel. Voc vai ali na lanchonete 
tomar um refrigerante... opa, falecido na esquina. Algum o baleou. E se voc puder levar os tiras ao sujeito que fez aquilo, ele pode finalmente descansar em paz.
     E tudo que voc queria era um refrigerante.
     Ou voc vai  biblioteca... e p, l vem o fantasma de uma dona de livraria querendo que voc v dizer ao sobrinho dela que est furiosa com a maneira como 
ele passou a tratar os gatos depois que ela bateu as botas.
     E esses so s os caras que sabem por que ainda esto rondando por a. A metade deles no tem a menor idia de por que ainda no foram para o tipo de vida que
os esperava depois que morreram.
     O que no deixa de ser um saco, claro, pois eu sou a boboca que tem de ajud-los a tomar rumo.
     Eu sou a mediadora.
     Pode crer que no  o destino que eu desejaria a ningum.
     No se pode dizer que nesse campo da mediao as recompensas sejam generosas. Ningum nunca se deu ao trabalho de me oferecer um salrio ou coisa parecida. 
Nem sequer um pagamento por hora. S aquele calorzinho gostoso, de vez em quando, quando voc faz alguma coisa boa para algum. Como por exemplo dizer a uma garota 
que no conseguiu se despedir do av antes de ele morrer que ele realmente a ama, e a perdoa por aquela vez em que ela jogou fora sua coleo de selos. Esse tipo 
de coisa realmente pode acalentar o corao.
     A maioria das vezes, no entanto, so mesmo calafrios o tempo todo. Alm do estresse - estar sendo o tempo todo atormentada por gente que s voc consegue ver 
-, o fato  que muitos fantasmas so estpidos  bea. Isso mesmo. So chatos de doer. Esses so em geral os que realmente querem ficar mesmo rondando aqui neste 
mundo em vez de seguirem para o outro. Provavelmente eles sabem que por seu comportamento na vida mais recente no podem esperar muito boa coisa na que est por 
vir. De modo que ficam por a atazanando as pessoas, batendo portas, fazendo barulho com os objetos, provocando frio, gemendo. Voc sabe do que estou falando. A 
velha histria de fantasmas... 
     Mas s vezes eles so bem brutos.  quando tentam machucar as pessoas. De propsito.  a que em geral eu fico danada.  quando me d vontade de dar um pontap 
no traseiro de um fantasma.
     E era disso que minha me estava falando quando disse aquela frase - "Ah, Suze, outra vez?!..." Quando eu chuto os fundilhos de um fantasma, as coisas tendem 
a ficar um pouco... complicadas.
     No que eu tivesse a menor inteno de bagunar meu novo quarto. Por isto  que dei as costas para o fantasma sentado perto da minha janela e disse:
     - Deixa pra l, me. Est tudo bem. O quarto  maravilhoso. Obrigada mesmo.
     Deu para ver que ela no estava acreditando em mim. No  nada fcil enganar minha me. Eu sei que ela est desconfiando que h alguma coisa comigo. Simplesmente 
ela no consegue imaginar o qu. O que provavelmente  bom, pois do contrrio todas as certezas dela ficariam abaladas demais. Sabe como , ela  reprter de televiso. 
S acredita no que v. E fantasmas ela no consegue ver.
     Voc no imagina o quanto eu gostaria de ser como ela.
     - Que bom, que bom que voc gostou - disse ela. - Eu estava meio preocupada. Isto , sabendo como voc no gosta... bem, de lugares antigos.
     Lugares antigos so os piores para mim porque quanto mais velha for uma construo, mais chances haver de que algum tenha morrido nela e de que ele ou ela 
ainda estejam rondando por ali, em busca de justia ou querendo transmitir alguma mensagem final a algum. Para voc ficar sabendo, isto resultou em alguns lances 
dos mais interessantes, na poca em que minha me e eu estvamos procurando apartamento na cidade. A gente entrava naqueles apartamentos que pareciam perfeitamente 
OK, e eu comeava a dizer "No, no, de jeito nenhum" sem uma razo aparente que eu pudesse explicar.  mesmo um espanto que minha me no tenha me despachado depressinha 
para um internato.
     - Na boa, mame - disse eu. - Muito bom. Adorei.
     Ouvindo isto, Andy comeou a zanzar agitado pelo quarto, mostrando-me que as luzes podiam ser acesas e apagadas com palmas (ai, meu Deus...) e vrias outras 
gracinhas que ele havia providenciado. Eu ia atrs dele, mostrando que estava encantada, mas tomando o cuidado de no olhar na direo do fantasma. Era mesmo comovente 
ver como o Andy queria me ver feliz. E como ele parecia querer tanto, eu estava decidida a ser mesmo feliz. Ou pelo menos to feliz quanto  possvel para uma pessoa 
como eu.
     Depois de um certo tempo, Andy j no tinha mais o que me mostrar e saiu para comear a preparar o churrasco, pois em homenagem  minha chegada teramos um 
jantar especial. Soneca e Dunga foram "pegar uma onda" enquanto no chegava a hora e Mestre, balbuciando misteriosamente alguma coisa sobre uma "experincia" em 
que estava trabalhando, meteu-se em alguma outra parte da casa, deixando-me sozinha com minha me... quer dizer, mais ou menos. 
     Est tudo bem mesmo, Suze? - quis saber ela. - Eu sei que  uma mudana muito grande. Sei que  pedir muito de voc...
     Eu tirei minha jaqueta de couro. No sei se j disse, mas estava quente  bea para o ms de janeiro. Uns 25 graus. Eu quase havia torrado no carro.
     Est tudo bem, me - respondi. - Mesmo.
     Estou querendo dizer que pedir que voc se separasse da vov, da Gina, de Nova York... Foi egosmo meu, eu sei. Sei que as coisas no tm sido... como dizer, 
fceis para voc. Especialmente desde que papai morreu.
     Minha me gosta de pensar que o motivo pelo qual eu no sou a adolescente tradicional do jeito que ela era quando tinha a minha idade - ela era chefe de torcida, 
rainha de beleza, tinha montes de namorados e coisas do tipo -  por eu ter perdido meu pai to cedo. Ela culpa a morte dele por tudo, desde o fato de eu no ter 
amigos - com a exceo da Gina - at minhas eventuais demonstraes de comportamento bizarro.
     E acho mesmo que muitas coisas que fiz no passado podiam parecer bem bizarras para algum que no soubesse por que eu estava agindo daquela maneira, ou que 
no pudesse ver para quem eu estava fazendo aquilo. Muitas vezes fui apanhada em lugares onde no deveria estar. Algumas vezes cheguei a ser levada para casa pela 
polcia, acusada de invaso de propriedade, vandalismo ou arrombamento. 
     E embora nunca tenha sido condenada por nada, j passei muitas horas no consultrio da terapeuta da minha me, ouvindo que esta minha tendncia para falar comigo 
mesma  perfeitamente normal, mas que provavelmente o mesmo no se pode dizer da minha inclinao para conversar com pessoas que no esto presentes.
     O mesmo quanto  minha averso a qualquer edifcio que no tenha sido construdo nos cinco ltimos anos.
     O mesmo quanto ao nmero de horas que costumo passar em cemitrios, igrejas, templos, mesquitas, casas ou apartamentos (trancados) de outras pessoas e na escola 
depois do horrio,
     Acho que os garotos do Andy devem ter ouvido falar alguma coisa sobre isto, da aquela pergunta sobre andar em gangues. Mas, como disse, nunca tive de cumprir 
nenhuma pena por nada.
     E as duas semanas de suspenso na oitava srie nem chegaram a ser anotadas em minha caderneta.
     De modo que no era de estranhar que minha me estivesse ali sentada na minha cama, falando de "comear de novo" e coisas assim. No deixava de ser estranho 
que ela o estivesse fazendo enquanto aquele fantasma estava sentado ali a alguns passos apenas, nos observando. Mas no importa. Parecia que ela tinha necessidade 
de falar sobre como as coisas iam ser muito melhores para mim l na Califrnia.
     E se era isto que ela queria, eu ia fazer tudo que estivesse ao meu alcance para satisfaz-la. J tinha resolvido no fazer nada que pudesse acabar me levando 
para a cadeia, o que j era um bom comeo.
     - Bom - fez minha me, j meio sem flego depois de todo aquele discurso para dizer que eu no ia fazer amigos se no fosse simptica. - Ento, se voc no 
quer ajuda para desfazer as malas, acho que vou ver como  que o Andy est se saindo com o jantar.
     Alm de ser capaz de construir praticamente qualquer coisa, o Andy tambm era um excelente cozinheiro, o que minha me certamente no era nem de longe. Eu respondi:
     - Isso a, me. Faa isso. Vou s me ajeitar um pouco aqui e daqui a pouco deso.
     Minha me concordou e se levantou - mas no ia me deixar escapulir assim to facilmente. No momento em que ia passar pela porta, voltou-se e disse, com os olhos 
azuis cheios de lgrimas:
     - Eu s quero que voc seja feliz, Suzinha,  a nica coisa que eu sempre quis. Voc acha que vai ser feliz aqui?
     Eu dei um abrao nela. Quando estou com minhas botinas, tenho a mesma altura que ela.
     - Claro, me - respondi. -  claro que vou ser feliz aqui. J estou me sentindo em casa.
     -  mesmo? - fez minha me, fungando. - Jura? - Juro.
     E eu no estava mentindo, pois se no meu quarto no Brooklyn tambm havia fantasmas o tempo todo... 
     Ela saiu e fechou a porta. Esperei at que no estivesse mais ouvindo os passos dela na escada e ento me voltei.
     - OK - fui dizendo para aquela presena no assento da janela. - Quem diabos  voc?
     

      Captulo 3
     
     Se eu dissesse que o cara ficou surpreso de ser interpelado daquela maneira, estaria muito longe de dar idia da reao dele. Ele no ficou apenas surpreso.
Chegou at a olhar ao redor para ver se era com ele mesmo que eu estava falando.
     Mas  claro que a nica coisa que havia atrs dele era a janela e, alm dela, aquela vista inacreditvel da Baa de Carmel. De modo que acabou se voltando novamente 
para mim e deve ter visto que meu olhar estava grudado no seu rosto, pois suspirou "Nombre de Dios" de um jeito que provavelmente faria desmaiar a Gina, que tem 
um fraco por latinos.
     - No adianta invocar seus espritos superiores - comuniquei-lhe, arrastando a cadeira com bordados cor-de-rosa para minha nova penteadeira e sentando-me nela, 
de frente para o encosto. - Se ainda no notou, Ele no est prestando muita ateno em voc. Caso contrrio, no o teria deixado por aqui apodrecendo todos estes 
anos... - e ento dei uma olhada mais firme nas suas roupas, que pareciam muito com algo sado do velho oeste. - Quantos anos mesmo?... Uns cento e cinqenta anos? 
J passou mesmo este tempo todo desde que voc bateu as botas?
     Ele me olhou fixamente com seus olhos negros e midos. E perguntou, com uma voz rouca por falta de uso:
     - Que quer dizer... bateu as botas?
     Eu no pude deixar de revirar os olhos de impacincia. E traduzi:
     - Esticou as canelas. Dobrou o Cabo da Boa Esperana. Foi desta para melhor.
     Quando vi por sua expresso de perplexidade que ele continuava sem entender, finalmente eu disse, algo exasperada:
     Morreu.
     Ah - fez ele. - Morri.
     Mas em vez de responder a minha pergunta, ele balanou a cabea.
     No estou entendendo - disse, com ar de espanto. - No entendo como voc consegue me ver. Durante todos esses anos, ningum nunca...
     Claro - fui cortando, pois como voc j deve estar sabendo estou cansada de ouvir esse tipo de coisa. - Olha s, os tempos mudaram um bocado, sabia? Ento, 
qual  a sua?
     Ele piscou com aqueles enormes olhos negros. Suas pestanas eram mais longas que as minhas. No  sempre que eu dou de cara com um fantasma que tambm  uma 
graa, mas aquele cara... caramba, ele devia ter sido alguma coisa quando vivo, pois ali estava ele morto e eu j estava querendo adivinhar como eram as coisas por 
baixo da camisa branca que usava, bem aberta, mostrando um bocado o peito, e at um pouco do abdmen. Ser que fantasma tambm faz abdominal? Era o tipo da coisa 
que eu nunca tivera oportunidade - ou vontade - de explorar at ento.
     No que eu fosse me deixar perturbar por esse tipo de coisa quela altura dos acontecimentos. Afinal de contas, sou uma profissional.
     - A minha? - repetiu ele.
     At sua voz parecia liqefeita, com um ingls montono e sem acentuao como eu achava que era o meu, com aquele jeito de amortecer os "t" que a gente tem no 
Brooklyn. Era evidente que ele tinha alguma coisa de hispnico, como deixavam claro aquele "Nombre de Dios" que havia soltado e a cor da sua pele, mas com certeza 
era to americano quanto eu - ou pelo menos to americano quanto podia ser algum que tivesse nascido antes de a Califrnia tornar-se um estado.
     -  - disse eu para limpar a garganta. Ele se voltara um pouco e apoiara uma botina na almofada azul claro do assento da janela, e ento eu pude ter certeza 
de que os fantasmas realmente podem fazer abdominais. Seus msculos abdominais eram muito definidos, e cobertos com uma leve penugem de sedosos plos negros.
     Eu engoli em seco. Bota seco nisso. 
     - Sim, a sua - disse ento. - Qual o seu problema? Por que ainda est aqui?
     Ele olhou para mim, sem expresso no olhar, mas interessado. Eu fui mais clara:
     - Por que voc ainda no foi para o outro lado?
     Ele balanou a cabea. No sei se j disse que seu cabelo era curto e escuro e parecia bem crespo, dando a impresso de que se voc tocasse nele seria muito 
spero mesmo.
     - No sei o que voc est querendo dizer.
     Eu estava ficando com calor, mas j tinha tirado a jaqueta de couro, de modo que no sabia mais o que fazer. No podia tirar mais nada com ele ali me olhando. 
O fato de eu ter percebido isto  que deve ter contribudo para que de repente eu no me sentisse nada boazinha.
     - Como assim no sabe o que eu estou querendo dizer? - rebati, afastando uma mecha de cabelos dos olhos. - Voc est morto. No tem mais que ficar aqui. Deveria 
estar em algum outro lugar fazendo alguma coisa que as pessoas devem fazer depois que morrem. Cantando entre os anjinhos, ardendo no inferno, reencarnando, subindo 
para algum outro plano da conscincia, ou o que seja. Voc no devia... estar simplesmente andando por a.
     Ele ficou olhando para mim pensativo, equilibrando o cotovelo no joelho levantado, com o brao meio vacilante.
     - E se por acaso eu gostar exatamente de andar por a? - quis saber.
     Eu no tinha muita certeza, mas estava com a impresso de que ele estava zombando de mim. E eu no gosto nada que zombem de mim. No gosto mesmo. No Brooklyn, 
o pessoal costumava fazer isso toda hora - pelo menos at eu descobrir que um punho bem fechado no nariz  capaz de calar uma boca.
     Eu ainda no estava em condies de dar um murro naquele cara - ainda no. Mas faltava pouco. Simplesmente, eu tinha viajado um quaquilho de quilmetros, num 
percurso que parecia ter tomado dias e dias, para viver com um bando de garotos bobocas; ainda nem tinha desfeito as malas; praticamente j tinha feito a minha me 
chorar; e de repente dou com um fantasma no meu quarto... Algum poderia me acusar de estar sendo... digamos, injusta com ele?
     Olhe aqui - fui dizendo, levantando de um salto e passando a perna por cima do encosto da cadeira. - Voc pode ficar andando por a o quanto quiser, amigo. 
Vai fundo. No estou dando a mnima. Mas aqui, no.
     Jesse - disse ele, sem se mexer.
     O qu?
     Voc me chamou de amigo. Achei que gostaria de ficar sabendo que eu tenho um nome. Eu me chamo Jesse.
     Eu fiz que sim com a cabea.
     Certo. Faz sentido. Muito bem ento, Jesse. Voc no pode ficar aqui, Jesse.
     E voc?
     Jesse agora estava sorrindo para mim. Ele tinha um belo rosto. Uma cara boa. O tipo de rosto que no meu colgio antigo bastaria para ser eleito na hora o rei 
do baile. O tipo de rosto que a Gina recortava das revistas para colar na parede do quarto.
     No que ele fosse bonitinho. No era mesmo. O que ele parecia mesmo era perigoso. E no era pouco, no.
     E eu o qu? - retruquei, sabendo que estava sendo rude, mas no dando a mnima.
     Como se chama?
     Eu olhei bem fixo para ele.
     - Olha aqui. Vai dizendo logo o que voc quer e cai fora. Estou com calor e quero trocar de roupa. No tenho tempo para...
     Ele me interrompeu com perfeita amabilidade, como se no estivesse me ouvindo:
     Aquela mulher, sua me, chamou-a de Suzinha - disse ele, com os olhos negros brilhando para mim. -  apelido de Susan?
     Suzannah - eu disse, corrigindo-o automaticamente. - Como naquela cano, "No chore por mim".
     Ele sorriu:
     Eu conheo.
     Isso a. Provavelmente estava entre as 40 mais tocadas no ano em que voc nasceu, certo?
     Ele continuou sorrindo.
     Quer dizer ento que este agora  o seu quarto, Suzannah?
     Isso mesmo - respondi. - Isso a, este agora  o meu quarto. De modo que voc vai ter que se mandar. 
     Eu vou ter que me mandar? - fez ele, levantando uma sobrancelha. - Esta aqui  a minha casa h um sculo e meio. Por que eu teria de sair?
     Porque sim - e eu j estava ficando realmente muito danada, em grande parte porque estava com tanto calor, e queria abrir uma janela, mas a janela estava atrs 
dele, e eu no queria me aproximar tanto assim. - Este quarto  meu. No vou dividi-lo com um caubi morto.
     Dessa vez ele entendeu direitinho. Levou o p de volta ao piso, batendo com fora, e se endireitou. Imediatamente eu lamentei ter dito o que disse. Ele era 
alto, bem mais alto que eu, e olhe que com minhas botas eu tenho um metro e setenta e cinco.
     - No sou nenhum caubi - informou ele, zangado. E acrescentou alguma coisa baixinho em espanhol, mas como eu sempre optara por francs na escola, no tinha 
a menor idia do que ele estava dizendo. Ao mesmo tempo, o espelho antigo pendurado sobre minha nova penteadeira comeou a balanar perigosamente no gancho que o 
prendia  parede. E eu sabia que aquilo no se devia a nenhum terremoto californiano, mas  agitao do fantasma que estava na minha frente, cujos poderes, obviamente, 
eram do tipo telecintico, aquele negcio de mover coisas com a mente.
      este o problema com os fantasmas: eles so to suscetveis! Ficam alterados ao menor motivo.
     - Uaaau! - fiz eu, esticando os braos para cima, com as palmas das mos voltadas para fora. - Menos! Calma a, rapaz! 
     Todos na minha famlia - enfureceu-se Jesse, com o dedo em riste no meu rosto - trabalharam feito escravos para conseguirem alguma coisa neste pas, mas nunca, 
nunca houve nela nenhum vaqueiro...
     Ei! - interrompi, e foi a que cometi o meu maior erro; muito irritada com aquele dedo na minha cara, eu o agarrei com toda fora, torcendo sua mo e puxando-o 
para mim para ter certeza de que ele ia me ouvir dizer bem baixinho: - Pare com o espelho agorinha. E tira este dedo do meu nariz. Se fizer de novo, ser um dedo 
quebrado.
     Empurrei sua mo para o lado e constatei com satisfao que o espelho parar de balanar. Mas foi ento que olhei para o seu rosto.
     Fantasmas no tm sangue. E como poderiam ter? Pois se no esto vivos... Mas posso jurar que naquele momento o rosto de Jesse ficou completamente sem cor,
como se cada gota de sangue que por acaso l estivesse tivesse se evaporado de uma hora para outra.
     Como no esto vivos nem tm sangue correndo nas veias,  claro que os fantasmas tambm no so feitos de matria. De modo que no fazia o menor sentido que
eu tivesse conseguido agarrar o seu dedo. Minha mo devia ter atravessado ele, certo?
     Errado.  assim que acontece com a maioria das pessoas. Mas no com pessoas como eu. Com os mediadores no  assim. Ns vemos fantasmas, falamos com fantasmas 
e, se necessrio, podemos perfeitamente dar um pontap no traseiro de um fantasma. 
     Mas eu no gosto de sair por a dizendo isto para todo mundo. Sempre tento o mximo possvel no tocar neles - e alis, no tocar em ningum. Quando falham 
todas as tentativas de mediao e eu preciso recorrer a uma certa dose de coero fsica com um esprito recalcitrante, geralmente prefiro que ele ou ela no fique 
sabendo antes da hora que eu sou capaz disto. Os ataques inesperados so a melhor coisa quando estamos tratando com integrantes do outro mundo, que, como todo mundo 
sabe, sempre jogam sujo.
     Olhando para o prprio dedo como se eu tivesse feito um buraco nele, Jesse parecia completamente incapaz de dizer o que quer que fosse. Provavelmente era a 
primeira vez em que ele era tocado por algum em um sculo e meio. O tipo da coisa que pode deixar um sujeito de cabea zonza. Sobretudo um sujeito morto.
     Aproveitando que ele estava atarantado, eu disse, com a voz mais firme e sria do mundo:
     - Agora oua bem, Jesse. Este quarto  meu, entendido? Voc no pode ficar aqui. Ou voc me deixa ajud-lo a ir para onde deve estar ou vai ter de achar outra 
casa para assombrar. Sinto muito, mas  assim.
     Jesse tirou os olhos do dedo, ainda com uma expresso de quem no est absolutamente acreditando.
     - Mas quem  voc? - perguntou, suavemente. - Que tipo de... garota  voc?
     Ele hesitou tanto tempo antes de conseguir dizer a palavra garota que pareceu claro que no estava certo de que fosse a palavra adequada no meu caso. Isto me 
deixou meio intrigada. Afinal, eu posso no ter sido a garota mais popular da escola, mas ningum nunca negou que eu fosse mesmo uma garota. Caminhoneiros buzinam 
para mim vez ou outra e no  porque querem que eu saia da frente. Pees de obra s vezes dizem coisas bem pesadas quando eu passo, especialmente se estou usando 
minha minissaia de couro. Eu no sou feiosa, nem de jeito nenhum masculinizada.  claro que eu tinha acabado de ameaar quebrar o dedo dele, mas vamos e venhamos, 
isto no queria dizer que eu no fosse uma garota!
     - Pois vou dizer-lhe que tipo de garota eu no sou - fui dizendo, danada da vida. - O que eu no sou  o tipo de garota disposta a compartilhar o quarto com 
um membro do sexo oposto. Deu para entender? De modo que ou voc se arranca ou eu vou bot-lo daqui para fora. Voc decide. Vou lhe dar algum tempo para pensar. 
Mas quando voltar aqui, Jesse, no quero v-lo mais.
     Dei as costas e sa.
     No tinha outra sada. Geralmente eu no perco discusso com fantasmas, mas tinha a impresso de que estava perdendo aquela, e feio. Eu no devia ter sido to 
rspida com ele, nem devia ter sido rude. No sei o que me deu, realmente no sei.  que...
     Acho que simplesmente eu no esperava encontrar o fantasma de um cara to gracinha no meu quarto, s isso.
     Meu Deus do cu, pensei enquanto descia as escadas, que vou fazer se ele no for embora? No vou poder nem trocar de roupa no meu prprio quarto! 
     D um tempo pra ele, comeou a dizer uma voz na minha cabea. Uma voz sobre a qual eu tomara o maior cuidado de no dizer nada  terapeuta da minha me.
     D um tempo pra ele. Ele vai entender. Eles sempre entendem.
     Bom, quase sempre.
     

      Captulo 4
      
     Jantar na casa dos Ackerman era igualzinho a jantar em qualquer outra casa de famlia grande que eu conhecia: todo mundo falava ao mesmo tempo - menos, claro,
Soneca, que s falava quando algum lhe perguntava alguma coisa - e ningum queria tirar a mesa no fim. Programei meu crebro para telefonar no dia seguinte para 
a Gina e dizer que ela estava errada. Eu no conseguia ver qual era a vantagem de ter irmos: eles comiam com a boca aberta e acabavam com todos os croquetes antes 
que eu conseguisse chegar perto de um nico.
     Depois do jantar, resolvi que seria melhor no voltar para o quarto e deixar bastante tempo para o Jesse decidir se ia cair fora com ou sem os dentes. No sou 
muito f de violncia, mas infelizmente  um dos ossos do ofcio no meu caso. s vezes a nica maneira de fazer algum ouvir  com os punhos. Reconheo que no  
uma tcnica recomendada pelos manuais usados pela maioria dos terapeutas para fazer seus diagnsticos.
     Mas eu nunca disse mesmo que era uma terapeuta...
     Meu plano s tinha um problema: era noite de sbado. Com todo o estresse da mudana, eu tinha esquecido que dia era. Numa noite de sbado comum em Nova York, 
eu provavelmente teria sado com a Gina, tomado o metr para Greenwich Village para ir ao cinema ou simplesmente ficado ali pela Joe's Pizza vendo gente passar. 
Posso ser uma garota de cidade grande, mas isto no quer dizer que a minha vida l fosse cheia de glamour. Eu nunca fui convidada para sair com um garoto, fora aquele 
dia na quinta srie em que o Daniel Bogue me chamou para patinar no gelo com ele enquanto tocava uma msica s para casais no ringue do Rockefeller Center.
     E a eu morri de vergonha ao cair de cara no gelo.
     Mas a minha me no podia esperar a hora em que eu adentraria a vida social de Carmel. Mal havia enchido o lava-louas, e ela comeou:
     - Brad, o que voc vai fazer hoje  noite? Tem alguma festa ou coisa assim? Quem sabe voc levava a Suze e a apresentava s pessoas?
     Dunga, que estava preparando um shake de protenas - aparentemente, as duas dzias de camares gigantes e o bife cavalar que ele comera no jantar no eram suficientes 
- respondeu:
     -  mesmo, quem sabe, se o Jake no fosse trabalhar hoje  noite... 
     Ouvindo seu nome, Soneca se sacudiu, enfiou a cara no relgio, soltou uma praga, pegou a jaqueta e foi saindo. Mestre olhou para o relgio e fez um "tsc,tsc":
     - Atrasado de novo. Se no tomar cuidado, vai ser posto na rua.
     Mas o Soneca tinha um emprego? Era novidade para mim, e eu perguntei:
     Onde ele trabalha?
     Na Pennsula Pizza.
     Mestre estava fazendo alguma experincia esdrxula com o cachorro e a bicicleta ergomtrica da minha me. O cachorro, que era gigantesco - um cruzamento de
So Bernardo e urso, acho eu - estava pacientemente sentado no cho enquanto Mestre prendia eletrodos em pequenas clareiras que havia aberto em sua pele, raspando 
o plo. O mais estranho de tudo  que ningum parecia estar ligando, muito menos o cachorro.
     - O Sone... quer dizer, o Jake est trabalhando em uma pizzaria?
     Da cozinha, areando uma forma de bolo na pia, o Andy explicou:
     Ele faz as entregas. Volta para casa com um monte de gorjetas.
     Ele est economizando para comprar um Camaro - informou Dunga, com um grosso bigode branco de shake.
     Ah... - disse eu.
     Se quiserem que eu os deixe em algum lugar, terei o maior prazer - ofereceu-se Andy, generosamente. - E ento, Brad? Vai mostrar  Suze como andam as coisas 
no shopping?
     - Negativo - respondeu Dunga, limpando a boca com a manga do pulver. - O pessoal ainda no voltou do feriado em Tahoe. Talvez na semana que vem.
     Eu quase desmaiei de alvio. A palavra shopping invariavelmente me enchia de horror, horror que no tinha nada a ver com os "desmortos". Em Nova York no existem 
shoppings como os daqui, mas a Gina adorava pegar o trem para ir a Nova Jersey. Geralmente depois de uma hora eu ficava com os sentidos completamente transtornados 
e tinha de me sentar para tomar um chazinho de ervas at me acalmar.
     E eu tenho de reconhecer que tambm no estava propriamente encantada com a idia de algum me "deixar" em algum lugar. Minha nossa, que havia de errado com 
aquele lugar? Dava para entender perfeitamente por que no seria uma grande idia implantar o metr, considerando-se as falhas geolgicas que provocavam terremotos, 
mas por que no tinham criado um sistema decente de transporte urbano em nibus?
     - Eu sei - disse Dunga, largando seu copo vazio. - Vou pr uns jogos de Coolboarder para voc, Suze.
     Eu fiquei olhando para ele:
     Voc o qu?
     Vou jogar Coolboarder com voc - repetiu Dunga, logo perguntando, diante da minha expresso, que continuava igualmente espantada: - Nunca ouviu falar de Coolboarder? 
Ah, fala srio... 
     Levou-me ento at a televiso. E logo ficou claro que Coolboarder era um videogame. Cada jogador tinha uma prancha de deslizar na neve, e ficavam todos correndo 
uns atrs dos outros em montanhas nevadas, usando uma alavanca para controlar a velocidade das pranchas e fazer os movimentos mais incrveis.
     Ganhei oito vezes do Dunga, at que finalmente ele disse:
     - Chega disto, vamos ver um filme.
     Percebendo que devia ter cometido um erro - provavelmente devia ter deixado o pobre garoto vencer pelo menos uma vez -, eu tentei melhorar a situao oferecendo-me 
para fazer a pipoca, e fui para a cozinha.
     S ento  que me veio aquela onda de cansao. A defasagem entre Nova York e a Califrnia  de trs horas, e embora ainda fossem 9 horas da noite, eu j me 
sentia como se fosse meia-noite. Andy e mame j se haviam retirado para o grande quarto principal, mas deixaram a porta bem aberta, provavelmente para ningum pensar 
que estivessem fazendo algo errado. Andy estava lendo um romance de espionagem e mame estava vendo um filme de televiso.
     Eu tinha certeza de que aquilo era pura encenao para a crianada; na maioria das outras noites de sbado aposto que eles teriam fechado a porta, ou pelo menos 
teriam sado com os amigos de Andy ou os novos colegas de mame na estao de TV de Monterey onde tinha sido contratada. Era evidente que eles estavam tentando criar 
uma situao domstica em que nos sentssemos seguros. Mereciam palmas por estarem dando o melhor de si. 
     Enquanto esperava que as pipocas estourassem, eu ficava me perguntando o que meu pai diria de tudo aquilo. Ele no tinha ficado propriamente entusiasmado com 
a idia de mame voltar a se casar, muito embora Andy seja um cara sensacional, como eu j disse. E ficara ainda menos entusiasmado com minha transferncia para 
a Califrnia.
     Como  que eu vou me materializar para voc quando estiver morando a quase 5 mil quilmetros de distncia? - perguntara ele quando eu lhe contei.
     A questo, pai,  que voc no tem que ficar aparecendo para mim - respondi. - Voc est morto, lembra? Tem de fazer o que as pessoas mortas fazem, em vez de 
ficar espionando a mim e a mame.
     Ele pareceu ficar meio magoado.
     No estou espionando - disse. - Estou apenas dando uma olhada. Para saber se voc est feliz, essas coisas...
     Estou sim - garanti. - Estou muito feliz, e mame tambm.
     Claro que eu estava mentindo. No sobre a mame, mas sobre mim. Eu tinha ficado com os nervos em frangalhos ante a perspectiva de me mudar. Mesmo agora ainda 
no estava realmente certa de que a coisa ia funcionar. Aquela situao com o Jesse... Quer dizer: onde  que estava o meu pai, no fim das contas? Por que no estava 
l em cima dando um pontap nos fundilhos daquele cara? Afinal de contas, Jesse era um garoto, e estava no meu quarto, e os pais supostamente detestam esse tipo 
de coisa... 
     Mas  este o problema com os fantasmas. Eles nunca aparecem quando voc realmente precisa deles. Nem mesmo quando so seu pai.
     Acho que eu devo ter sado um pouco de rbita, pois quando vi, o microondas estava apitando. Tirei a pipoca e abri o pacote. J estava jogando toda a pipoca 
numa grande gamela de madeira quando minha me entrou na cozinha e acendeu a luz do alto.
     Oi, querida - disse ela, e depois olhou para mim. - Tudo bem com voc, Suzinha?
     Claro, me - respondi, levando um bocado de pipoca  boca. - O Dunga... quer dizer, Brad e eu vamos ver um filme.
     Tem certeza? - insistiu ela, me olhando com curiosidade. - Tem certeza de que est tudo bem?
     - Sim, estou bem. S um pouco cansada. Ela pareceu aliviada.
     - Tudo bem ento. Eu achava mesmo que voc ia sentir o cansao da viagem. Mas... bem,  que voc parecia to estranha quando entrou pela primeira vez no seu 
quarto. Sei que a cama de dossel foi um pouco de exagero, mas no consegui resistir.
     Fiquei s mastigando. J estava totalmente acostumada a esse tipo de coisa.
     A cama  perfeita, me - disse ento. - O quarto tambm  um barato.
     Estou to contente - disse ela, afastando uma mecha de cabelo dos meus olhos. - Fico to contente que voc tenha gostado, Suze. 
     Minha me parecia to aliviada que de certa forma eu tive pena dela. Ela  uma mulher legal e no merecia uma filha mediadora. Eu sei que ela sempre se sentiu 
meio decepcionada comigo. Quando eu fiz 14 anos, ela me deu uma linha telefnica prpria, achando que tantos garotos iam passar a me telefonar que suas amigas nunca 
iam conseguir falar com ela. D para imaginar como ficou decepcionada vendo que s a Gina telefonava para a minha linha particular, e ainda assim em geral para me 
contar os encontros que ela tinha. Como j disse, os garotos do meu bairro nunca se interessaram muito em me convidar para sair.
     Pobre mame. Ela sempre quis ter uma filha adolescente legal e normal. Em vez disso, foi arranjar a mim.
     - Amorzinho - disse ela -, no quer se trocar? Voc est com essas roupas desde seis horas da manh, no est?
     Ela fez esta pergunta no exato momento em que Mestre ia entrando para pegar mais cola para seus eletrodos - embora eu no estivesse mesmo para responder algo 
do tipo "bom, para dizer a verdade, mame, gostaria mesmo de me trocar, mas no fico nada animada com a idia de faz-lo em frente do fantasma do caubi morto que 
est vivendo no meu quarto".
     Em vez disso, eu dei de ombros e respondi, como quem no quer nada:
     Sim, claro, vou mudar de roupa daqui a pouquinho.
     Tem certeza de que no quer ajuda para desfazer as malas? Estou muito sem graa... Eu devia... 
     -No, no preciso de ajuda. Vou desfazer as malas daqui a pouquinho - respondi, enquanto observava o Mestre vasculhando uma gaveta. - Mas agora vou indo. No 
quero perder o incio do filme,
     Claro que no fim das contas acabei perdendo o incio, o meio e o fim do filme. Ca no sono no sof e s acordei um pouco depois das 11 com o Andy sacudindo 
o meu ombro.
     - De p e direto para a cama, guria - disse ele. - Acho que vai ter de confessar que no agentou a parada. No se preocupe. O Brad no vai contar para ningum,
     Eu me levantei, meio zonza, e fui para o quarto. Fui direto at a janela e a escancarei. Para meu alvio, no havia nenhum Jesse no meio do caminho. Isso a! 
Posso dizer que ainda dou conta do recado.
     Apanhei minha ncessaire e fui para o banheiro. Tomei uma chuveirada e ali mesmo - s por garantia, pois no tinha certeza de que o Jesse entendera o recado 
e havia mesmo desaparecido - botei o pijama. Quando sa do banheiro, sentia-me um pouco mais desperta. Olhei ao redor, sentindo a brisa fresca que entrava, o ar 
salgado do litoral. Ao contrrio do que acontecia no Brooklyn, onde nossos ouvidos estavam sendo constantemente atacados por sirenes e alarmes de carros, ali nas 
colinas era muito tranqilo, e o nico som de vez em quando era o pio de uma coruja.
     Para minha surpresa, eu via que estava sozinha. Sozinha de verdade. Zona livre de fantasmas. Exatamente o que eu sempre quisera.
      Ca na cama e bati palmas, para apagar as luzes. E me enfiei bem debaixo dos lenis novinhos, que ainda pareciam estalar.
     Logo antes de cair no sono, achei que tinha ouvido alguma coisa alm da coruja. Parecia algum cantando ", Suzannah, no chores por mim, pois eu vim l do
Alabama tocando o meu bandolim".
     Mas era s minha imaginao, tenho certeza.


      Captulo 5
      
     A Academia Catlica Junipero Serra havia sido integrada ao sistema oficial de ensino na dcada de 80, e para meu grande alvio desistira recentemente da obrigatoriedade
do uniforme. Os uniformes eram azul real e branco, que no so exatamente as minhas cores favoritas. Felizmente, os uniformes eram to impopulares que o colgio
acabou desistindo deles, assim como acabara aceitando meninas, e embora os alunos ainda no pudessem usar jeans, podiam vestir praticamente tudo que quisessem. O 
que me convinha perfeitamente, pois eu s estava interessada em usar minha enorme coleo de roupas de grife, comprada em vrias lojas de Nova Jersey com a ajuda 
de Gina como consultora de moda.
     Mas o lado catlico  que ia ser um problema. No exatamente um problema, mais um transtorno. O negcio  que minha me nunca se preocupou em me educar dentro 
de alguma religio especfica. Meu pai era judeu no-praticante e minha me, crist. A religio nunca havia desempenhado um papel importante na vida dos dois, e 
nem  preciso dizer que s servira para me confundir. O que estou querendo dizer  que qualquer um poderia imaginar que eu tivesse uma compreenso melhor da religio 
do que qualquer outra pessoa, mas a verdade  que eu no tenho a menor idia do que acontece com os fantasmas que mando para onde deveriam ir depois de morrer. S 
sei que depois que os mando para l, eles no voltam. Nunca. Ponto final.
     De modo que quando minha me e eu chegamos  administrao do Colgio da Misso na segunda-feira posterior  minha chegada  ensolarada Califrnia, eu estava 
bastante incomodada com o enorme Jesus crucificado por trs da escrivaninha da secretria.
     E alis eu havia sido prevenida. Na manh de domingo, minha me mostrara o colgio da janela, enquanto me ajudava a desfazer as malas.
     - Est vendo aquela grande cpula vermelha? - perguntou. -  a Misso. A cpula  da capela.
     Mestre estava ali por perto - eu j havia notado que ele fazia isto com muita freqncia - e comeou a fazer mais uma das suas descries detalhadas, desta 
vez sobre os franciscanos, membros de uma ordem religiosa catlica que seguia os ensinamentos de So Francisco, oficializados em 1209. O padre Junipero Serra, um 
monge franciscano, era, segundo Mestre, um personagem histrico tragicamente mal interpretado. Heri polmico da Igreja catlica, a possibilidade de sua santificao 
chegara a ser considerada em certa poca, mas, segundo a explicao de Mestre, os indgenas americanos contestaram a iniciativa, considerando-a "uma forma de aprovao 
das tticas de explorao da colonizao espanhola. Embora se saiba que defendeu os direitos econmicos e de propriedade dos indgenas americanos aculturados, Junipero 
Serra tambm militou ativamente contra seus direitos de ter um governo prprio e apoiou com intransigncia os castigos corporais, recorrendo ao governo espanhol 
pelo direito de aoitar indgenas".
     Quando Mestre acabou sua palestra, eu olhei para ele e perguntei:
     - Memria fotogrfica, hein? Ele ficou sem graa.
     - Bom - respondeu. -  sempre bom conhecer a histria do lugar onde a gente vive.
     Arquivei aquilo na memria para o caso de necessidade no futuro. Mestre podia ser a pessoa indicada caso Jesse voltasse a aparecer.
     Naquele momento, de p ali no frio escritrio do prdio antigo que Junipero Serra mandara construir para o progresso dos nativos da regio, eu estava me perguntando
quantos fantasmas encontraria. Aquele tal de Serra devia ter um monte de indgenas fulos com ele - especialmente levando-se em conta a histria dos castigos corporais
- e eu no tinha a menor dvida de que ia encontrar todos eles.
     Apesar disso, quando minha me e eu atravessamos o grande prtico frontal do colgio em direo ao ptio em torno do qual a Misso fora construda, no vi uma
nica pessoa que parecesse estar no outro mundo. Havia alguns turistas tirando fotos de uma bela fonte, um jardineiro trabalhando ao p de uma palmeira - pois havia
palmeiras at no meu novo colgio -, um padre caminhando em atitude de silenciosa contemplao pela ventilada galeria. Era um lugar bonito e tranqilo, especialmente
considerando-se que se tratava de uma construo to antiga, pela qual j deviam ter passado tantos mortos.
     Eu no estava entendendo. Onde estavam os fantasmas?
     Talvez eles tivessem medo de ficar por ali. At eu estava meio assustada, diante daquele crucifixo. No que eu tenha alguma coisa contra a arte religiosa, mas
ser que era mesmo necessrio retratar a crucificao de forma to realista, com tantas feridas e tudo mais?
     Aparentemente eu no era a nica a pensar assim, pois um garoto que estava afundado num sof em frente ao lugar onde minha me e eu havamos sido instrudas
a esperar percebeu que eu estava olhando naquela direo e disse:
     - Dizem que ele chora lgrimas de sangue quando alguma garota daqui se forma ainda virgem.
     Eu no consegui me impedir dar uma risadinha. Minha me fuzilou-me com o olhar. A secretria, uma mulher rechonchuda de meia-idade com ares de que uma coisa
daquelas a ofendia profundamente, limitou-se a revirar os olhos e soltar, enfarada:
      - Oh, Adam.
     Adam, um garoto bonito mais ou menos da minha idade, olhou para mim com a cara mais sria:
     -  verdade - disse, em tom grave. - Aconteceu no ano passado. Minha irm - e acrescentou, baixinho: - Ela  adotada.
     Eu achei graa de novo, e minha me franziu a testa para mim. Na vspera, ela passara a maior parte do dia me explicando que havia sido muito, muito difcil 
mesmo convencer o colgio a me aceitar, sobretudo porque ela no tinha um atestado de batismo meu para apresentar. No fim das contas, eles s tinham concordado com 
a minha matrcula por causa do Andy, pois os trs filhos dele estudavam l. Acho que um donativo bem polpudo tambm contribuiu para eu ser aceita, mas minha me 
nunca me falaria de uma coisa dessas. Ela s disse que era melhor eu me comportar direito e no ficar jogando nada pelas janelas - embora eu insistisse com ela em 
que aquele incidente no fora culpa minha. Eu estava lutando com um jovem fantasma particularmente violento que se recusava a parar de perseguir as garotas no vestirio 
da minha antiga escola. Atirando-o pela janela, eu certamente conseguira que me ouvisse e que se decidisse a tomar o bom caminho para todo o sempre.
     Para minha me, claro, eu dissera que estava praticando tnis no vestirio e que a raquete escapulira da minha mo - uma histria nada digna de crdito, pois 
nunca foi encontrada nenhuma raquete.
      Eu estava relembrando esse episdio nada agradvel quando se abriu uma pesada porta de madeira, entrou um padre e disse:
     - Sra. Ackerman, que prazer v-la de novo! Esta deve ser Suzannah Simon. Queiram entrar, por favor.
     Ele nos conduziu ao seu gabinete, deteve-se um momento e disse ao garoto que estava no sof:
      Mas j, McTavish? Logo no primeiro dia do semestre?... Adam deu de ombros:
     - Que posso dizer? A baranga me odeia.
     - Por favor no chame irm Ernestine de baranga, McTavish. Vou atend-lo daqui a pouco, depois de conversar com estas senhoras.
     Ns entramos, e o diretor, padre Dominic, conversou um pouco conosco, perguntando se eu estava gostando da Califrnia. Respondi que estava gostando muito, especialmente 
do mar. Na vspera, ns havamos passado o dia quase todo na praia, depois que eu acabei de desfazer as malas. Eu havia encontrado meus culos escuros e, embora 
estivesse muito frio para entrar na gua e nadar, achei o mximo ficar simplesmente estendida na areia observando as ondas. Eram gigantescas, bem maiores que em 
SOS Malibu, e Mestre passou a maior parte da tarde me explicando o porqu. J nem me lembro da explicao, pois estava to zonza por causa do sol que nem conseguia 
prestar ateno. Descobri que gostava da praia, do seu cheiro, das algas que vinham dar na rebentao, da sensao da areia fresca entre os dedos do p, do gosto 
de sal na pele quando voltava para casa. Carmel podia no ter um Bagel Bob's, mas Manhattan certamente no tinha uma praia.
     Padre Dominic manifestou o sincero desejo de que eu me desse bem com a Academia da Misso e explicou que, embora eu no fosse catlica, seria bem-vinda na missa. 
Claro que havia dias santos obrigatrios nos quais os alunos catlicos tinham de deixar a aula para ir  igreja. Eu poderia acompanh-los ou ficar sozinha na classe, 
conforme quisesse.
     Achei aquilo meio engraado, no sei bem por qu, mas consegui segurar o riso. Padre Dominic era um homem velho, mas alerta, e me pareceu alinhado com sua batina 
preta de gola branca - nada mau para um sessento. Ele tinha cabelos brancos e olhos muito azuis, alm de unhas muito bem tratadas. No conheo muitos padres, mas 
achei que aquele podia ser bem legal, sobretudo porque no pegara pesado com o garoto que chamou a freira de baranga na secretaria.
     Depois de falar de todas as infraes que podiam levar  expulso do colgio - matar muitas aulas, vender drogas no campus, o de sempre -, padre Dominic quis 
saber se eu tinha alguma pergunta. Respondi que no. Ele fez a mesma pergunta a minha me. Ela tambm no tinha. Padre Dominic ento levantou-se e disse:
     - Muito bem. Vou me despedir da senhora e levar Suzannah  sua primeira aula. Est bem assim, Suzannah?
     Achei meio estranho que o diretor, que provavelmente tinha muito que fazer, estivesse se dando ao trabalho de me conduzir  minha primeira aula, mas no disse 
nada. Simplesmente peguei meu casaco - uma capa de l negra da Esprit, trs chic (minha me no me deixaria usar couro no primeiro dia no colgio) - e fiquei esperando 
enquanto ele e minha me se despediam. Minha me se despediu de mim com um beijo e me lembrou de ir ao encontro do Soneca s trs horas, pois ele estava incumbido 
de me levar para casa - s que ela no o chamou de Soneca, claro. Mais uma vez a vergonhosa carncia de transportes pblicos significava que eu tinha de ficar indo 
e vindo da escola em companhia de meus meios-irmos.
     Minha me foi embora e padre Dominic estava me conduzindo pelo ptio depois de dizer a Adam que o esperasse.
     - Sem problema, padre - respondeu Adam, olhando de soslaio para mim por trs do padre. No  todo dia que algum garoto da minha idade olha para mim de soslaio. 
Fiquei desejando que ele estivesse na minha classe. Os sonhos da minha me a respeito da minha vida social talvez pudessem finalmente realizar-se.
     Enquanto caminhvamos, padre Dominic ia dando algumas explicaes sobre o prdio - ou sobre os prdios, melhor dizendo, pois eram muitos. Vrias construes 
de grossas paredes de tijolo cru eram interligadas por galerias de teto baixo, no meio das quais se encontrava o belo parque com palmeiras, uma fonte borbulhante 
e uma esttua de bronze do padre Serra com mulheres aos seus ps - o perfeito esteretipo das ndias peles-vermelhas com seus bebs pendurados nas costas. - Do outro 
lado da galeria havia bancos de pedra, para que as pessoas pudessem contemplar tranqilamente a beleza do ptio, alm das portas das salas de aula e armrios com 
cadeado embutidos na parede. Padre Dominic explicou que um deles era meu e que ele trazia consigo o segredo para abri-lo. Perguntou ento se eu queria guardar meu 
casaco.
     Ao acordar na manh de domingo, eu me surpreendera tremendo de frio na cama. Tivera de sair com dificuldade de baixo das cobertas para fechar as janelas. Vi 
ento, com desnimo, que uma espessa nvoa envolvia o vale, impedindo que eu descortinasse a baa. Achei que com certeza alguma terrvel tempestade tropical se aproximava, 
mas Mestre me explicou com toda pacincia que aquela nvoa matinal era comum na regio noroeste e que o Oceano Pacfico tinha este nome por sua relativa ausncia 
de tempestades. Mestre me garantiu que at meio-dia a nvoa haveria de dispersar-se, e que a tarde seria to quente quanto na vspera.
     E ele tinha razo. Quando voltei da praia, bronzeada e feliz, meu quarto virara um forno de novo e eu escancarei a janela - para descobrir ao acordar hoje de 
manh que tinha sido devidamente fechada de novo, o que me pareceu gracinha da parte da minha me, cuidar de mim assim.
     Pelo menos eu esperava que tivesse sido minha me. Pois agora, pensando bem no assunto... mas no, eu no voltara a ver Jesse desde o dia da minha chegada. 
Definitivamente, minha me  que tinha fechado a janela do meu quarto. 
     Seja como for, ao sair de casa para entrar no carro de minha me, vi que estava fazendo frio de novo, e por isto  que estava usando minha capa de l.
     Padre Dominic me informou que meu armrio era o nmero 273 e deixou que eu mesma o encontrasse, enquanto passeava por ali com os olhos nos caibros das galerias, 
onde, para sua alegria, famlias inteiras de andorinhas se abrigavam todo
ano. Ele parecia gostar muito de pssaros (e na verdade de todo tipo de animais, pois uma 
das perguntas que me fez foi para saber como eu estava me dando com Max, o cachorro dos Ackerman) e zombava abertamente toda vez que o Andy insistia em que a madeira 
das galerias teria de ser substituda por causa das andorinhas e seus dejetos.
     268,269,270. Estava percorrendo o corredor aberto, olhando os nmeros nas portas bege dos armrios. Ao contrrio do que acontecia no meu colgio no Brooklyn,
ali os armrios no estavam pichados, amassados ou cheios de adesivos de bandas heavy metal. Parece que na Costa Oeste os estudantes se preocupam mais com o aspecto
de seu colgio.
     271, 272. De repente, eu parei.
     Em frente ao armrio 273 havia um fantasma.
     E no era o Jesse. Era uma garota, vestida de forma muito parecida com a minha, s que com cabelo louro comprido, em vez de castanho, como o meu. E tinha no 
rosto uma expresso muito desagradvel.
     - Que est olhando? - perguntou-me, para em seguida dirigir-se a algum que estava atrs de mim: -  isto que eles esto trazendo para o meu lugar? 
     Tenho de reconhecer que ao ouvir isto eu surtei. Mais que depressa dei meia-volta e, quando vi, estava embasbacada diante de padre Dominic, que apertava os 
olhinhos para mim com curiosidade.
     - Ah - disse ele, ao ver minha expresso. - Era o que eu pensava.
     

      Captulo 6
      
     Desviei o olhar do padre Dominic para o fantasma da garota e voltei a olhar para ele. Finalmente, consegui balbuciar:
     - O senhor consegue v-la? Ele fez que sim.
     - Sim. Quando sua me me falou de voc e dos seus... problemas no colgio, eu desconfiei que voc podia ser uma das nossas, Suzannah. Mas no tinha certeza, 
naturalmente, e por isto nada disse. Muito embora o nome Simon, como voc deve saber, venha da palavra hebraica que quer dizer "ouvinte atento", algo que voc naturalmente 
deve ser tambm, como mediadora...
     Eu mal conseguia ouvi-lo. Ainda precisava me acostumar ao fato de finalmente ter encontrado outro mediador, depois de todos aqueles anos. 
     Ento  por isto que no h espritos de indgenas por aqui! - disse eu, praticamente gritando. - O senhor cuidou deles. Minha nossa, eu estava tentando imaginar 
o que havia acontecido com todos eles. Esperava encontrar centenas...
     Padre Dominic abaixou a cabea modestamente e disse:
     - Bem, no eram centenas, exatamente, mas quando cheguei aqui havia mesmo uma boa quantidade. Mas no era nada, no fundo. Apenas cumpri o meu dever, fazendo
uso do dom celestial que recebi de Deus.
     Eu fiz cara de espanto.  isto que permite conseguir essas coisas?, pensei.
     - Mas  claro que se trata de um dom que recebemos de Deus.
     Padre Dominic me olhava com aquele tipo de piedade que os fiis sempre demonstram conosco, pobres e patticas criaturas cheias de dvidas.
     De onde mais voc acha que poderia vir?
     No sei. De certa forma eu sempre quis ter uma conversa com o responsvel, entende? Pois se pudesse escolher eu preferiria de longe no ter sido abenoada com 
este dom.
     Padre Dominic pareceu surpreso:
     Mas por qu, Suzannah?
     S serve para me criar problemas. O senhor tem idia de quantas horas eu j passei em consultrios de psiquiatras? Minha me est convencida de que eu sou completamente 
esquizofrnica.
     Sim - concordou padre Dominic, pensativo. - Compreendo que um dom milagroso como o seu possa ser considerado por uma pessoa leiga como... digamos, incomum.
     Incomum? O senhor est brincando comigo?
     Reconheo que aqui na misso eu posso contar com uma proteo - admitiu padre Dominic  - Nunca me ocorreu que deve ser extremamente difcil para vocs que es 
to... bem, na linha de frente, por assim dizer, sem um efetivo apoio eclesistico...
     Vocs? - fiz eu, levantando as sobrancelhas. - O senhor est dizendo que no somos s ns dois?
     Ele pareceu surpreso.
     Bem, eu presumi... certamente no somos s ns dois. No  possvel que sejamos os ltimos. No, no, certamente h outros.
     Desculpem-me - interrompeu o fantasma, olhando-nos com sarcasmo. - Ser que se importavam de me dizer o que est acontecendo? Quem  esta perua?  ela que vai 
tomar o meu lugar?
     Ei! Veja como fala! - retruquei, fulminando-a com os olhos. - Voc est na presena de um padre!...
     Ela sorriu com escrnio para mim:
     -  mesmo, ? E eu no sei que ele  um padre? Ele passou a semana inteira tentando se livrar de mim.
     Eu olhei para o padre Dominic com ar de surpresa, e ele disse, embaraado:
     Bem,  que a Heather est sendo um tanto obstinada...
     Se est pensando - interferiu Heather com sua vozinha ranheta - que eu vou ficar aqui de braos cruzados deixando que voc entregue o meu armrio a esta perua...
     - Se me chamar de vagabunda mais uma vez, coisinha, vai passar o resto da eternidade dentro deste seu armrio - avisei.
     Heather me olhou sem a mais leve sombra de medo.
     - Perua - disse ento, esticando bem a palavra.
     Eu a acertei to rpido que ela nem viu o meu punho chegando. Foi um murro to forte que ela saiu rolando pelos armrios enfileirados, fazendo mossa nas portas.
Foi cair de cara l adiante no piso de pedras, mas um segundo depois j estava de p novamente. Eu esperava que ela revidasse, mas em vez disso Heather deu um gemido 
e saiu correndo pelo corredor. "No  de nada", falei, mais para mim mesma.
     Claro que ela voltaria. Eu apenas a havia assustado. Ela voltaria. Mas provavelmente quando voltasse a v-la ela teria de adotar uma atitude ligeiramente diferente.
     Livre da Heather, eu soprei as juntas dos dedos. Os fantasmas podem ter maxilares bem resistentes.
     - Ento, padre, o que estava mesmo dizendo? - perguntei. Ainda com os olhos no ponto em que Heather estivera antes, padre Dominic observou, algo secamente para 
um padre:
     - Esto ensinando tcnicas de mediao bem interessantes hoje em dia...
     - Ora - respondi -, ningum pode me xingar assim e ficar por isso mesmo. No ligo nem um pouco para o quanto pode ter sofrido na vida anterior. 
     - Acho que precisamos conversar sobre certas coisas - disse padre Dominic, pensativo.
     Levou ento um dedo aos lbios. Uma porta abriu-se ao lado e um homem corpulento, o rosto coberto por uma barba cerrada, olhou na direo da galeria, pois tinha 
ouvido o impacto do corpo astral de Heather nos armrios de metal - engraado como os mortos podem ser pesados.
     Est tudo bem, Dom? - perguntou, ao ver padre Dominic.
     Tudo bem, Carl. Tudo certo. E veja o que eu trouxe para voc - respondeu padre Dominic, pondo a mo no meu ombro. - Sua nova aluna, Suzannah Simon. Suzannah, 
este  o seu professor, Carl Walden.
     Eu estendi a mo com que acabara de esmurrar Heather:
     - Como vai, sr. Walden?
     - Vou bem, srta. Simon, muito bem.
     Minha mo desapareceu dentro da manopla do professor Walden. Ele no parecia muito um professor. Parecia mais um lenhador. Precisou at se apertar contra a 
parede para permitir que eu me esgueirasse para dentro da sala de aula.
     Que bom que voc vai ficar conosco - disse ele com seu vozeiro ressonante. - Obrigado por acompanh-la, Dom.
     No h de qu - respondeu padre Dominic. - Tivemos aqui um pequeno problema com o armrio dela. Voc provavelmente ouviu. No quis atrapalh-lo. Vou pedir que 
o zelador d uma olhada. Depois, Suzannah, espero-a de volta no meu gabinete s trs horas para... para acabar de preencher aqueles formulrios. Eu sorri carinhosamente 
para ele:
     - No vai ser possvel, padre. Minha carona sai s trs... Padre Dominic fechou a cara para mim:
     - Neste caso, Vou mandar um passe para voc. Por volta de duas horas.
     - OK - respondi, dando t-loguinho com os dedos para ele. - Tchau.
     Tenho a impresso de que na Costa Oeste no se d t-loguinho para o diretor nem se diz tchau para ele, pois quando me virei na direo dos meus novos colegas 
de turma, estavam todos me olhando de boca aberta.
     Talvez fosse a minha roupa. Eu estava usando um pouco mais de preto que de costume, por causa da tenso nervosa. Quando estiver em dvida, costumo dizer, use 
preto. Com o preto nunca tem erro.
     Ou talvez tenha. Pois ao dar com todas aquelas caras de espanto no vi uma nica roupa preta. Muito branco, alguns marrons e uma quantidade de cquis, mas nenhum 
preto.
     Gulp...
     O professor Walden no pareceu perceber o meu mal-estar. Apresentou-me  turma e me convidou a explicar-lhes de onde vinha. Foi o que eu fiz, e todo mundo ficou 
me olhando com cara de tacho. Comecei a sentir um suorzinho escorrendo pela nuca. Tenho de reconhecer que s vezes prefiro a companhia dos mortos  companhia dos 
colegas. Gente de 16 anos pode ser mesmo assustadora.
     Mas o professor era um bom sujeito. S me deixou ali debaixo daqueles olhares todos durante um minuto, depois mandou-me sentar.
     Parece algo simples, certo? Simplesmente tome o seu lugar. Mas o problema  que havia dois assentos. Um deles era ao lado de uma garota bronzeada linda, com 
uma espessa e encaracolada cabeleira de um louro queimado. O outro ficava bem l no fundo, atrs de uma garota de cabelo to branco e pele to cor-de-rosa que s 
podia ser albina.
     Isto mesmo, no estou brincando. Uma albina.
     Minha deciso foi influenciada por dois fatores. O primeiro foi que, ao ver o assento l no fundo, percebi que as janelas, que ficavam logo atrs dele, davam 
para o estacionamento do colgio.
     Tudo bem, no chegava a ser uma vista maravilhosa, mas depois do estacionamento tinha o mar.
     No estou brincando. Aquele colgio, meu novo colgio, tinha uma vista do Pacfico ainda melhor que a do meu quarto, pois ficava muito mais perto da praia. 
Das janelas da minha sala de aula era possvel ver perfeitamente as ondas. Eu queria me sentar o mais perto possvel da janela.
     O segundo motivo para me sentar ali era simples: no queria ficar do lado da garota bronzeada e fazer a garota albina pensar que no queria ficar perto de algum 
com aparncia to esquisita... Bobagem, no  mesmo? Como se ela estivesse dando alguma importncia para o que eu fazia. Mas eu nem hesitei. Vi o mar, vi a garota 
albina e l fui eu.
     Assim que me sentei, claro, uma outra garota deu uma risadinha e sussurrou baixinho, mas de forma perfeitamente audvel:
     - Caramba, foi sentar logo perto da esquisita!...
     Eu olhei para ela. Tinha uma cabeleira impecvel e olhos impecavelmente pintados. E disse, sem me preocupar em falar baixinho:
     - Desculpe, voc sofre de Tourette?
     O professor voltara-se para escrever alguma coisa no quadro-negro mas se deteve ao ouvir minha voz. Todos se voltaram em minha direo, inclusive a garota que 
tinha feito o comentrio.
     O qu? - fez ela, apertando os olhos.
      Sndrome de Tourette - continuei. -  uma doena neurolgica que faz as pessoas dizerem coisas que no querem dizer. Voc tem isso?
     O rosto da guria comeara a ficar vermelho: -No.
     Ah!... Ento estava mesmo sendo grosseira de propsito...
     Eu no estava chamando voc de esquisita - justificou-se ela rapidamente.
     Sei perfeitamente - prossegui. - Por isto  que depois da aula vou quebrar apenas um dedo seu, e no todos eles. 
     Ela se virou rapidinho para a frente. E eu sentei no meu lugar. No sei o que todo mundo comeou a cochichar depois disso, mas pude ver que a cabea da albina 
- perfeitamente visvel por baixo do branco dos seus cabelos - tornara-se roxa, to sem graa ela havia ficado. O professor teve que mandar que todos se comportassem, 
e como foi ignorado deu um murro na mesa e foi avisando que se tnhamos tanta coisa a dizer, poderamos dizer numa redao de mil palavras sobre a batalha de Bladensburgo 
na guerra de 1812, espao duplo, na mesa dele amanh cedinho.
     Puxa vida. Ainda bem que eu no estava no colgio para fazer amigos.
     

      Captulo 7

     Mas no fim das contas eu fiz amigos sim. No que eu fizesse fora. Eu nem queria mesmo. J tenho amigos suficientes l no Brooklyn. Tenho a Gina, a melhor amiga
que algum poderia ter. No precisava de mais amigos.
     E no achava realmente que algum aqui fosse gostar de mim - muito menos depois de terem sido obrigados a fazer uma redao de mil palavras por causa do que 
aconteceu depois que eu cheguei. E muito menos ainda depois do que aconteceu quando fomos informados de que tinha chegado a hora do segundo perodo - a Academia 
da Misso no tinha sirene, ns trocvamos de sala de hora em hora o tnhamos cinco minutos para chegar ao destino. Mal o professor Walden nos dispensou a menina 
albina virou-se na cadeira e me perguntou, com os olhos brilhando de raiva por trs das lentes de cor dos culos:
     E agora por acaso espera que te agradea pelo que voc disse para a Debbie?
     Por mim voc no tem que agradecer coisa nenhuma - respondi, levantando-me.
     Ela tambm se levantou:
     Mas foi por isto que voc fez aquilo, no foi? Defendendo a albina... Por acaso sentiu pena de mim?
     Eu fiz aquilo porque a Debbie  uma mala - disse eu, dobrando a capa no brao.
     Vi que os cantos dos seus lbios se repuxavam. Debbie agarrara os livros e praticamente correra em direo  porta no exato instante em que o professor Walden
nos dispensara. Ela e um bando de outras garotas, entre as quais a bonitinha bronzeada que tambm tinha um assento vazio ao lado, estavam cochichando e me lanando
olhares fulminantes por cima de seus suteres Ralph Lauren.
     Dava para ver que a garota albina ficou com vontade de rir quando eu chamei a Debbie de mala, mas ficou firme. Disse ento, toda cheia de orgulho:
     - Posso perfeitamente me defender sozinha, viu? No preciso da sua ajuda, Nova York.
     Eu dei de ombros.
     - Tudo bem por mim, Carmel.
     Desta vez ela no conseguiu deixar de sorrir. Ao faz-lo, mostrou uma fieira de aparelhos dentrios que reluziam tanto quanto o mar l fora.
     Cee Cee - disse ela.
     O que  Cee Cee?
     - Meu nome. Sou a Cee Cee - completou, estendendo a mo branca feito neve, com as unhas pintadas de laranja chocante. - Bem-vinda  Academia da Misso.
     s 9 horas, o professor Walden j nos havia dispensado. Dois minutos depois, Cee Cee j tinha me apresentando a vinte outras pessoas, e quase todas vieram trotando
atrs de mim a caminho da aula seguinte, querendo saber como era morar em Nova York.
     -L  mesmo to, to... - quis saber uma garota sem-graona, toda ansiosa na busca da palavra exata para exprimir o que desejava - to metrpole como dizem?
     Essas garotas, talvez nem precise dizer, no eram as tipicamente classudas. No demorou para eu ver que no se davam com a lindinha bronzeada e com a garota 
cujos dedos eu ameaara quebrar, que eram as arrumadrrimas, com seus suteres e suas saias cqui. Nada disso. As garotas que se aproximaram de mim eram dos mais 
diversos tipos, umas cheias de acne, outras gordas, ou ento completamente esquelticas. Fiquei horrorizada ao ver que uma delas usava sandlias por cima de meia-cala 
com reforo nos dedos. E meia cala-bege, ainda por cima! Com sandlias brancas. Em pleno inverno!
     Logo vi que meu trabalho ia ser facilitado.
     Cee Cee parecia ser a lder daquele grupinho. Editora do jornal do colgio, o Notcias da Misso, ao qual se referia como "mais uma resenha literria do que 
um jornal de verdade", ela dissera a verdade quando me informou que no precisava de ajuda para ir  luta. Munio era o que no lhe faltava, com direito a um belo 
arsenal de torpedos verbais e uma tica do trabalho das mais srias. Praticamente a primeira coisa que ela me perguntou, depois de superar a raiva que lhe provoquei, 
foi se eu estaria interessada em escrever alguma coisa para o jornal.
     - Nada muito complicado - foi dizendo, toda espevitada. - Quem sabe simplesmente um ensaio comparando a cultura adolescente na Costa Leste e na Costa Oeste. 
Aposto que voc est encontrando um monte de diferenas entre ns e os seus amigos l de Nova York. Ento, que diz? Meus leitores teriam o maior interesse, especialmente 
garotas como Kelly e Debbie. Talvez voc pudesse publicar alguma coisa sobre o mico que pode ser aparecer bronzeado na Costa Leste.
     E ela caiu no riso, sem parecer propriamente perversa, mas tampouco sem nada de inocente. Mas eu logo veria que Cee Cee era exatamente assim, toda risonha,
com um riso que brilhava ainda mais com aqueles aparelhos terrveis, e toda bem-humorada. Aparentemente era to famosa pelas piadas que soltava quanto por sua gargalhada-quase-reli













ncho, que s vezes parecia sair dela aos borbotes, como se no pudesse control-la, numa alegria a toda prova que inevitavelmente atraa os "psiu" das novias afetadinhas 
que trabalhavam como bedis, impedindo-nos de incomodar os turistas que vinham tirar fotos de Junipero Serra sendo bajulado por aquelas pobres ndias de bronze.
     A Academia da Misso era um colgio pequeno. Havia apenas setenta segundanistas. Adorei que o Dunga e eu tivssemos horrios diferentes, pois assim o nico 
perodo que tnhamos em comum era o do almoo. O almoo, por sinal, acontecia no ptio da escola, que ficava de um dos lados do estacionamento, um enorme playground 
gramado dando para o mar, com os veteranos comendo nas mesmas mesas que os calouros e gaivotas mergulhando na direo de quem fizesse a besteira de lhes atirar uma 
batata frita. Posso dizer porque fiz a experincia. A irm Ernestine - a mesma que tinha sido chamada de baranga pelo Adam, que afinal foi parar na minha classe 
de estudos sociais - veio na minha direo e me disse para nunca repetir aquilo. Como se eu no tivesse entendido perfeitamente o recado no exato momento em que 
cinqenta enormes gaivotas grasnantes baixaram do cu num turbilho e me cercaram, exatamente como faziam os pombos na Praa Washington quando algum fazia a besteira 
de atirar no cho um pedacinho de biscoito.
     Seja como for, Soneca e Mestre tambm tinham o mesmo horrio de almoo que eu. Era o nico momento em que eu via algum dos Ackerman no colgio. Era interessante 
observ-los em seu ambiente. Fiquei feliz de ver que ou havia acertado em minha anlise do temperamento deles. Mestre vivia cercado de um bando de garotos com cara 
de nerds, a maioria usando culos e teclando seus laptops no colo. Dunga vivia com os descolados e ao redor deles estavam sempre flutuando - mais ou menos como as 
gaivotas tinham flutuado em volta de mim - as garotas bonitinhas e bronzeadas da turma, inclusive aquela ao lado da qual eu evitara sentar. A conversa deles parece
que girava em torno do que haviam ganho no Natal, pois era o primeiro dia de volta das frias de inverno, e de quem havia quebrado mais costelas esquiando em Tahoe.
     Soneca talvez fosse o mais interessante. No que ele tivesse acordado. Isso no, cus. Mas ficou sentado numa das mesas de piquenique com os olhos fechados
e o rosto voltado para o sol. Como isto eu posso ver em casa, no foi o que me interessou. No. O que me interessou foi o que estava acontecendo ao lado do Soneca.
E era simplesmente um garoto incrivelmente lindo que s fazia ficar olhando bem em frente com uma expresso de arrasadora tristeza. De vez em quando passavam umas 
garotas - sempre passam umas garotas quando h um lindo por perto - e davam al para ele; ele ento afastava o olhar do mar, que era para onde estava olhando, e 
dizia "Oi", para em seguida voltar a olhar para aquelas ondas hipnticas.
     Fiquei pensando que Soneca e seu amigo bem que podiam ser chegados a puxar um fumo. Isto explicaria muita coisa sobre o Soneca.
     Mas quando perguntei  Cee Cee se sabia quem era o cara e se tinha algum problema com drogas, ela respondeu:
     Ah,  o Bryce Martinson. No, no tem nada a ver com drogas. Est s triste porque a namorada dele morreu nas frias.
      mesmo? - fiz eu, mastigando o lanche que havia trazido, pois a merenda na Academia da Misso deixa muito a desejar. Dava para entender por que tantos alunos 
traziam lanche de casa. A merenda tinha sido cachorro-quente. Isso mesmo, cachorro-quente. - Mas como ela morreu?
     - Meteu uma bala na cabea - interferiu Adam, o cara que estava no gabinete do diretor, e que ia passando. Ele estava comendo Cheetos de um saco gigante que 
acabara de tirar de sua mochila de couro. Uma mochila Louis Vuitton, diga-se de passagem. - Esfacelou a parte traseira do crnio.
     Uma das garotas sem-graonas virou-se, ouvindo isto, e comentou:
     - Nossa senhora, Adam, como pode ser to frio? Adam deu de ombros:
     - E da? Eu no gostava mesmo dela quando estava viva. No vou dizer agora que gostava dela s porque morreu. No fundo, se alguma coisa mudou,  que posso estar 
odiando ela ainda mais. Esto dizendo que vamos todos ter de percorrer a Via Crucis na quarta-feira por causa dela.
     - Exatamente - retrucou Cee Cee, enojada. - Temos de rezar por sua alma porque ela se matou e agora ter de arder no fogo dos infernos por toda a eternidade.
     Adam ficou meio pensativo:
     -  mesmo? Pensei que os suicidas iam para o purgatrio...
     - Nada disso, seu burro. Por que voc acha que o monsenhor Constantine no autoriza o servio fnebre da Kelly? Suicdio  pecado mortal. Monsenhor Constantine 
no pode deixar que uma suicida seja homenageada na sua igreja. No permitir nem mesmo que os pais dela a enterrem em solo consagrado - e aqui Cee Cee j estava 
rolando os olhos de espanto. - Eu nunca gostei da Heather, mas odeio monsenhor Constantine e suas regras cretinas ainda mais. Estou pensando em escrever um artigo 
sobre isto, e dar o ttulo de O Pai, o Filho e o Hipcrita Santo.
     As outras garotas soltaram um risinho nervoso. Esperei at elas pararem e perguntei:
     Por que ser que ela se matou? Adam fez um ar de tdio.
     Por causa do Bryce, claro. Ele acabou com ela.
     Uma garota negra bonitinha chamada Bernadette, que com seu metro e 80 era mais alta que todo mundo ali, inclinou-se para a frente e sussurrou:
     - Ouvi dizer que ele terminou com ela no shopping. D para acreditar?
     Uma outra menina disse:
     Isso mesmo, na vspera de Natal. Eles estavam fazen do as compras de Natal juntos e ela mostrou um anel de diamante na vitrine da Bergdorf, e disse: "Quero 
este." E a aposto que ele entrou em pnico - sabe como , era um anel de noivado - e rompeu com ela ali mesmo, na hora.
     E por causa disso ela foi para casa e deu um tiro na cabea? - insisti, achando aquela histria toda muito esquisita. Quando eu perguntei  Cee Cee onde todo 
mundo almoaria se por acaso chovesse, que Deus nos livre, ela explicou que todo mundo tinha de ficar sentado na sala de aula, para comer l mesmo, e que as freiras 
traziam jogos de tabuleiro para todo mundo se distrair. Eu fiquei me perguntando se aquela histria, como a histria dos almoos em dia de chuva, era uma inveno. 
Cee Cee era o tipo da guria que sentia um frisson em contar uma mentirinha para a aluna nova - no por maldade, s para se divertir um pouco.
     - No imediatamente - explicou Cee Cee. - Ela ainda tentou convenc-lo a voltar com ela durante um tempo. Passou a telefonar para ele de dez em dez minutos, 
at sua me lhe dizer para no telefonar mais. A ela comeou a mandar-lhe cartas, dizendo o que ia fazer - j sabe, que ia se matar se ele no voltasse com ela. 
Como ele no respondia, ela pegou o 44 do pai, foi de carro at a casa do Bryce e tocou a campainha.
     Adam passou ento a contar o resto da histria, o que significava provavelmente que ia haver sangue.
     Isso mesmo - levantou-se ele para fazer a cena, usando um Cheeto como revlver. - Os Martinson estavam dando uma festa de rveillon, de modo que estava todo
mundo em casa. Abriram a porta e l estava aquela guria ensandecida, apontando um revlver para a cabea. Ela disse que se no a deixassem falar com o Bryce, ia
puxar o gatilho. Mas o Bryce nem estava l, tinha sido mandado para Antgua...
     ... para ver se um pouco de sol e umas ondas ajudavam a melhorar seus nervos em frangalhos - atalhou Cee Cee -, pois como vocs sabem, ele est bem no meio 
da poca dos exames e a ltima coisa que queria era mais presso ainda.
     Adam fulminou-a com os olhos e prosseguiu, segurando o Cheeto contra o crnio: 
     - Isso a, mas foi um erro fatal da parte dos Martinson. Assim que ela ficou sabendo que o Bryce tinha sado do pas, puxou o gatilho e arrebentou com a traseira 
do crnio, e as luzes de Natal que os Martinson tinham espalhado por ali ficaram cheias de pedacinhos de crebro e outros bichos...
     Todo mundo, menos eu, deu um gemido ao ouvir esses detalhes. Eu estava pensando em outras coisas.
     - A cadeira vazia na sala de aula... Aquela do lado da... como se chama mesmo? Da Kelly. Era onde se sentava a garota que morreu, certo?
     Bernadette fez que sim com a cabea.
     - Exatamente. Por isso  que achamos to esquisito quando voc simplesmente passou por ela. Era como se voc soubesse que era onde a Heather se sentava. Todo 
mundo ficou pensando que voc talvez fosse mdium ou coisa assim...
     Eu nem me dei ao trabalho de dizer que o motivo pelo qual no tinha sentado na cadeira da Heather no tinha nada a ver com ser mdium ou deixar de ser. Na verdade, 
simplesmente no disse nada. Eu estava pensando: "Valeu, me, ter-me dito porque de repente apareceu uma vaga para mim, quando pouco antes o colgio estava to superlotado 
que no cabia nem mais um aluno."
     Fiquei olhando para o Bryce. Ele ainda estava bronzeado da viagem a Antgua. Estava sentado  mesa de piquenique com os ps sobre o banco, os cotovelos apoiados 
nos joelhos, olhando fixamente para o Pacfico. Uma leve brisa agitou por um momento seus cabelos de um louro cor de areia.
     Ele no tem a menor idia, pensei. No tem mesmo a menor idia. Se est pensando que sua vida agora ficou horrvel, espere s para ver.
     Espere s.
     

      Captulo 8

     Ele no precisou esperar muito. Para dizer a verdade,  foi logo depois do almoo que ela veio atrs dele.  No que ele percebesse, claro. Fui eu que imediatamente
a vi no meio da multido, quando todo mundo comeou a se encaminhar para os armrios. Os fantasmas exalam uma luminosidade que os diferencia dos vivos - felizmente, 
pois caso contrrio muitas vezes eu nem saberia a diferena.
     Seja como for, l estava ela fulminando-o com olhares de dio. Sem saber que ela estava ali, as pessoas simplesmente passavam atravs dela. Eu at que os invejava. 
Preferia que os fantasmas fossem invisveis para mim, como so para todo mundo. Sei que se fosse assim eu no teria desfrutado da companhia do meu pai durante esses 
ltimos anos, mas tambm no estaria ali agora sabendo que a Heather estava para fazer algo terrvel. 
     No que eu soubesse o que ela estava pretendendo fazer com ele. Os fantasmas podem ser bem mauzinhos quando querem. Aquele lance do Jesse com o espelho no 
era nada. J houve casos de me atirarem objetos com tanta fora que, se eu no tivesse me abaixado, tambm estaria hoje no mundo dos espritos. J sofri concusses 
e ossos quebrados no sei quantas vezes. Minha me acha que eu atraio acidentes.  isso a, me. Isso mesmo. Quebrei o pulso caindo da escada. E ca da escada porque 
o fantasma de um conquistador espanhol de trezentos anos me empurrou.
     Mas bastou eu ver a Heather para entender que ela estava com intenes nada boas. E eu no chegara a esta concluso baseada no nosso encontro prvio. No, senhor. 
Apenas acompanhei o olhar da falecida e vi que no era exatamente para Bryce que ela estava olhando. O que atrara sua ateno fora um dos caibros da parte da galeria
por onde o Bryce estava passando. E dali onde estava, eu vi que a madeira estava comeando a tremer. Mas no em toda a extenso da galeria, claro que no. Era s
uma pea que estava tremendo, daquelas bem pesadas. Exatamente a pea que se encontrava acima da cabea do Bryce.
     Eu agi sem pensar. Joguei-me contra o Bryce com toda fora e ambos voamos juntos. O que veio exatamente a calhar. Pois ainda estvamos rolando no cho quando 
eu ouvi uma enorme exploso. Abaixei a cabea para proteger os olhos, de modo que no pude ver quando a pea de madeira explodiu. Mas ouvi. E tambm senti. As lascas 
de madeira doeram  bea. Ainda bem que eu estava usando calas de l. 
     O Bryce estava to quietinho debaixo de mim que eu pensei que um pedao mais pesado da madeira podia t-lo atingido entre os lobos frontais ou algo assim. Mas 
quando afastei meu rosto do seu peito eu vi que ele estava bem - estava apenas de olho grudado, aterrorizado, na tbua de mais de 25 centmetros de largura e quase 
70 centmetros de comprimento que viera aterrissar a poucos metros de ns dois. Por toda parte ao nosso redor estavam espalhados pedaos de madeira. Provavelmente 
o Bryce estava se dando conta de que, se aquela prancha tivesse atingido seu crnio, tambm haveria agora pedacinhos de Bryce espalhados por ali.
     - D licena, d licena - disse a voz assustada do padre Dominic, que logo vi abrindo caminho pela multido apavorada que se juntava ali. Ele ficou congelado 
quando viu aquele pedao de madeira, mas ao dar com Bryce e comigo voltou  ao: - Deus do cu! - exclamou, acorrendo a ns. - Vocs esto bem, crianas? Suzannah, 
voc se feriu? Bryce?
     Lentamente eu fui me sentando. Eu j tinha me acostumado a me apalpar para ver se algum osso estava quebrado, e acabei descobrindo, ao longo dos anos, que quanto
mais lentamente a gente se reerguer, mais chances ter de descobrir o que est quebrado, e menos chances de apoiar o peso do corpo nessas partes.
     Mas daquela vez nada parecia estar quebrado. Fiquei ento de p.
     - Deus de misericrdia! - dizia o padre Dom. - Tm certeza de que esto bem?
     Estou bem - disse eu, me sacudindo toda. Estava toda coberta de pedacinhos de madeira, por cima da minha melhor jaqueta Donna Karan. Olhei em volta para ver 
se via a Heather: pode crer que se a tivesse visto ali naquela hora eu a teria matado, realmente teria... s que ela j estava morta, claro. Mas ela j tinha ido 
embora.
      Meu Deus! - exclamou Bryce, aproximando-se de mim. Ele no parecia estar ferido, s um tanto abalado. Na verdade seria difcil ferir um grandalho como ele, 
com seu metro e 80 de altura e aqueles ombros largos, um verdadeiro Baldwin.
     E era comigo que ele estava falando. Comigo! - Caramba, voc est bem? - quis saber. - Obrigado. Meu Deus! Acho que voc salvou a minha vida.
     Ora, no foi nada - disse eu, e no resisti a esticar a mo e pinar uma farpa de madeira do seu suter. Caxemira. Exatamente como eu imaginara.
     O que est acontecendo aqui?
     Um sujeito alto metido num monte de tnicas e com uma calota vermelha na cabea abria caminho na multido. Quando viu aquela madeira toda no cho e olhou para 
cima para avaliar o buraco que fora aberto, ele se virou para o padre Dom e disse:
     - Viu? Est vendo, Dominic?  nisto que d permitir que os seus lindos passarinhos faam ninhos onde bem entendem! O sr. Ackerman nos avisou que isto podia 
acontecer,- e agora veja s! Ele tinha razo! Algum podia ter morrido!
     S podia mesmo ser monsenhor Constantine. 
     Sinto muito, monsenhor, sinto muito mesmo - disse padre Dom. - No sei como uma coisa dessas foi acontecer. Graas a Deus ningum ficou ferido - e, voltando-se 
para Bryce e para mim: - Vocs dois esto bem mesmo? Parece-me que a senhorita Simon est meio plida. Vou lev-la para ver a enfermeira, se no se importa, Suzannah. 
E vocs, crianas, voltem todas para a sala de aula. Todos esto bem. Foi apenas um acidente. Agora vo indo.
     Incrivelmente, todo mundo obedeceu. Padre Dominic era assim mesmo. De uma maneira ou de outra, voc acabava fazendo o que ele dizia. Felizmente ele usava seus 
poderes para o bem, e no para o mal!
     Gostaria de poder dizer o mesmo sobre o monsenhor. L estava ele de p no corredor, que de repente ficara vazio, contemplando o enorme pedao de madeira. Qualquer 
um poderia dizer s de olhar que ele no tinha nada de podre. Claro que a madeira no era nova, mas estava perfeitamente seca.
     - Vou mandar tirar da esses ninhos, Dominic - disse monsenhor, asperamente. - Todos eles. Ns simplesmente no podemos correr este tipo de risco. E se um turista 
estivesse em p aqui? E Deus nos livre, o arcebispo!... O arcebispo estar aqui no ms que vem, como voc sabe. E se o arcebispo Rivera estivesse bem aqui e esta 
viga casse? E ento, Dominic?
     As freiras que haviam acorrido, ouvindo todo aquele fuzu, lanavam olhares de tamanha reprovao para o pobre padre Dominic que eu quase disse alguma coisa. 
Cheguei at a abrir a boca, mas o padre Dom apertou mais o meu brao e comeou a caminhar comigo para longe dali.
     Naturalmente - concordou. - Tem toda razo. Vou mandar o pessoal da manuteno cuidar disso imediatamente, monsenhor. Imagine se o arcebispo fosse ferido!... 
Nem pensar.
     Meu Deus, quanta besteira! - desabafei, assim que nos vimos dentro do gabinete do diretor, com a porta fechada. - Ele s pode estar brincando, pensar que um 
casal de passarinhos podia fazer tudo aquilo.
     Padre Dominic tinha atravessado todo o gabinete direto para um armrio onde se encontravam alguns trofus e placas - prmios de magistrio, como eu viria a 
descobrir. Antes de ser removido pela diocese para um cargo administrativo, padre Dominic havia sido um professor de biologia muito popular e estimado. Ele estendeu 
o brao por trs de um dos trofus e apanhou um mao de cigarros.
     Receio que talvez seja um pouco sacrlego, Suzannah, dizer que um monsenhor da Igreja catlica pensa besteiras - disse ele, de olhos baixos sobre o mao vermelho 
e branco.
     Ainda bem ento que eu no sou catlica - disse eu. - E pode ficar  vontade para fumar se quiser. No vou dizer a ningum.
     Ele continuou contemplando o mao de cigarros sonhadoramente por mais um minuto, deu um suspiro profundo e voltou a guard-lo onde estava.
     - No, muito obrigado, mas  melhor no - concluiu. 
     Minha nossa! Devia ser mesmo uma grande vantagem eu nunca ter me viciado com essa histria de cigarro. Achei melhor mudar de assunto e ento me debrucei para 
dar uma olhada nos trofus.
     1964 - disse. - O senhor j est aqui h um certo tempo...
     Estou mesmo - reconheceu padre Dom, sentando-se em sua escrivaninha. - Mas, Santo Deus, Suzannah, o que exatamente que aconteceu l?
     Ora - dei de ombros -, foi s a Heather. Acho que agora j sabemos por que ela ainda est rondando por a. Quer matar o Bryce Martinson.
     Padre Dominic sacudiu a cabea:
     Mas isto  terrvel! Terrvel mesmo. Eu nunca vi tanta... tanta violncia partindo de um esprito. Nunca, em todos estes anos como mediador.
      mesmo? - fiz eu, olhando pela janela. O gabinete do diretor no dava para o mar, mas para as colinas onde eu morava. - Olha s - prossegui. - Daqui se pode 
ver a minha casa!
     E era uma moa to boa - continuou ele. - Nunca tivemos qualquer problema disciplinar com Heather Chambers em todos os anos que ela passou na Academia da Misso. 
Por que estaria sentindo tanto dio de um rapaz que dizia amar?
     Eu olhei para ele de lado:
     - O senhor est brincando comigo? 
     - No, tudo bem, eu sei que eles tinham acabado o namoro... Mas emoes to violentas... essa fria assassina a que ela se entregou...  to inusitado...
     Eu balancei a cabea.
     - Olha, eu sei que o senhor fez voto de castidade e tudo isso, mas o senhor nunca se apaixonou? No sabe como ? Aquele cara passou ela para trs. Ela achava 
que eles iam se casar. Sei que parece bobagem, ainda mais que ela s tinha - quantos anos mesmo? Dezesseis? Ainda assim, ele simplesmente botou ela no chinelo. Se 
isso no  suficiente para levar uma garota a um acesso de fria assassina...
     Ele me olhava pensativo.
     Voc parece estar falando por experincia prpria.
     Quem, eu? Absolutamente. Isto , j gostei de uns caras e tal, mas no posso dizer que algum deles tenha correspondido - o que lamento muito. Ainda assim, posso 
imaginar como a Heather deve ter-se sentido quando ele acabou com ela.
     Com vontade de se matar, suponho - disse padre Dominic.
     Exatamente. Mas se matar acabou no sendo suficiente. Ela no vai ficar satisfeita enquanto no o levar com ela.
     Isto  terrvel - disse padre Dominic. - Realmente terrvel. Eu conversei com ela at acabar a saliva, mas ela no ouve. E agora, no primeiro dia de aula, acontece 
isso. Vou ter que recomendar que esse rapaz fique em casa at que tudo seja resolvido.
     Eu achei graa: 
     E como  que o senhor vai fazer isso? Vai dizer a ele que sua namorada morta est tentando mat-lo? Aposto que monsenhor adoraria...
     Em absoluto - respondeu padre Dom, abrindo uma gaveta e comeando a remexer nela. - Com um mnimo de engenhosidade, podemos conseguir uma boa semana ou duas 
para ele em casa...
     Mas o que  isto?! - exclamei, lvida. - O senhor vai envenen-lo? Pensei que o senhor fosse um padre! Esse tipo de coisa no  proibido?
     Envenenar? No, no, Suzannah. Vou infest-lo com lndeas. A enfermeira examina a cabea dos alunos uma vez por semestre em busca de piolhos. Apenas vou dar 
um jeito para que o jovem sr. Martinson apresente um caso bem adiantado de infestao...
     Oh meu Deus! - berrei. - Que horror! O senhor no pode encher a cabea dele de piolhos!
     Padre Dominic levantou os olhos da gaveta.
     E por que no? Servir perfeitamente para o que precisamos. Mant-lo longe do perigo por tempo suficiente para que voc e eu possamos convencer a srta. Chambers 
e...
     O senhor no pode encher a cabea dele de piolhos! - repeti, talvez com mais veemncia que necessrio. Nem sei por que eu estava to contra a idia, s que... 
bem, ele tinha um cabelo to bonito. Eu tinha dado uma sacada legal quando estvamos l jogados no cho juntos. Era um cabelo macio e encaracolado, o tipo de cabelo 
bom para ficar passando os dedos. A simples idia de insetos rastejando por ali embrulhava meu estmago. Como era mesmo aquela cano?...
     Voc me olhou nos olhos. E eu fui ficando. Passei a mo nos seus cabelos. E um piolho mordeu meu dedo.
     Puxa vida - eu disse, sentando no tampo da escrivaninha. - Guarda os piolhos, t bem? Deixa que eu cuido da Heather. O senhor disse que est falando com ela 
h quanto tempo? Uma semana?
     Desde o Ano Novo - respondeu padre Dominic. - Exatamente. Foi quando ela apareceu aqui pela primeira vez. Agora entendo que ela s estava esperando que Bryce 
voltasse.
     - OK. Ento deixa que eu cuido disso. Talvez ela s esteja precisando de uma conversa entre garotas.
     No sei... - fez padre Dominic, olhando-me meio de soslaio. - Fico achando que voc tem uma certa tendncia para... bem, para tentar resolver as coisas um tanto... 
fisicamente. O mediador deve desempenhar um papel no-violento, Suzannah. Voc deve ser algum que ajuda os espritos perturbados, em vez de machuc-los.
     Al, al! O senhor por acaso no estava l fora ainda h pouquinho? Acha que eu podia simplesmente ficar ali e convencer aquela viga a no esmagar o crnio 
do Bryce? Claro que no. S estou querendo dizer que, se voc tentasse demonstrar um pouco de compaixo...
     Caramba! Eu tenho muita compaixo, padre. Meu corao ficou partido com a histria dessa garota, realmente ficou. Mas este aqui  o meu colgio, entende? O 
meu colgio. No o dela. No  mais. Ela tomou uma deciso e agora tem que agentar as conseqncias. E eu no vou permitir que ela leve o Bryce ou quem quer que 
seja com ela.
     Padre Dominic parecia ctico:
     Bem, se voc est to segura assim...
     Estou segura, sim - respondi, quase saltando por cima da escrivaninha. - Deixe comigo, est bem?
     Padre Dominic concordou, mas sem muita convico, deu para ver. Precisei que ele me desse um passe por escrito, para poder voltar  sala de aula sem ser interceptada 
no corredor por uma das freiras. Eu estava esperando que uma delas, uma novia de cara murcha, acabasse de examinar o passe, para poder passar para o corredor, quando 
uma poria lateral onde estava escrito ENFERMARIA se abriu e l de dentro saiu o Bryce com o seu prprio passe.
     - Ei! - no pude impedir-me de gritar. - Que aconteceu? Ela por acaso... quer dizer, aconteceu mais alguma coisa? Voc est ferido?
     Ele deu um sorriso algo tmido:
     - No. S esta farpa desgraada que me entrou debaixo da unha. Estava tentando me livrar de todas aquelas farpas que se agarraram  minha cala e uma delas 
entrou ali, e... ele mostrou a mo direita, com uma enorme bandagem envolvendo o polegar. 
     Eca! - fiz eu.
      isso a - disse ele, todo injuriado. - E ainda por cima ela usou mercrio cromo. Odeio esse troo.
     Cara! - disse eu. - Foi mesmo um dia de co para voc...
     Nem tanto assim - respondeu ele, baixando o polegar. - Pelo menos no foi to ruim quanto teria sido se voc no estivesse l. Se no fosse voc, eu estaria 
morto.
     Ele percebeu que eu havia sado da sala do diretor e perguntou:
     - Algum problema?
     -  No - respondi. - Padre Dominic s queria que eu preenchesse uns formulrios. Sou nova aqui, voc sabe.
     - E como a aluna nova - interrompeu a novia com severidade - deve ficar sabendo que no  permitido ficar perambulando pelos corredores.  melhor vocs dois 
irem para suas salas.
     Eu me desculpei e apanhei de volta o meu passe. Muito cavalheirescamente, Bryce se ofereceu para me mostrar onde seria minha prxima aula, e a novia se afastou, 
aparentemente satisfeita. Quando j se havia distanciado o bastante para no poder mais ouvir o que dizamos, Bryce disse:
     Voc  a Suze, certo? O Jake me falou de voc. Voc  a meia irm dele que chegou de Nova York.
     Exatamente - respondi. - E voc  o Bryce Martinson.
     Ah, o Jake falou de mim?
     Eu quase dei uma risada s de pensar no Soneca falando alguma coisa. E expliquei:
     - No, no foi o Jake. 
     Ele fez um "Oh" to decepcionado que quase senti pena dele.
     Aposto que as pessoas devem estar falando de mim, no?
     Um pouco - arrisquei. - Sinto muito pelo que aconteceu com a sua namorada.
     Eu tambm, pode acreditar - disse ele, sem aparentar ter ficado aborrecido porque eu mencionara o assunto. - Eu nem queria voltar aqui depois... voc sabe. 
Tentei me transferir, mas no tinha vaga. Nem a escola pblica quis me receber.  muito difcil conseguir transferncia faltando s um semestre. Eu no teria voltado 
de jeito nenhum, s que... bem, voc sabe. As faculdades s te aceitam quando voc j concluiu o segundo grau.
     Eu achei graa. - J ouvi falar.
     - Seja como for...
     Bryce percebeu que eu estava segurando meu casaco. E realmente eu o estivera carregando o dia inteiro, j que no consegui usar o meu armrio, cuja porta no 
se abria por ter ficado muito amassada com o impacto do corpo astral da Heather. Ento ele perguntou:
     - Quer que eu leve para voc?
     Fiquei to apatetada com tanta gentileza que, sem nem pensar, fui dizendo que sim e entregando o casaco. Ele o apanhou dobrado num dos braos e disse:
     - Quer dizer ento que todo mundo deve estar me cul pando pelo que aconteceu... Pelo que aconteceu  Heather. 
     No creio - respondi. - No mximo, as pessoas esto culpando a Heather pelo que aconteceu com ela.
     Sei - disse Bryce -, mas estou querendo dizer que fui eu que a levei a isto, sabe? O problema  este. Se eu no tivesse rompido com ela...
     Voc se tem mesmo em muito alta conta, no ? Ele foi apanhado de surpresa.
     Como?
     - Bem, o fato de voc deduzir que ela se matou porque voc rompeu com ela... No acho que ela tenha se matado por isto. Ela se matou porque estava doente. E 
voc no tinha nada a ver com o fato de ela estar assim. O fato de voc ter terminado com ela pode ter sido a gota d'gua para o colapso final, mas podia perfeitamente 
ter sido outro o motivo - o divrcio dos pais dela, o fato de ela no ter sido escolhida chefe da torcida, a morte do gato... Qualquer coisa. Portanto, tente no 
ser to duro consigo mesmo.
     Tnhamos chegado  porta da minha sala: acho que era geometria, com irm Mary Catherine. Virei para ele e peguei de volta o meu casaco.
     - Bom, eu deso aqui. Obrigada pela carona. Ele agarrou uma das mangas do meu casaco.
     - Espera a - disse, olhando-me firmemente. Era difcil ver seus olhos, pois estava bem escuro na galeria, protegida como era do sol. Mas eu lembrava, daquele 
momento em que havamos cado juntos no cho, que seus olhos eram azuis. De um azul muito lindo. - Espera um pouco - disse ele. - Deixe-me lev-la para sair hoje 
 noite. Para agradecer por ter salvo a minha vida e tudo mais.
     - Obrigada - respondi, dando uma puxada no meu casaco
     - Mas j tenho planos para hoje  noite.
     Eu s no disse que meus planos envolviam sua pessoa de uma maneira bem ntima.
     Ento amanh  noite - insistiu ele, ainda agarrado ao meu casaco.
     Olha, eu no tenho permisso para sair  noite em dias de semana - disse eu.
     Era a maior mentira.  parte o fato de ter sido levada para casa algumas vezes pela polcia, estava implcito que minha me confiava em mim. Se eu quisesse 
sair  noite num dia de semana, ela deixaria. O fato  que nunca tnhamos falado desse assunto, pois nenhum cara tinha me convidado para sair, fosse em dia de semana 
ou em qualquer outro.
     No que eu seja um horror ou algo assim. Posso no ser nenhuma Cindy Crawford, mas tambm no sou um bagulho. Acho que no fundo o que acontece  que eu sempre 
fui considerada meio esquisita em minha antiga escola.  o que costuma acontecer com garotas que ficam falando sozinhas e se metendo com a polcia.
     Mas no me entendam mal. De vez em quando chegavam caras novos na escola e eles mostravam interesse por mim... mas s at que algum que me conhecesse passasse 
a eles as informaes... A eles passavam a me evitar como se eu fosse uma leprosa.
     Garotos da Costa Leste. No sabem de nada...
     Mas agora eu tinha a oportunidade de comear tudo de novo, com toda uma nova populao de caras que no sabiam nada do meu passado - quer dizer, exceto Soneca 
e Dunga, mas duvido que eles fossem dar com a lngua nos dentes, pois nenhum dos dois poderia ser considerado muito... loquaz, por assim dizer.
     Seja como for, o fato  que nenhum dos dois havia entrado em contato com Bryce, pois logo em seguida ele insistiu:
     - Ento no fim de semana. O que voc vai fazer no sbado  noite?
     Eu no estava certa de que fosse l uma idia to boa assim me envolver com um cara cuja falecida namorada estava tentando mat-lo. E se ela descobrisse e ficasse 
ressentida comigo? Eu podia apostar que o padre Dominic no ia achar muito legal eu estar saindo com o Bryce.
     Mas por outro lado, quantas vezes uma garota como eu  convidada para sair por um cara sensacional como Bryce Martinson?
     - OK - concordei. - No sbado. Me pega s sete?
     Ele deu um sorriso. Tinha dentes lindos, brancos e regulares.
     s sete - confirmou, largando o meu casaco. - At l. Se no antes...
     At l, ento - disse eu, com a mo na porta da classe de geometria da irm Mary Catherine. - Ah, sim, Bryce!
     Ele j estava seguindo para sua sala pela galeria.
     Sim...
     Cuidado por onde passa...
     Acho que ele piscou para mim, mas era difcil dizer na sombra.
     

      Captulo 9

     Quando eu entrei no Rambler no fim do dia, Mestre estava todo agitado. - Est todo mundo comentando! - gritou, pulando no assento. - Todo mundo viu! Voc salvou
a vida daquele cara! Voc salvou a vida do Bryce Martinson!
     Eu no salvei a vida de ningum - retruquei, ajeitando calmamente o espelho retrovisor para dar uma olhada nos cabelos. Jia. O ar salgado definitivamente me 
faz bem.
     Salvou sim. Eu vi aquela tora de madeira. Se tivesse cado na cabea dele, estava morto! Voc o salvou, Suze! Pode crer que salvou.
     Bem - disse eu, passando brilho nos lbios. - Talvez.
     Caramba, voc s foi ao colgio um dia e j  a garota mais popular da rea!
     Mestre no conseguia mesmo se conter. s vezes eu ficava pensando se um Lexotan no seria uma boa. No que eu no gostasse dele. Na realidade, era o filho do 
Andy de que eu gostava mais - o que no fundo no quer dizer muita coisa, mas  o melhor que posso dizer. Mestre  que chegara para mim na noite da vspera, quando 
eu estava tentando decidir o que vestiria no primeiro dia de aula, e me perguntara, muito plido, se eu tinha certeza que no queria trocar de quarto com ele.
     Fiquei olhando para ele como se ele estivesse maluco. Seu quarto era bem legal, e tudo mais, mas espera a. Desistir do meu prprio banheiro e da vista para
o mar? Nem pensar. Nem que isso significasse que eu estaria me livrando do meu incmodo companheiro de quarto, o Jesse, que na realidade no tinha voltado a aparecer
desde que eu o tinha mandado passear.
     - Por que diabos eu haveria de querer trocar o meu quarto? - perguntei.
     Mestre deu de ombros.
     - que...  que este quarto aqui  meio horripilante, no acha no?
     Fiquei olhando para ele. Vocs deviam ver como o meu quarto estava. Com o abajur da mesinha-de-cabeceira aceso, envolvendo tudo numa maravilhosa luz rosada, 
e o meu CD player tocando Janet Jackson - to alto que duas vezes minha me tinha gritado para eu abaixar -, horripilante era a ltima coisa que algum diria sobre
o meu quarto.
     - Horripilante? - repeti, olhando ao redor. Nenhum sinal do Jesse. Nenhum sinal de nada anormal. Estvamos perfeitamente instalados no reino dos seres vivos.
- O que tem de horripilante aqui? Mestre franziu a boca.
     - No diga nada ao papai - explicou ento -, mas tenho andado um bocado por a pesquisando esta casa, e cheguei  concluso, sem sombra de dvida, de que ela 
 mal-assombrada.
     Fiquei olhando para sua carinha sardenta, e vi que ele estava falando srio. Muito srio, como deixou claro o seu comentrio seguinte.
     - Embora a maioria dos cientistas tenha descartado quase todas as alegaes de casos de atividades paranormais no pas, persistem muitos indcios de fenmenos 
espectrais acontecendo no mundo sem explicao. Minha investigao aqui em casa ficou a desejar em matria de indcios considerados tradicionais de presena de espritos, 
como os chamados pontos frios. Mas ainda assim, Suze, ficou perfeitamente evidente a variao de temperatura neste quarto, levando-me a concluir que provavelmente 
houve aqui pelo menos um caso de grande violncia, talvez at um assassinato, e que alguns remanescentes da vtima (que voc pode chamar de alma, se quiser) ainda 
esto por aqui, talvez na v esperana de conseguir justia para sua morte violenta.
     Eu me recostei numa das colunas da minha cama. Caso contrrio, poderia ter cado.
     - Caramba - disse, fazendo fora para manter a voz normal. - Impossvel fazer uma garota se sentir mais bem- vinda. 
     Mestre ficou meio embaraado.
     - Lamento - disse ele, com a ponta das orelhas ficando vermelha. - No devia ter dito nada. Falei sobre isto com o Jake e o Brad e eles disseram que eu estava 
maluco. Talvez esteja mesmo. - E depois de engolir em seco, tomando coragem: - Mas considero meu dever, como homem, me oferecer para trocar de quarto com voc. Como 
v, no estou com medo.
     Eu sorri para ele, esquecendo completamente meu choque numa sbita onda de afeto. Fiquei realmente sensibilizada. Dava para ver que o carinha tinha precisado 
reunir toda a coragem para fazer aquela proposta. Ele realmente estava convencido de que o meu quarto era mal-assombrado, apesar de tudo que a cincia lhe dizia 
e no entanto se mostrava disposto a se sacrificar por minha causa, por puro cavalheirismo. Impossvel no gostar do carinha. Impossvel mesmo.
     - Beleza, Mestre - disse eu, esquecendo completamente de tudo, numa onda de sentimentalismo, e chamando-o pelo apelido que inventara para ele. - Acho que seria 
perfeitamente capaz de enfrentar qualquer fenmeno paranormal que viesse a ocorrer aqui.
     Ele no pareceu se importar com o apelido. Evidentemente aliviado, disse:
     Bom, se voc realmente no se importa...
      No, est tudo bem. Mas queria te perguntar uma coisa - continuei, abaixando a voz, para o caso de o Jesse estar em algum lugar por ali. - Nessas suas pesquisas,
em algum momento voc ficou sabendo o nome desse pobre coitado cuja alma estaria vagando pelo meu quarto? Mestre sacudiu a cabea.
     - Se voc quiser realmente, posso conseguir para voc. Posso dar uma olhada na biblioteca. Eles tm l todos os jornais que foram publicados aqui na regio 
desde que comeou a imprensa local, pouco antes da construo desta casa. Est tudo em microfilmes, e tenho certeza de que se ficar algum tempo dando uma olhada...
     A coisa me parecia meio absurda, um garoto passando o tempo todo numa biblioteca bolorenta vendo microfilmes, com uma praia daquelas a dois quarteires dali. 
Mas cada um na sua, certo?
     - Beleza - foi tudo que consegui dizer.
     Agora eu estava vendo que o fraco que o Mestre tinha por mim ameaava adquirir dimenses completamente desproporcionais. Primeiro eu tinha me prontificado a 
viver num quarto que segundo diziam podia ser mal-assombrado, depois tinha salvado a vida de Bryce Martinson. E depois, que grande faanha me esperava? Correr os 
cem metros rasos em 10s04?
     - Veja bem - disse eu, enquanto Soneca pelejava com a ignio, que aparentemente tinha uma certa tendncia a no funcionar na primeira tentativa. - Eu fiz apenas 
o que qualquer um de vocs teria feito se estivesse l.
     - O Brad estava l e no fez nada - atalhou Mestre. Dunga interferiu:
     - Corta essa, eu no vi nenhuma droga de viga, est bem? 
     Se tivesse visto, tambm teria empurrado ele dali. Minha nossa!
     - Tudo bem, mas voc no viu. Provavelmente estava ocupado demais olhando para Kelly Prescott.
     Dizendo isto, Mestre levou um belo safano no brao:
     Fecha essa matraca, David - disse o Dunga. - Voc no sabe do que est falando.
     Cala a boca todo mundo! - cortou o Soneca, num raro acesso de mau humor. - Nunca vou conseguir tirar este carro do lugar se vocs continuarem me atrapalhando
desse jeito. Brad, pare de bater no David, David, pare de gritar no meu ouvido, e Suze, se voc no tirar este seu cabeo a do espelho nunca vou conseguir ver
para onde estamos indo. Vou te contar, mal posso ver a hora de botar minhas mos naquele Camaro!
     Foi depois do jantar que o telefone tocou. Minha me teve de berrar l de baixo porque eu estava com meus fones de ouvido. Embora ainda fosse o primeiro dia 
do novo semestre, eu j tinha um bocado de dever de casa para fazer, sobretudo de geometria. Na minha antiga escola ns s tnhamos chegado ao captulo sete. Os 
segundanistas da Academia da Misso j estavam no captulo doze. E eu sabia que estaria acabada se no comeasse a recuperar o atraso.
     Quando desci para atender o telefone, minha me j estava to furiosa comigo por ter precisado gritar - o trabalho dela exige que cuide muito bem das cordas 
vocais - que nem quis dizer quem era. Eu peguei o telefone e disse al.
     Houve uma pausa, e eu ouvi a voz do padre Dominic. 
     - Al? Suzannah?  voc? Desculpe incomod-la em casa, mas estive pensando muito, e realmente estou achando... eu cheguei  concluso de que precisamos fazer 
alguma coisa imediatamente. No consigo parar de pensar no que teria acontecido ao pobre Bryce se voc no estivesse l.
     Eu olhei para os lados. O Dunga estava jogando Cool Boarders (com o pai, a nica pessoa na casa que deixava ele ganhar), minha me estava trabalhando no computador, 
Soneca tinha sado para substituir um entregador de pizza que estava doente e Mestre estava na mesa da sala de jantar trabalhando num projeto de cincias que s 
teria de apresentar em abril.
     Hmm - disse eu. - Olha s, realmente no vou poder falar agora.
     Entendo - disse o padre Dom. - E no se preocupe, quem fez a chamada atendida pela sua me foi uma das novias. Sua me est achando que foi uma nova amiguinha 
sua da escola. Mas o fato, Suzannah,  que precisamos fazer alguma coisa, de preferncia esta noite...
     Olha - respondi. - No se preocupe. Est tudo sob controle.
     Padre Dom pareceu surpreso.
      Est mesmo? Tem certeza? Como? Como voc est conseguindo manter a coisa sob controle?
     No tem importncia. Mas eu j fiz isto antes. Tudo vai dar certo, prometo.
     - Ora, est bem,  timo prometer que tudo vai dar certo , mas eu j a vi em ao, Suzannah, e no posso dizer que fiquei muito bem impressionado com o seu 
mtodo. Daqui a um ms o arcebispo estar chegando, e realmente eu no posso...
     O telefone sinalizou que havia outra chamada, eu pedi que ele esperasse um minutinho, apertei o boto e disse:
     Casa dos Ackerman Simon.
     Suze? - disse uma voz de garoto, que eu no reconheci.
     Sim...
     Oi, tudo bem?  o Bryce. Ento. Qual  a boa?
     Eu olhei para minha me. Estava com a cara completamente enfiada na reportagem em que estava trabalhando.
     - Hmm - disse eu -, nada demais. Pode esperar s um pouquinho, Bryce? Estou com uma pessoa na outra linha.
     - Claro - respondeu ele. Voltei para o padre Dominic.
     - Ento - retomei, com cuidado para no dizer alto o seu nome. - Agora preciso ir. Minha me est esperando uma chamada muito importante na outra linha. Um 
senador. Um senador muito importante.
     Eu provavelmente iria para o inferno por causa disto - se  que existe este lugar -, mas no podia dizer a verdade ao padre Dominic: que eu ia sair com o ex-namorado 
do fantasma.
     Ora, mas  claro - disse padre Dominic. - Eu... bem, se voc tiver um plano...
     Tenho sim. No se preocupe. Nada vai estragar a visita do arcebispo. Prometo. Tchau - e desliguei, voltando para o Bryce: - Oi, desculpe... E a?
       Nada, no. Eu estava s pensando em voc. Que vai querer fazer no sbado? Quer dizer... quer sair para jantar, ir a um cinema, ou quem sabe as duas coisas? 
A  outra linha acendeu. Respondi:
     - Bryce, eu sinto muito realmente, mas a casa aqui est uma zona... Pode esperar um minutinho? Obrigada. Al? Uma voz de garota que eu nunca tinha ouvido disse: 
Oi, tudo bem?  a Suze?
     - Falando - eu disse.
     - Oi, Suzinha,  a Kelly. Kelly Prescott, da sua classe. S queria te dizer... aquilo que voc fez hoje pelo Bryce... foi muito legal. Puxa, nunca vi tanta
coragem na minha vida!  Deviam abrir manchete para voc no jornal, no mnimo. Vou reunir uns amigos em casa neste sbado, nada de mais, s uma festinha na piscina, 
o pessoal l de casa vai viajar no fim de semana, e a piscina  aquecida, claro... Ento fiquei achando que se voc quisesse, poderia aparecer...
     Fiquei ali segurando o telefone, completamente abestalhada. Kelly Prescott, a garota mais rica e mais bonita da segunda srie, estava me convidando para uma 
festa na piscina na mesma noite em que eu tinha um encontro com o garoto mais sexy da escola. Que ainda por cima estava na outra linha.
     Puxa, Kelly, claro - respondi. - Eu adoraria. O Brad sabe onde fica?
     Brad? - fez a Kelly, logo emendando: - Ah, o Brad! Claro, ele  seu meio-irmo ou algo assim, certo? Isso mesmo, traz ele tambm. Mas, olha... 
     Adoraria ficar conversando, Kelly, mas estou com uma pessoa na outra linha. Podemos conversar sobre isto amanh no colgio?
     Claro, sem problema. Tchauzinho.
     Apertei de novo o boto do Bryce, pedi que esperasse mais um pouquinho, tampei o bocal do fone com a mo e gritei:
     - Brad, festa na piscina da casa da Kelly Prescott neste sbado. Se no for, eu te mato.
     Dunga largou o controle remoto.
     - Nem pensar! - berrou, exultante. - O cacete que eu no vou!
     Andy aplicou-lhe um cascudo.
     - Olha a linguagem!
     Eu voltei a falar com o Bryce.
     -Jantar seria genial - disse. - Qualquer coisa, menos comida natureba.
     timo! - fez ele. - Isso mesmo, eu tambm odeio comida natural. No tem nada igual a um bom pedao de carne, com umas fritas e um bom molho...
     Beleza, Bryce. Desculpe, mas  aquela outra chamada de novo, lamento mesmo mas vou ter de ir, t bom? Falo com voc amanh no colgio.
     OK, tudo bem - concordou Bryce, mas parecendo surpreso. Aposto que eu era a primeira garota que se preocupava em atender a outra linha durante um telefonema 
dele. - Tchau, Suze. E obrigado de novo.
     Sem problema. Disponha - e desliguei, atendendo  outra ligao. 
     - Suze?  Cee Cee!
     No fundo, ouvi o Adam gritando: - E eu tambm!
     - E a, garota? - foi dizendo a Cee Cee. - Estamos indo para o Clutch. Quer que a gente te apanhe? O Adam acaba de tirar carteira de motorista.
     Sou perfeitamente legal! - gritou o Adam no telefone.
     Clutch?
     , o Caf Clutch, no centro. Voc no gosta de caf? Voc no  de Nova York?
     Aquela eu tive que pensar.
     Podes crer. O problema...  que eu j estou meio comprometida.
     Ah, corta essa! Que compromisso voc pode ter? Vai lavar o casaco? Sei que voc  a maior herona e coisa e tal, e talvez no tenha tempo para ns, simples 
mortais, mas...
     Ainda no acabei minha redao sobre a batalha de Bladensburgo para o professor Walden - disse. - E ainda preciso estudar muita geometria se quiser chegar perto 
de vocs, gnios.
     Ai meu Deus - retrucou Cee Cee. - Falou, ento. Mas vai ter que prometer que senta do nosso lado no almoo amanh. Queremos saber direitinho como voc apertou
o seu corpo contra o do Bryce e como se sentiu e tudo mais...
     No quero saber nada disso - cortou o Adam, fingindo-se de horrorizado.
     -  isso a - concluiu Cee Cee. - Eu quero saber tudinho. Eu prometi a ela que no omitiria nenhum detalhe e desliguei. Olhei para o telefone, e, para grande
alvio meu, ele no estava tocando. Eu nem podia acreditar. Nunca na vida eu havia sido to popular. Sinistro.
     Claro que eu tinha pregado a maior mentira sobre o dever de casa. J tinha escrito a redao e estudara dois captulos de geometria - o mximo que eu conseguiria
numa noite. Mas a verdade, claro,  que eu tinha uma misso a cumprir, e precisava me preparar.
     No  preciso muita coisa para fazer uma mediao. Cruzes e gua benta so coisas que podem ser necessrias para matar um vampiro - e posso lhes garantir que
nunca na vida encontrei um vampiro, e no foram poucas as horas que eu passei em cemitrios -, mas no caso de fantasmas, basta ter uma boa lbia.
     Mas s vezes, para que o trabalho fique bem-feito,  necessrio mesmo tomar certas providncias. E para isso so necessrias algumas ferramentas. Recomendo
sempre usar objetos encontrados no local, pois assim voc no tem que carregar muita coisa. Mas no deixo de levar comigo um cinturo de ferramentas com lanterna,
uma chave de fenda, alicates e coisas assim, que eu uso por cima de um par de leggings pretos. Eu estava apertando o cinturo por volta de meia-noite, feliz porque
todo mundo na casa j estava dormindo - inclusive o Soneca, que quela altura j tinha voltado das entregas de pizzas -, e acabava de me meter na minha jaqueta de
moto quando recebi uma visita, adivinha de quem?...
     - Minha nossa! - exclamei ao dar com o reflexo dele por trs do meu no espelho em que eu estava me olhando. Eu juro, h anos que vejo fantasmas, mas sempre
me d um calafrio quando algum deles se materializa na minha frente. Dei meia-volta, muito danada, no porque ele estivesse ali, mas por ter me apanhado de surpresa.
- Por que ainda est por aqui? Achei que tinha dito para voc se mandar.
     Jesse estava recostado no maior relax numa das pilastras da minha cama. Com seus olhos negros, me examinava do alto do meu capuz  ponta dos meus tnis.
     No acha que j  um pouco tarde para sair, Suzannah? - perguntou ele, com a maior naturalidade, como se estivssemos no meio de uma conversa sobre, sei l,
digamos, a segunda Lei dos Escravos Foragidos, que deve ter sido promulgada mais ou menos na poca em que ele morreu.
     Hmm - fiz eu, tirando o capuz. - Olha s, sem querer ofender, Jesse, mas isto aqui  o meu quarto. Que tal voc tentar se mandar? E que tal deixar que eu cuide
da minha vida?
     Jesse nem se mexeu.
     Sua me no vai gostar de saber que voc est saindo to tarde da noite.
     Minha me? - E fiquei olhando para ele, l em cima, pois era surpreendentemente alto para algum que est morto. - Que  que voc sabe da minha me?
     Gosto muito da sua me - disse Jesse calmamente. -  uma boa mulher. Voc tem muita sorte de ter uma me que a ame tanto. Acho que ela ficaria muito preocupada
em ver que voc est se expondo ao perigo.
     Me expondo ao perigo...  isso a!
     - Tudo bem. Segura esta agora, Jesse. H muito tempo eu saio de noite e minha me nunca disse uma palavra sobre isto. Ela sabe perfeitamente que eu sei cuidar
de mim.
     OK, uma bela duma mentirinha, mas ele no tinha como saber mesmo...
     - Sabe mesmo? - perguntou ele, erguendo dubitativamente uma das sobrancelhas negras. No pude deixar de perceber que havia uma cicatriz cortando pelo meio essa
sobrancelha, como se algum tivesse zunido uma faca de raspo em seu rosto. Eu meio que senti a sensao que devia dar. Especialmente quando ele deu uma risadinha
de satisfao e disse: - Acho que no sabe no, hermosa. No neste caso.
     Eu levantei as duas mos.
     - OK. Para comeo de conversa: no fale comigo em espanhol. Nmero dois: voc nem sabe aonde eu estou indo, de modo que sugiro que largue do meu p.
     - Mas eu sei perfeitamente aonde voc est indo, Suzannah. Voc est indo para o colgio para tentar falar com aquela garota que est tentando matar o rapaz,
aquele de que voc parece estar... gostando. Mas estou lhe avisando, hermosa, voc no agenta com ela sozinha. Se tiver mesmo de ir, devia levar o padre com voc.
     Fiquei olhando para ele. Tinha a sensao de que meus olhos estavam saltando para fora, mas no podia acreditar no que estava acontecendo.
     - O qu? Como pode estar sabendo de tudo isso? Por acaso voc est... me perseguindo?
     Ele deve ter percebido pela minha reao que no devia ter dito aquilo, pois se endireitou e disse:
     No sei o que significa esta palavra, perseguindo. S sei que voc est se expondo ao perigo.
     Voc anda me seguindo - insisti, apontando para ele um dedo acusador. - Vai dizer que no anda? Tenha d, Jesse, eu j tenho um irmo mais velho, no preciso
de outro no. No preciso que ande por a me espionando...
     Oh, claro - disse ele, com todo sarcasmo. - Esse irmo cuida muito bem de voc. Quase to bem quanto cuida do prprio sono.
     Espera a! - exclamei, saindo em defesa do Soneca, contra todas as probabilidades. - Ele trabalha de noite, est sabendo? Est economizando para comprar um
Camaro!
     Jesse fez um gesto que muito provavelmente era grosseiro, l pelos idos de 1850.
     Voc no vai a lugar nenhum - disse ento.
     Ah,  mesmo? - desafiei, rodando no calcanhar e saindo porta afora. - Tente me segurar, bafo de cadver.
     Ele foi de uma preciso cirrgica. Minha mo j estava na maaneta quando a tranca da porta se fechou. Eu nem tinha notado ainda que havia uma tranca na minha 
porta - ela devia ser muito antiga. O controle manual estava arrebentado e s Deus sabia onde  que podia estar a chave.
     Fiquei parada ali bem meio minuto, olhando para minha mo sem acreditar muito enquanto ela girava em vo a maaneta. At que resolvi respirar bem fundo, como 
havia sugerido a terapeuta da minha me. Ela no estava querendo dizer que eu devia respirar fundo quando estivesse enfrentando um fantasma perseguidor. Achava apenas 
que devia faz-lo de maneira geral, sempre que estivesse me sentindo estressada.
     Mas o fato  que ajudou. E ajudou muito.
     - OK - disse afinal, voltando-me. - Jesse, isto no  nada legal.
     Jesse ficou muito sem graa. Bastava olhar para ele para entender que no estava nada satisfeito com o que acabara de fazer. No sei o que foi que causou a 
sua morte na vida anterior, mas certamente no foi por ele ser um sujeito cruel ou por gostar de machucar as pessoas. Ele era um bom sujeito. Ou pelo menos estava 
tentando ser.
     - Eu no posso... - disse ele, j agora bem na minha frente. - Suzannah, no v. Essa mulher... essa garota, a Heather, no  como os outros espritos que voc
pode ter encontrado. Ela est cheia de dio. Se puder, vai mat-la.
     Eu dei um sorriso encorajador:
     - A mesmo  que eu devo acabar com ela, no? Vamos l, abra a porta.
     Ele hesitou. Por um momento, achei que ele ia abri-la. Mas ele acabou no abrindo. Apenas ficou l, meio sem graa, mas firme.
     - Como quiser - disse eu, e o contornei, caminhando direto para a janela. Botei um p no assento que o Andy havia feito e levantei a persiana da janela. J 
estava com uma perna passando sobre o peitoril quando senti sua mo agarrando meu pulso. 
     Voltei-me para olhar para ele. No consegui ver seu rosto, pois a luz da minha cabeceira estava por trs dele, mas ouvia perfeitamente sua voz e o tom suave 
em que pedia:
     - Suzannah...
     S isso: apenas o meu nome.
     Eu no disse nada. Nem podia. Quer dizer, claro que podia, no era como se houvesse um caroo na minha garganta ou coisa assim. Simplesmente... sei l.
     Em vez disso, fiquei olhando para a mo dele, que era muito grande e meio escura, mesmo por cima do couro preto da minha jaqueta. Ele tinha um bocado de fora 
naquela mo, para um sujeito que estava morto. E at para um sujeito vivo. Viu que o meu olhar estava baixando, olhou na mesma direo e se deu conta de que sua 
mo estava agarrando o meu pulso,
     E ento me soltou de repente, como se minha pele tivesse comeado a queimar ou coisa parecida. Eu continuei subindo na janela. Quando consegui atravessar o 
telhado da varanda e chegar ao cho l embaixo, voltei-me em direo  janela do meu quarto.
     Mas  claro que ele j tinha ido embora.
     

      Captulo 10
      
      Era uma noite fresca e clara. De lua cheia. Ali, da frente da casa, eu a via sobre o mar, parecendo um lampio aceso - no um farol como o sol, mas uma daquelas
lmpadas de poucos watts que a gente pe em abajures retorcidos na mesinha-de-cabeceira. O Pacfico, parecendo  distncia um espelho tranqilo, estava negro, exceto 
numa estreita faixa iluminada pela lua, branca como papel.
      luz da lua eu podia ver a cpula vermelha da igreja da Misso. Mas s porque eu estava vendo a Misso no queria dizer que a Misso estava perto. Ficava a 
bem uns trs quilmetros de distncia. Eu trazia no bolso as chaves do Rambler, que havia subtrado meia hora antes. O metal estava aquecido pelo calor do meu corpo. 
O Rambler, que de dia era turquesa, ficava parecendo cinza naquela sombra. Bom, sei perfeitamente que no tenho carteira. Mas se o Dunga pode... 
     Tudo bem. Acabei vacilando. E no  melhor mesmo que eu tenha decidido no dirigir? Pois se no sabia como fazer... Quer dizer, no que eu no saiba dirigir. 
Claro que sei.  s que eu no tive muita prtica, pois passei a vida inteira na capital mundial dos transportes pblicos...
     Ah, esquece. Dei meia-volta e caminhei em direo  garagem. Tinha de haver uma bicicleta em algum lugar. Trs garotos, confere? Tinha de haver pelo menos uma 
bicicleta.
     Acabei encontrando uma. Era uma bicicleta de homem, claro, com aquela barra imbecil, e um assento duro demais. Mas parecia funcionar bem. Pelo menos os pneus 
no estavam vazios.
     Ento pensei: muito bem, l vou eu vestida de preto, andando de bicicleta pelas ruas depois de meia-noite. O que est faltando?
     No esperava mesmo encontrar alguma fita fosforescente, mas fiquei pensando que um capacete no seria mau. Havia um pendurado num cabide ao lado da garagem. 
Abaixei o capuz do meu suter e pus o capacete. Uau! Charmosa e bem protegida, s mesmo eu.
     E l fui eu, descendo a ladeira. Cascalho no  exatamente a melhor coisa para andar de bicicleta, especialmente descendo. E logo ficou claro que o caminho 
todo era descendente, pois a casa, com vista para a baa, ficava num dos lados daquela espcie de outeiro. Descer certamente era melhor que subir - eu nunca ia conseguir 
voltar para casa subindo aquela ladeira; entendi perfeitamente que na volta teria de empurrar a bicicleta -, mas dava uma aflio enorme aquela descida. A colina 
era to ngreme, o caminho to tortuoso e a noite estava to fria que pedalei com o corao na boca quase o tempo todo, com lgrimas escorrendo pelas bochechas por 
causa do vento. E aqueles buracos...! Vou te contar! Como aquela porcaria daquele assento machucava quando eu passava por um buraco!
     Mas a colina no era o pior de tudo. Quando cheguei l embaixo dei com um cruzamento de pistas. Dava muito mais medo que a colina, pois embora j passasse de 
meia-noite havia carros passando. Um deles buzinou para mim. Mas no foi culpa minha. Eu estava indo to rpido, por causa da colina e tudo mais, que se tivesse 
parado provavelmente teria voado por cima do guido. De modo que fui em frente, escapando por pouco de ser atropelada por uma pick-up e, de repente, nem sei como, 
eu estava entrando no estacionamento do colgio.
     A Misso parecia muito diferente  noite. Para comear, durante o dia o estacionamento estava sempre cheio, com todos aqueles carros dos professores, alunos 
e turistas que visitavam a igreja. Mas agora estava vazio, no havia um nico carro, e to tranqilo que era possvel ouvir, bem longe, o som das ondas na praia 
de Carmel.
     Alm disso, por causa do turismo, suponho, eles tinham instalado aqueles focos de luz para iluminar certas partes do prdio, como a cpula - que estava toda 
iluminada - e o frontispcio da igreja, com seu enorme prtico de entrada. Mas a parte posterior do prdio, onde eu fui dar, estava bem escura. O que, afinal, me 
convinha perfeitamente. Escondi a bicicleta por trs de uma lixeira, deixei o capacete pendurado no guido e me aproximei de uma janela. A Misso foi construda 
h mais ou menos um quaquilho de anos, quando no existia ar-condicionado ou aquecimento central e, para refrescar no vero e aquecer no inverno, as construes 
tinham paredes muito grossas. Com isto, todas as janelas da Misso tinham uma profundidade de uns trinta centmetros, com mais outros trinta centmetros de recuo 
na parte interior.
     Eu subi num desses parapeitos, olhando ao redor para ver se ningum estava me vendo. Mas s havia por perto um par de guaxinins fuando em volta da lixeira, 
em busca de algum resto do almoo. Levei ao rosto ento as mos em forma de viseira, para proteger os olhos da luz da lua, e olhei l para dentro.
     Era a sala de aula do professor Walden. Com o luar incidindo l dentro, pude ver sua letra no quadro-negro e o grande cartaz de Bob Dylan, seu poeta favorito, 
pendurado na parede.
     No levei mais que um segundo para quebrar o vidro de uma das antiquadas vidraas de ferro, esticar o brao l para dentro e abrir a janela. O mais difcil 
em matria de arrombar uma janela no  propriamente o momento de quebrar o vidro ou mesmo de conseguir abrir a maaneta. O pior  tirar a mo depois sem se cortar. 
Eu tinha trazido meu melhor par de luvas caa-fantasma, daquelas bem espessas, de borracha preta com enchimento nas juntas, mas minha manga j tinha ficado presa 
uma vez, deixando meu brao todo arranhado.
     Isso no aconteceu desta vez. Alm disso, a janela abria para fora, no para cima, o que me facilitou a entrada. J aconteceu de eu arrombar lugares que tinham 
alarmes - o que me obrigou a fazer pequenas e desconfortveis viagens na parte de trs de caminhonetes do servio pblico nova-iorquino - mas a Misso ainda no 
tinha chegado a este requinte em seu sistema de segurana. Na realidade, o sistema de segurana deles parecia consistir apenas em trancar as portas e janelas, e 
seja o que Deus quiser.
     O que certamente me convinha.
     Uma vez dentro da sala do professor Walden, fechei a janela pela qual havia entrado. No tinha sentido mesmo chamar a ateno de algum que por acaso estivesse 
vigiando a regio (at parece...). Era fcil ir passando entre as carteiras, com todo aquele brilho da Lua. E depois de ter aberto a porta e passado para a galeria, 
constatei que tambm no ia precisar da lanterna. O ptio estava inundado de luz. Conclu que a Misso deve receber turistas at bem tarde, quando j escureceu, 
pois no beiral do telhado havia focos de luz amarela apontados em diferentes direes: a palmeira mais alta, aquela que tinha o maior arbusto de hibiscos em sua
base; a fonte, que continuava ligada, mesmo quela hora; e, naturalmente, a esttua do padre Serra, com uma luz brilhando em sua cabea de bronze e outra nas cabeas 
das indgenas americanas a seus ps. 
     Ainda bem que o padre Serra era uma boa pessoa e j estava morto. Eu tinha a sensao de que aquela esttua o teria deixado muito embaraado mesmo.
     A galeria estava vazia, assim como o ptio. No havia ningum por ali. Eu s ouvia o farfalhar da gua da fonte e o canto dos grilos no jardim. Parecia mesmo 
um lugar bem tranqilo, o que no deixava de ser surpreendente. Estou querendo dizer  que nenhuma de minhas outras escolas me parecia tranqila. Pelo menos aquela 
ali estava parecendo bem tranqila, at que eu ouvi aquela voz spera atrs de mim:
     - O que est fazendo aqui?
     Dei meia-volta, e l estava ela. Simplesmente recostada no seu armrio - perdo, no meu armrio - e de olho grudado em mim, os braos cruzados no peito. Estava 
usando um par de calas negras - bem elegantes - e um twinset de caxemira cinza. Trazia no pescoo um colar de prolas, com uma prola para cada Natal e cada aniversrio 
de sua vida, certamente um presente de avs muito amorosos. Nos ps, um par de sapatos negros reluzentes. Seu cabelo, que brilhava tanto quanto os sapatos  luz 
amarelada dos refletores, parecia macio e dourado. Ela realmente era uma garota bonita.
     Pena que tivesse estourado os miolos.
     - Heather - disse eu, tirando o capuz. - Oi. Lamento te incomodar... - sempre ajuda pelo menos comear de uma maneira polida - ... mas acho que a gente precisa 
muito conversar, voc e eu. 
     Heather nem se mexeu. No, estou exagerando. Ela apertou um pouco os olhos. Tinham uma cor plida, acho que meio acinzentada, embora fosse difcil saber, apesar 
dos refletores. Os longos clios, escurecidos com rmel, tinham uma espcie de moldura de lpis negro de muito bom gosto.
     - Conversar? - perguntou ela. - Ah sim, claro. Eu tambm quero muito falar com voc. Estou sabendo perfeitamente sobre voc, Suzinha.
     Eu tremi nas bases. No consegui me conter:
     Suze - corrigi.
     Como quiser. Eu sei o que voc est fazendo aqui.
     timo, muito bem - respondi. - Neste caso no vou precisar explicar. Quer se sentar para a gente poder conversar?
     Conversar? Por que eu haveria de querer conversar com voc? O que voc est pensando que eu sou, man? Meu Deus, voc se acha mesmo muito esperta, no ? Acha 
que simplesmente pode ir entrando, assim...
     Como assim?... - fiz eu, piscando.
     Ir tomando o meu lugar - endireitou-se ela, afastando-se do armrio e caminhando em direo ao ptio como se estivesse admirando a fonte. - Voc, a nova garota 
- prosseguiu, olhando-me com o rabo do olho. - A garota nova que acha que pode simplesmente ir tomando o lugar que me pertencia. Voc j se apoderou do meu armrio. 
J est querendo roubar minha melhor amiga. Eu sei que a Kelly te telefonou e te convidou para a porcaria da festa dela. E agora est achando que pode roubar o meu 
namorado. 
     Eu botei as mos nas cadeiras:
     - Ele no  mais seu namorado, lembra, Heather? Ele acabou com voc. E  por isto que voc est morta. Voc estourou os miolos na frente da me dele.
     Heather arregalou os olhos.
     - Cala a boca - disse.
     - Voc estourou os miolos na frente da me dele porque era burra demais para entender que nenhum garoto, nem mesmo o Bryce Martinson, merece que a gente morra 
por ele. - Eu passei por ela, caminhando em direo a uma das galerias de cascalho que cortavam os jardins. Eu no queria reconhecer, nem para mim mesma, mas estava 
ficando meio nervosa de ficar ali naquela galeria coberta depois do que acontecera ao Bryce. - Voc deve ter ficado com muita raiva quando se deu conta do que havia 
feito. Voc se matou. E por uma coisa to boba. Por causa de um cara.
     - Cala a boca! - Dessa vez ela no estava s falando, estava j gritando, to alto que precisou cerrar os punhos, fechar os olhos e encolher os ombros. Gritou 
to alto que meus ouvidos ficaram ressoando um bom tempo. Mas no veio ningum correndo da reitoria, onde eu vira algumas luzes acesas. Os pombos que eu ouvira arrulhando 
no beiral da galeria no emitiam um nico som desde que a Heather aparecera, e os grilos haviam tratado de adiar o resto de sua serenata.
     As pessoas no ouvem fantasmas - bem, no pelo menos a maioria das pessoas -, mas o mesmo no se pode dizer dos animais e mesmo dos insetos. Eles so hipersensveis 
a qualquer presena paranormal. Por causa do Jesse, o Max, o cachorro dos Ackerman, nem chega perto do meu quarto.
     No precisa gritar assim - disse eu. - Ningum mais pode te ouvir alm de mim.
     Grito quanto quiser - berrou ela, e comeou a gritar mesmo.
     Bocejando, fui sentar-me num dos bancos de madeira junto  esttua do padre Serra. Percebi ento que havia uma placa no pedestal. Graas aos refletores e  
luz da lua, eu podia perfeitamente ler a inscrio.
     Ao venervel Padre Junipero Serra, 1713-1734 - dizia a placa. - Seu comportamento exemplar e sua abnegao foram um exemplo para todos que o conheceram e receberam
seus ensinamentos.
     Hmm... Eu ia ter de olhar abnegao no dicionrio quando voltasse para casa. Fiquei me perguntando se era a mesma coisa que autoflagelao, algo pelo que Serra
tambm era conhecido.
     Voc est me ouvindo? - gritava Heather. Eu olhei para ela.
     Sabe o que significa abnegao? - perguntei.
     Ela parou de gritar e ficou olhando para mim. Depois deu uns passos adiante, com a expresso lvida de raiva.
     - Escuta aqui, sua vaca - foi dizendo, parando de caminhar quando estava j quase grudada em mim. - Quero que voc simplesmente desaparea, est entendendo? 
Quero que desaparea desse colgio. Este armrio  meu! A Kelly  a minha melhor amiga. E o Bryce  o meu namorado! V se trata de desaparecer, de voltar para o 
lugar de onde veio. Estava tudo muito bem aqui antes de voc chegar... Eu tive de interromper.
     - Sinto muito, Heather, mas as coisas no estavam nada bem antes de eu chegar aqui. E sabe por que eu sei disso? Porque voc est morta. Entendeu? Voc est 
morta. Os mortos no tm armrios, nem amigas, nem namorados. E sabe por qu? Porque esto mortos.
     Parecia que a Heather ia comear a berrar de novo, mas eu me adiantei, dizendo com toda suavidade e clareza:
     Eu sei que voc cometeu um erro. Voc cometeu um erro terrvel, horrvel mesmo...
     No fui eu que cometi o erro - atalhou ela, cortante. - Foi o Bryce que cometeu o erro. Foi ele que rompeu comigo.
     Eu respondi:
     Tudo bem, no era desse erro que eu estava falando. Estava me referindo ao fato de voc dar um tiro na cabea porque um boboca de um garoto acabou com voc...
     Se acha que ele  to imbecil assim - disse ela, com uma expresso de zombaria - por que vai sair com ele no sbado? Isso mesmo. Eu ouvi ele te convidando.
Aquele desgraado. Ele provavelmente no foi fiel nem durante um dia enquanto a gente estava saindo.
     Sensacional - disse eu. - Mais um motivo para voc se matar por causa dele...
     Eu vi que havia lgrimas se acumulando por baixo das pestanas dela. 
     Eu o amava - suspirou ela, - Se no pudesse t-lo para mim, eu no queria viver.
     E agora que voc est morta fica achando que ele devia ir ao seu encontro, no  mesmo? - perguntei, j cansada.
     No gosto deste lugar - disse ela mansamente. - Ningum me v. S voc e o padre Dominic. Eu me sinto to sozinha...
     OK.  compreensvel. Mas, Heather, mesmo que voc consiga mat-lo, ele provavelmente no vai gostar muito de voc por ter feito isto.
     Eu sei como fazer para que ele goste de mim - disse ela, confiante. - Afinal, seremos s eu e ele. Ele vai ter de gostar de mim.
     Eu balancei a cabea:
     No, Heather, no funciona assim, Ela olhou bem fixo para mim:
     Que quer dizer?
     Se voc matar o Bryce, no h a menor garantia de que ele acabe ficando com voc, O que acontece com as pessoas depois que morrem... bem, eu no tenho muita 
certeza, mas acho que  diferente para cada pessoa. Se voc matar o Bryce, ele vai mesmo para onde tem de ir. Cu, inferno, a prxima vida - no sei ao certo. Mas 
sei que ele no vai se juntar a voc. No funciona assim,
     Mas... - e ela parecia furiosa. - No  justo!
     Muita coisa no  justa, Heather. No  justo, por exemplo, que voc tenha de sofrer por toda a eternidade por causa de um erro que cometeu no calor da hora. 
Tenho certeza de que se voc soubesse como era estar morta, no teria se matado. Mas no tem de ser assim, Heather.
     Ela ficou olhando para mim. As lgrimas pareciam congeladas, como pedacinhos de gelo.
     No tem mesmo?... - fez ela.
     No. No tem.
     Voc quer dizer... est querendo dizer que eu posso voltar?
     Eu fiz que sim com a cabea.
     Pode sim. Voc pode comear de novo. Ela fungou.
     Como? Eu respondi:
     S precisa tomar a deciso.
     Uma sombra passou em seu lindo rostinho.
     - Mas eu j decidi que  isto que eu quero. S o que eu quero desde... desde que aconteceu...  ter minha vida de volta.
     Eu balancei a cabea.
     - No, Heather - disse ento. - Voc no entendeu o que eu estou dizendo. Voc nunca vai ter de volta a sua vida, a sua velha vida. Mas pode comear uma outra. 
E ela s poder ser melhor do que isto, do que ficar por a para sempre sozinha, vagando enfurecida, machucando as pessoas...
     Ela gritou:
     - Voc disse que eu poderia ter minha vida de volta! Naquele instante eu me dei conta de que ela estava perdida. 
     - Eu no estava querendo dizer a sua antiga vida. Quis dizer uma vida...
     Mas j era tarde demais. Ela estava surtando.
     Agora eu estava entendendo por que os pais do Bryce o haviam mandado para Antgua. E at eu gostaria de estar l - ou em qualquer outro lugar, desde que fosse 
longe da ira daquela garota.
     Voc disse - gritava ela -, voc disse que eu podia ter de volta a minha vida! Voc mentiu para mim!
     Heather, eu no menti! S estava querendo dizer que a sua vida... bem, a sua vida acabou. Heather, voc mesma acabou com ela. Eu sei que  uma droga, mas, puxa, 
voc devia ter pensado nisso.
     Ela me interrompeu com um gemido meio... sobrenatural, claro.
     No vou permitir... No vou deixar voc tomar a minha vida! - berrou.
     Heather, eu j lhe disse, no estou tentando tirar a sua vida. Eu tenho a minha prpria vida. No preciso da sua...
     Com os grilos e os pssaros calados, o som da gua borbulhando na fonte a poucos passos dali era o nico rudo no ptio -  parte os gritos da Heather, claro. 
Mas de repente o som da gua ficou estranho. Parecia que havia alguma coisa estalando. Olhei na direo da fonte e vi que estava saindo uma fumaa. Eu no teria 
estranhado tanto - afinal, estava bem frio, e a temperatura da gua podia estar mais quente que a do ar - se no tivesse visto uma enorme bolha rebentar de repente 
na superfcie da gua. 
     Foi a que me dei conta. Ela estava fazendo a gua ferver. Estava fervendo a gua com a fora da sua fria.
     Heather - disse eu, sentada no banco. - Heather, oua me. Voc precisa se acalmar. No podemos conversar com voc assim...
     Voc... voc disse... - e eu via com alarme que seus olhos estavam revirando para trs. - Que eu... que eu podia... comear de novo!
     Tudo bem. Estava na hora de fazer alguma coisa. Eu no precisava ficar ali sentada naquele banco se era para ser sacudida com tanta fora que quase fui jogada 
ao cho. Deu para sacar que era a hora de me levantar.
     E foi o que fiz, bem depressa. Bem rpido, para no ser atingida pelo banco. To rpido que a Heather nem teria chance de perceber que eu ia derrub-la com 
uma direita bem no queixo.
     Para minha surpresa, no entanto, ela nem pareceu sentir nada. Estava em outra. Em outra muito diferente. O murro no teve o menor efeito - s serviu para me 
deixar os dedos doendo. E  claro que pareceu deix-la ainda mais furiosa, o que sempre ajuda quando estamos lidando com uma pessoa perturbada demais.
     - Voc vai se arrepender disto - proferiu ela numa voz cavernosa que no tinha nada a ver com seus gritinhos de lder da torcida.
     De repente a gua da fonte chegou ao ponto de ebulio, projetando ondas enormes para o lado de fora. Os jatos, que normalmente iam a uma altura de apenas um 
metro e pouco, de repente comearam a subir a at trs, seis metros, caindo de volta num verdadeiro caldeiro borbulhante e fervente. Todos os pssaros saram voando 
das rvores ao mesmo tempo, formando momentaneamente uma nuvem que bloqueou a luz do luar.
     Eu estava com uma estranha sensao de que a Heather estava falando srio. Pior ainda, tinha a sensao de que ela seria mesmo capaz. No precisaria nem levantar 
um dedinho.
     O que foi confirmado quando de repente a cabea de Junipero Serra foi brutalmente arrancada do corpo da esttua. Exatamente. Simplesmente saltou longe, como 
se aquela slida pea de bronze fosse na verdade de confeito. E sem o menor barulho. Por alguns instantes, ela ficou flutuando no ar, com sua expresso de suave 
compaixo transformada, do estranho ngulo no qual pendia sobre o meu rosto, numa careta demonaca. E, de repente, enquanto eu estava ali completamente paralisada,
vendo as luzes se refletirem na bola de metal, ela caiu... e mergulhou na minha direo, zunindo to depressa na noite que parecia at um cometa ou...
     Eu nem tive tempo de pensar com que mais aquilo se parecia, pois uma frao de segundo depois uma coisa dura atingiu o meu estmago e me projetou no cho, onde 
eu fiquei, olhando para o cu estrelado. Que estava lindo. A noite estava to escura, e as estrelas, to frias e distantes, piscando...
     - Levante-se - disse asperamente uma voz de homem no meu ouvido. - Pensei que voc era boa nisso! 
     Alguma coisa explodiu no cho a menos de um palmo da minha bochecha. Virei o rosto e vi a cabea de Junipero Serra rindo grotescamente para mim.
     Quando vi, o Jesse estava tentando me botar de p e me empurrando na direo da galeria.


      Captulo 11
      
     Ns conseguimos voltar para a sala do professor Walden. No sei como, mas conseguimos, com a cabea da esttua zunindo atrs de ns o tempo todo, a uma tal
velocidade que chegava a fazer um apito medonho, como se o padre Serra estivesse gritando. A cabea foi dar com a fora de uma bala de canho contra a pesada porta 
de madeira, uma frao de segundo depois de ns entrarmos e batermos a porta.
     - Dos! - exclamou Jesse, enquanto jogvamos o peso de nossas costas contra a porta, ofegantes, como se pudssemos impedir a passagem simplesmente com nosso 
peso... logo a Heather, que, se quisesse, podia atravessar paredes. - Voc disse que era perfeitamente capaz de cuidar de si mesma. Disse tambm que precisava primeiro 
livrar-se dela. Perfeito...
     Eu estava tentando recuperar o flego, pensar no que fazer. Nunca tinha visto uma coisa daquelas. Nunca. 
     Cala a boca - disse.
     Bafo de cadver... - Jesse voltou-se para me olhar de frente. Seu peito arfava, subindo e descendo. - Voc se d conta de que me chamou de bafo de cadver? 
Magoou hermosa. Magoou mesmo.
     Eu j disse... - Alguma coisa pesada estava esmurrando a porta. Eu a sentia bem na altura da minha espinha. No era preciso ser um gnio para adivinhar que
era a cabea do fundador de uma certa Misso. -... para no me chamar de hermosa!
     Pois eu tambm ficaria agradecido se voc no fizesse comentrios desabonadores a meu respeito.
     Olha aqui - disse eu. - Esta porta no vai agentar para sempre.
     No - concordou ele, no exato momento em que a cabea de metal comeou a aparecer por uma fenda que se ia abrindo na madeira. - Posso dar uma sugesto?
     Eu estava horrorizada, com os olhos arregalados grudados naquela cabea de metal, que se havia voltado, metade para dentro e metade para fora da porta, para 
ficar me olhando com frios olhos de bronze. Parece maluquice, mas sou capaz de jurar que ela estava sorrindo para mim.
     Claro - eu disse,
     Corra!
     Eu no hesitei nem um segundo em aceitar o conselho. Corri para o peitoril da janela, e, sem dar a menor bola para os cacos de vidro quebrado, agarrei-me a 
ela. Levei apenas alguns segundos para abrir a janela, mas foi o suficiente para que Jesse, ainda lutando contra o que j agora comeava a soar como um furaco, 
pedisse:
     - Poderia andar mais rpido, POR FAVOR?
     Eu saltei em direo ao estacionamento. L fora, do outro lado das espessas paredes de tijolo cru da Misso, era engraado que nem dava para dizer que uma violenta 
manifestao paranormal estava acontecendo do lado de dentro. O estacionamento ainda estava vazio e tranqilo, acariciado pela sonoridade ritmada das ondas do mar. 
 impressionante como podem acontecer as coisas mais absurdas bem debaixo do nariz das pessoas e elas nem percebem...
     -Jesse! - sussurrei atravs da janela. - Vamos, venha!
     Eu no tinha a menor idia se a Heather seria capaz de querer descarregar sua raiva em cima de algum passante, ou se o Jesse, caso ela o fizesse, tinha algum 
truque guardado para reagir, como aquele que ela tinha usado com a cabea da esttua. Eu s sabia que quanto mais cedo a gente sasse do alcance dela, melhor.
     Bom, quero deixar logo claro que eu no sou nenhuma covarde. Realmente no sou. Mas tambm no sou nenhuma maluca. Considero que quando a gente se d conta 
de que est enfrentando uma fora muito maior que a nossa, no tem nada de mais sair correndo.
     Mas deixar os outros para trs no  certo.
     -Jesse!!! - berrei atravs da janela.
     - Acho que j mandei voc correr - disse atrs de mim uma voz muito irritada. 
     Eu engoli em seco e dei meia-volta. L estava o Jesse, de p no asfalto do estacionamento, com a Lua por trs dele, o que deixava seu rosto na sombra.
     - Oh meu Deus! - Meu corao batia to depressa que eu pensei que ele fosse explodir. Eu nunca tinha sentido tanto medo em toda a minha vida. Nunca.
     Talvez por isto eu tenha decidido ento esticar os dois braos e agarrar a camisa do Jesse com as duas mos.
     Oh meu Deus - repeti. - Jesse, voc est bem?
     Claro que estou. - Ele parecia surpreso que eu me desse ao trabalho de perguntar. E acho que era mesmo uma pergunta cretina. Afinal, que mal a Heather podia 
fazer ao Jesse? No d para imaginar que ela fosse mat-lo... - E voc, est bem?
     Eu? Estou tima. - Voltei-me ento para as janelas da sala do professor Walden. - Voc acha que conseguimos... neutraliz-la?
     Por enquanto - disse Jesse.
     E como voc sabe? - Eu estava chocada de ver que estava tremendo, tremendo de verdade, da cabea aos ps. - Como sabe que ela no vai atravessar aquelas paredes 
feito um tufo e comear a arrancar as rvores por a e jog-las contra ns?
     Jesse balanou a cabea, e eu vi que ele estava sorrindo. At que para um sujeito que morreu antes de inventarem a ortodontia ele tinha uns dentes bem bonitos. 
Quase to bonitos quanto os do Bryce.
     - Pode estar certa que no. 
     Mas como  que voc sabe?
     Porque no. Ela nem sabe que  capaz disto. Ela  muito nova no ramo, Suzannah. Ainda no sabe do que  capaz.
     Se o objetivo era me fazer sentir melhor, no funcionou. O fato de ele reconhecer que ela era capaz de arrancar rvores e comear a atir-las  distncia - 
sim, ela tinha este poder - e s no o fazia por falta de experincia bastou, entretanto, para eu parar de tremer feito vara verde e largar a camisa dele. No que 
eu no achasse que a Heather podia ter-me seguido se quisesse. Ela era perfeitamente capaz disso, exatamente como o Jesse me havia seguido at a Misso. Mas a diferena 
 que o Jesse sabia que era capaz. Ele j era fantasma h muito mais tempo que a Heather. Ela estava apenas comeando a explorar suas novas possibilidades.
     Era isto que dava mais medo. Ela era to nova naquilo tudo... e j to poderosa.
     Eu comecei a caminhar pelo estacionamento feito uma maluca.
     Precisamos fazer alguma coisa - disse. - Temos de avisar o padre Dominic... e tambm o Bryce. Meu Deus, temos de avisar ao Bryce que no venha ao colgio amanh. 
Ela vai mat-lo. Vai mat-lo no exato momento em que ele puser o p no campus...
     Suzannah - disse Jesse,
     Acho que podemos telefonar para ele.  uma hora da manh, mas podemos telefonar e dizer a ele... nem sei o que a gente pode dizer para ele. Talvez possamos
dizer que houve uma ameaa de morte contra ele, ou alguma coisa assim. Talvez funcione. Ou ento podemos mandar uma ameaa de morte. Isso mesmo!  isso a! Podemos
telefonar para a casa dele, a eu disfaro a minha voz e digo algo do tipo "No venha ao colgio amanh ou poder morrer". Talvez ele entenda. Talvez ele...
     Suzannah - voltou a dizer o Jesse.
     Ou ento o padre Dom se encarrega! A gente faz o padre Dom telefonar para o Bryce e dizer para ele no vir ao colgio, que houve algum acidente ou coisa assim...
     Suzannah. - Jesse postou-se na minha frente no exato momento em que eu dei meia-volta mais uma vez, para percorrer feito uma siderada o mesmo caminho que estava
percorrendo h alguns minutos. Fui obrigada a parar, apanhada de surpresa com sua proximidade, meu nariz praticamente batendo no exato ponto em que o colarinho da 
sua camisa estava aberto. Jesse agarrou os meus dois braos com firmeza e rapidez, para me fazer parar.
     No foi uma boa idia. Claro, eu sei que um minuto antes eu o tinha agarrado - bem, no exatamente a ele, mas a sua camisa. Mas em circunstncias normais eu
no gosto de ser tocada, e muito menos por fantasmas. E sobretudo no gosto de ser tocada por fantasmas que tm mos grandes e fortes como as do Jesse.
     - Suzannah - disse ele mais uma vez, antes que eu conseguisse dizer-lhe que tirasse suas manoplas de cima de mim. - Tudo bem. No  culpa sua. Voc no podia
fazer nada. 
     Eu meio que esqueci de ficar irritada com as mos dele.
     Eu no podia fazer nada? Voc est brincando? Eu devia ter dado um pontap naquela garota para ela ir parar de volta no seu tmulo!
     No - e Jesse sacudia a cabea. - Ela a teria matado.
     Uma ova! Eu podia perfeitamente com ela. Se ela no tivesse feito aquilo com a cabea daquele cara...
     Suzannah.
     Eu sei o que estou dizendo, Jesse. Eu podia perfeitamente ter dado conta dela se ela no tivesse ficado to enlouquecida. Aposto que se esperar s um pouquinho 
at ela se acalmar e voltar l dentro, consigo convenc-la...
     No. - Ele soltou-me, mas logo tratou de passar um dos braos em volta do meu ombro e comeou a me conduzir para longe do colgio, em direo  lixeira onde 
eu havia deixado a bicicleta. - Vamos. Vamos para casa.
     Mas e...
     - No - cortou ele, apertando mais os meus ombros. - Jesse, voc no est entendendo. Este trabalho  meu.
     Eu tenho de...
      uma tarefa do padre Dominic tambm, no? Deixe que daqui para a frente ele cuida. No h motivo para voc ficar com toda a responsabilidade em cima dos seus 
ombros.
     Pois h sim. Fui eu que estraguei tudo.
     Foi voc que encostou o revlver na cabea dela e puxou o gatilho? 
     Claro que no. Mas fui eu que a deixei to furiosa. No foi o padre Dom. Eu no vou ficar pedindo ao padre Dom que conserte as minhas besteiras. No teria o 
menor sentido.
     O que no tem sentido nenhum - explicou Jesse, tentando mostrar-se paciente -  algum esperar que uma garota como voc entre em luta com um demnio dos infernos 
como...
     Ela no  um demnio dos infernos. S est com raiva. E est com raiva porque o nico cara em quem achava que podia confiar revelou-se um...
     Suzannah - e Jesse parou de caminhar de repente. Eu s no me desequilibrei e ca de cara no cho porque ele ainda estava segurando os meus ombros.
     Por um minuto, apenas um minuto, realmente fiquei pensando... bem, cheguei a pensar que ele ia me beijar. Eu nunca tinha sido beijada antes, mas parecia que 
estavam dadas todas as condies necessrias para que acontecesse um beijo naquela hora: sabe como , o brao dele estava ao redor do meu ombro, tinha o luar, nossos 
coraes estavam batendo mais depressa - e, claro, ambos acabvamos de escapar de ser mortos por um fantasma completamente ensandecido.
     Naturalmente, eu no sabia como me sentia ante a possibilidade de que meu primeiro beijo fosse dado por algum do outro mundo, mas sabe como , quem est em 
petio de misria no pode ficar escolhendo, e posso garantir uma coisa, o Jesse era muito mais gracinha do que qualquer cara vivo que eu tinha conhecido ultimamente. 
Eu nunca tinha visto um fantasma to bonito. Parecia que ele no podia ter mais de vinte anos quando morreu. Fiquei me perguntando de que tinha morrido. Em geral 
 difcil dizer no caso dos fantasmas, pois seus espritos tendem a assumir a forma que seus corpos tinham quando deixaram de funcionar. Meu pai, por exemplo, no 
 diferente hoje, quando aparece para mim, do que era um dia antes de sair para aquela fatal corrida no Prospect Park dez anos atrs.
     Eu s podia deduzir que o Jesse tinha morrido nas mos de algum, pois ele me parecia com uma sade de ferro. Era bem provvel que tivesse sido atingido por 
uma daquelas balas que deixaram buracos na varanda l em baixo. Legal que o Andy os tivesse preservado para a posteridade.
     E agora aquele fantasma sensacional parecia que ia me beijar. E quem era eu para impedi-lo?
     De modo que inclinei um pouco a cabea para trs, olhei para ele com as pestanas meio fechadas e meio que deixei minha boca ficar bem relaxada, sabe como ... 
E foi a que eu percebi que a ateno dele no estava exatamente focalizada na regio dos meus lbios, mas muito abaixo. Nem estava voltada para os meus seios, o 
que seria uma excelente segunda opo.
     - Voc est sangrando - disse ele.
     Foi o suficiente para estragar completamente aquele momento. E para deixar meus olhos bem arregalados.
     - No estou no - respondi automaticamente, pois no estava sentindo dor nenhuma. Ento olhei para baixo. Pequenas manchas iam surgindo no piso debaixo dos 
meus ps. No dava para dizer de que cor eram porque estava muito escuro.  luz da lua, pareciam negras. E logo em seguida constatei horrorizada que havia manchas 
escuras semelhantes na camisa do Jesse.
     Mas era bvio que as manchas estavam vindo de mim. Comecei a me olhar e a me apalpar toda, e vi que eu tinha conseguido abrir uma das menores veias do meu pulso, 
mas ainda assim uma veia importante. Enquanto falava com a Heather, eu tinha tirado as luvas e as havia guardado nos bolsos, e em minha pressa de escapar, durante 
o acesso de raiva dela, esquecera de voltar a vesti-las. Provavelmente eu me havia cortado nos estilhaos de vidro que ainda estavam no parapeito da janela da sala 
de aula do professor Walden quando a pulei para fugir. O que servia para provar minha teoria de que  sempre na sada que a gente se machuca.
     Oh! - disse eu, vendo o sangue escorrer. Sem conseguir dizer nada que tivesse alguma utilidade, acrescentei: - Mas que horror! Sujei a sua camisa toda...
     No  nada. - Jesse meteu a mo num dos bolsos da cala e tirou alguma coisa branca e macia que foi passando ao redor do meu pulso algumas vezes, para em seguida 
amarr-la num lao. Enquanto fazia isto, no disse nada, totalmente concentrado no que estava fazendo. Quero registrar aqui que era a primeira vez que eu era atendida 
em primeiros socorros por um fantasma. No era exatamente to interessante quanto teria sido um beijo, mas tambm no posso dizer que era uma chatice. 
     Pronto - disse ele ao concluir. - Est doendo?
     No - respondi, pois no estava mesmo. Eu sabia por experincia prpria que s comearia a doer algumas horas depois. - Obrigada.
     No h de qu - disse ele.
     No... - De repente, a coisa mais ridcula, eu estava com vontade de chorar. Mesmo. E eu nunca choro. - No, obrigada mesmo. Obrigada por ter vindo me ajudar. 
Mas no precisava... Quer dizer, estou feliz que voc tenha vindo. E... bem, obrigada de novo. S isso.
     Ele parecia ter ficado embaraado. Acho que no fundo era perfeitamente natural que eu ficasse daquele jeito, toda dengosa com ele. No consegui evitar. O fato 
 que eu ainda no estava conseguindo acreditar. Nenhum fantasma nunca tinha sido to bonzinho assim comigo. Claro que meu pai tentou... Mas ele no era exatamente 
o tipo de pessoa de quem voc pode esperar esse tipo de coisa. Na verdade eu nunca podia contar realmente com ele, especialmente numa crise.
     Mas o Jesse... O Jesse tinha vindo em meu socorro. E eu nem tinha pedido nada a ele. Na verdade, tinha at sido muito desagradvel com ele, de maneira geral.
     - Esquece - foi tudo que ele conseguiu dizer. E acrescentou: - Vamos para casa.
     

      Captulo 12

     Vamos para casa. Aquele "Vamos para casa" tinha um ar to aconchegante...
     S que a casa na qual ambos estvamos vivendo ainda no me parecia exatamente como se fosse um lar. E como poderia? Eu s estava vivendo l h uns poucos dias...
     E por outro lado, claro, ele no tinha nada de estar vivendo l...
     De qualquer maneira, fantasma ou no fantasma, ele salvara a minha vida. Isto no se podia negar. E talvez s o tivesse feito para cortejar o meu lado bom, 
para que eu no acabasse por expuls-lo completamente da casa.
     Independentemente do motivo, o fato  que tinha sido muito legal da parte dele. At ento ningum nunca tomara a iniciativa de me ajudar - principalmente,  
claro, porque ningum sabia que eu precisava de ajuda. Nem a Gina, que estava presente quando madame Zara declarou que eu era uma mediadora, sabia por que eu aparecia 
s vezes na escola com os olhos muito fundos, ou onde  que eu me metia quando faltava s aulas - coisa que eu fazia com bastante freqncia. E eu no podia explicar 
o que estava acontecendo. No que a Gina fosse pensar que eu estava maluca ou alguma coisa assim, mas ela acabaria dizendo a algum mais (a gente s consegue manter 
segredo sobre essas coisas quando esto acontecendo conosco), que por sua vez diria a mais algum e eu sabia que em algum momento algum acabaria dizendo a minha 
me.
     E minha me entraria em surto. Claro que  isto que as mes costumam fazer, e a minha no  diferente das outras. Ela j tinha me obrigado a fazer terapia e 
eu tinha de me sentar l e ficar inventando mentiras complicadas na esperana de explicar meu comportamento anti-social. Eu no tinha a menor inteno de ir parar 
num asilo de loucos, que certamente era onde eu iria acabar se minha me alguma vez tivesse descoberto a verdade.
     De modo que s podia me sentir agradecida por ter Jesse ao meu lado, embora ele me deixasse meio nervosa. Depois de toda aquela catstrofe l na Misso, ele 
me acompanhou at em casa, um perfeito cavalheiro. E at insistiu em empurrar ele mesmo a bicicleta, por causa da minha ferida. Se algum tivesse olhado pelas janelas 
das casas por onde amos passando, teria pensado que estava vendo coisas: eu me arrastando com dificuldade e aquela bicicleta deslizando ao meu lado sem o menor 
problema - com o detalhe de que minhas mos nem tocavam nela. 
     Ainda bem que na Costa Oeste as pessoas vo dormir cedo.
     O tempo todo, enquanto voltvamos para casa, a nica coisa em que eu conseguia pensar era o que havia sado errado no confronto com a Heather. No voltei a 
falar do assunto - j o havia feito bastante; no queria ficar parecendo um disco quebrado, ou uma pianola quebrada ou o que quer que se usasse na poca do Jesse. 
Mas era o nico assunto em que eu conseguia pensar. Nunca, mas nunca mesmo, em todos aqueles meus anos como mediadora, eu havia encontrado um esprito to violento
e irracional. Eu simplesmente no sabia o que fazer. E eu sabia que precisava encontrar uma sada, e bem depressa; faltavam s umas poucas horas para comearem as
aulas e o Bryce cair direitinho na armadilha mortal que estava sendo preparada para ele.
     No sei se o Jesse percebeu por que eu estava to calada, ou se ele estava pensando na Heather tambm... S sei que de repente ele quebrou o silncio e disse:
     - No h no cu fria comparvel ao amor transformado em dio nem h no inferno ferocidade como a de uma mulher desprezada.
     Eu olhei para ele.
     Est falando por experincia prpria? Ele deu um pequeno sorriso  luz da lua.
      uma citao de William Congreve.
     - Ah... Mas, como voc sabe, s vezes a mulher desprezada est cheia de razes de ficar furiosa. 
     - E voc, est falando por experincia prpria? - quis saber ele.
     Eu dei uma risada.
     - Nem de longe.
     Para te desprezar,  porque antes o cara gostou de voc. Mas isto eu no disse em voz alta. No h a menor hiptese de que eu pudesse alguma vez dizer uma coisa 
dessas em voz alta. No que eu estivesse preocupada com o que o Jesse podia pensar de mim. Por que haveria de me preocupar com o que um caubi morto podia pensar 
de mim?
     Mas eu no ia reconhecer diante dele que nunca havia tido um namorado. A gente no sai por a dizendo coisas assim a caras gostoses como ele, mesmo que estejam 
mortos.
     Mas a gente no sabe o que aconteceu entre a Heather e o Bryce. No fundo, no sabemos. Ela podia ter muitas razes para estar ressentida.
     Ressentida com ele, acho que sim - disse Jesse, embora parecesse relutante em admiti-lo. - Mas no com voc. Ela no tinha direito de tentar machuc-la.
     Ele parecia to furioso com aquilo que achei melhor mudar de assunto. No fundo, eu  que devia ter ficado danada com o fato de a Heather ter tentado me matar, 
mas sabe como , j estou meio acostumada a lidar com gente irracional. Tudo bem, no to irracional como a Heather, mas vocs sabem o que estou querendo dizer. 
E se h uma coisa que eu j aprendi,  que no se pode tomar as coisas pelo lado pessoal. Certo, ela tinha tentado me matar, mas como  que eu vou saber se ela tinha 
algum discernimento? Quem pode garantir como eram os pais dela, afinal de contas? E se eles eram do tipo que saa por a matando o primeiro capaz de contrari-los?...
     Mas depois de ver aquele colar de prolas eu fiquei duvidando que eles fossem desse tipo.
     Enquanto estava pensando nessas matanas, acabei me perguntando por que o Jesse acabara ficando to indignado. Foi a que me dei conta de que provavelmente 
ele tinha sido assassinado. Ou ento tinha se matado. Mas no achava que ele fosse capaz de se matar. Achava que ele poderia ter morrido de alguma doena arrasadora...
     Talvez no tenha sido muito delicado da minha parte (mas de qualquer forma eu nunca fui propriamente famosa pela delicadeza), mas acabei indo em frente e perguntei, 
quando estvamos subindo a longa ladeira coberta de cascalho at em casa:
     - Mas e voc? Como foi mesmo que morreu?
     Jesse no disse nada logo em seguida. Provavelmente eu o tinha ofendido. J pude notar que os fantasmas no gostam muito de falar sobre como morreram. s vezes 
nem se lembram. Vtimas de acidentes de carro geralmente no tm a menor idia do que lhes aconteceu. Por isto  que eu sempre as vejo vagando em busca das outras 
pessoas que estavam no carro com elas. Tenho ento de explicar o que aconteceu e tentar de alguma maneira imaginar onde podem estar as pessoas que elas esto procurando. 
E isto  tambm um bocado doloroso, podes crer. Eu tenho de me abalar at a delegacia onde foi registrado o acidente, fingir que estou fazendo um trabalho para o 
colgio ou algo assim, copiar os nomes das vtimas e tentar descobrir o que aconteceu com elas.
     Posso garantir que s vezes parece que meu trabalho nunca chega ao fim.
     Seja como for, Jesse ficou calado por um momento e eu achei que ele no ia me contar. Ele estava olhando bem para a frente, na direo da casa - a casa onde 
tinha morrido, a casa onde haveria de ficar rondando at que... bem, at que pudesse resolver o problema que o estava retendo neste mundo.
     A lua ainda estava  vista, bem alto l no cu, e eu podia ver o rosto do Jesse como se fosse dia. Ele no estava parecendo muito diferente do habitual. Sua 
boca, que era mais para larga, de lbios finos, parecia estar meio carrancuda, o que, at onde eu sabia, era o que costumava fazer. E por baixo daquelas espessas 
sobrancelhas negras, seus olhos, de clios to densos, eram to reveladores quanto um espelho - quer dizer, eu provavelmente seria capaz de ver meu reflexo neles, 
mas no adivinharia nada sobre o que ele estava pensando.
     Hmm... - disse eu. - Sabe o que mais? Esquece. Se no quiser, no precisa me dizer...
     No - ele respondeu. - Tudo bem.
      s que eu estava meio curiosa, s isso. Mas se voc achar que  uma coisa muito pessoal...
     No, no . - Ns j havamos chegado  casa. Ele empurrou a bicicleta at o ponto onde ela devia ficar e a recostou no muro da garagem. Estava mergulhado na 
sombra quando afinal disse: - Como voc sabe, nem sempre esta casa foi uma casa de famlia.
     Como se fosse a primeira vez que o ouvia falar daquilo, exclamei:
      mesmo?!
     Sim. Houve uma poca em que era um hotel. Quer dizer, mais uma estalagem propriamente do que um hotel.
     Perguntei ento, toda animada:
     E voc estava hospedado aqui?
     Sim. - Ele saiu da sombra da garagem, mas em vez de olhar para mim quando voltou a falar, estava com o olhar apertado voltado para o mar. Eu tentei anim-lo:
     E... Aconteceu alguma coisa quando voc estava aqui?
     Sim. - E ele olhou para mim. Ficou me olhando por um longo momento. Depois, disse: - Mas esta  uma longa histria, e voc deve estar muito cansada. V se deitar. 
Amanh de manh decidiremos o que fazer sobre a Heather.
     Pode ser mais injusto?
     - Espera um pouco - interrompi. - No vou a lugar nenhum enquanto voc no acabar de contar essa histria.
     Ele balanou a cabea:
     No, j  muito tarde. Eu conto uma outra vez.
     Puxa vida! - Eu devia estar parecendo uma garotinha recebendo ordens da me para ir-se deitar cedo, mas estava pouco ligando. Estava danada da vida. - Voc 
no pode comear uma histria assim e no acabar de cont-la. Voc tem de... 
     Agora o Jesse estava rindo de mim.
     V se deitar, Suzannah - disse ele, empurrando-me suavemente para a escada. - Voc j foi suficientemente assustada esta noite.
     Mas voc...
     Quem sabe outra vez... - insistiu ele. J me havia conduzido na direo da varanda e agora eu estava no primeiro degrau, voltando-me para v-lo rindo de mim.
     Voc promete?
     Seus dentes brilharam no luar.
     Prometo. Boa noite, hermosa.
     J disse para no me chamar disso - resmunguei, subindo os degraus com toda fora.
     Mas j eram quase trs horas da manh e o mximo que eu conseguia era fingir indignao.  bom lembrar que eu ainda estava no horrio de Nova York, trs horas
na frente. J era difcil levantar na hora para ir para a escola quando eu conseguia dormir oito horas inteirinhas. Como  que haveria de ser com apenas quatro horas 
de sono?
     Entrei na casa o mais discretamente possvel. Felizmente, todo mundo, menos o cachorro, dormia profundamente. Ao me ver, ele levantou a cabea no sof onde 
se havia espichado e comeou a sacudir o rabo. Grande co de guarda. E minha me, que no queria saber de v-lo dormindo no sof branquinho... Mas eu  que no ia 
transformar o Max em inimigo, enxotando-o dali. Se bastava deixar que ele continuasse dormindo no sof para impedir que avisasse  casa inteira que eu tinha sado, 
valia a pena. 
     Fui me arrastando como podia escada acima, pensando o tempo todo no que haveria de fazer com a Heather. Provavelmente teria de me levantar cedo e telefonar 
para o colgio, avisando ao padre Dom que fosse ao encontro do Bryce assim que ele pusesse os ps no campus e o mandasse de volta para casa. E decidi que nem mesmo 
me haveria de opor se fosse necessrio recorrer aos piolhos. No fim das contas, a nica coisa que interessava era impedir que a Heather conseguisse o que queria.
     Ainda assim, a simples idia de ter de levantar cedo para fazer alguma coisa - mesmo que fosse salvar a vida do cara com quem eu tinha um encontro no sbado 
 noite - no parecia das mais atraentes. Agora que a adrenalina toda j havia passado, eu me dava conta de que estava morta de cansao. Fiz mais um esforcinho e 
consegui chegar at o banheiro para vestir o pijama - claro, pois embora tivesse certeza de que o Jesse no estava me espionando, ele ainda no havia dito como tinha 
morrido, e portanto eu no ia arriscar nada. Ele bem que podia ter sido enforcado por voyeurismo, uma pena que eu acreditava ter sido aplicada algumas vezes uns 
cento e cinqenta anos antes.
     Foi s no momento em que decidi mudar a atadura no meu pulso que prestei ateno no que ele havia usado.
     Era um leno. Antigamente todo mundo usava leno de pano, pois no havia lenos de papel. E as pessoas pareciam dar a maior importncia, costurando neles as 
suas iniciais, para que no se perdessem ao serem lavados. 
     S que o leno do Jesse no tinha suas iniciais, conforme pude notar ao lav-lo e tentar tirar o meu sangue o melhor que pude. Era um grande quadrado de linho, 
branco (bom, j ento meio cor-de-rosa) com um debrum de delicada renda branca. Meio delicadinho para um cara como ele. Eu teria ficado meio cismada com a orientao 
sexual do Jesse se no tivesse visto as iniciais que estavam bordadas num dos cantos. Os pontos eram minsculos, linha branca sobre tecido branco, mas as letras 
propriamente eram enormes, numa caligrafia floreada: MDS. Isso mesmo. MDS. Nada de J.
     Estranho. Muito estranho.
     Pendurei o leno para secar. No precisava me preocupar com a possibilidade de algum v-lo. Para comeo de conversa, s eu usava o meu banheiro, e alm disso 
ningum era mesmo capaz de ver o Jesse, portanto ningum poderia ver o seu leno. Amanh de manh ele estaria l exatamente como agora. E talvez eu decidisse exigir 
explicaes sobre aquelas letras antes de devolv-lo. MDS.
     S quando estava comeando a adormecer  que me dei conta de que MD devia ser uma garota. Caso contrrio, por que tanta rendinha? E aquelas letras todas caprichadas? 
Ser ento que o Jesse no tinha morrido num tiroteio, como eu acreditava inicialmente, e sim em alguma briga de amantes?
     No sei por que, mas o fato  que esta idia me deixou bem perturbada. Por causa dela fiquei acordada bem uns trs minutos. At que virei para o outro lado, 
senti falta da minha antiga cama por um instantinho s e ca no sono.
     

      Captulo 13

     Minha inteno, naturalmente, era acordar cedo e telefonar ao padre Dominic para avis-lo sobre a Heather. Mas de boas intenes o inferno est cheio e vai
ver eu no presto mesmo para nada, pois s fui acordar com minha me me sacudindo, e quela altura j eram sete e meia e minha carona j estava indo embora.
     Ou pelo menos era o que eles achavam. Eles se atrasaram  bea quando o Soneca descobriu que tinha perdido as chaves do Rambler, de modo que deu tempo de eu 
me arrastar da cama e enfiar-me numa roupa qualquer - no me perguntem qual. Fui descendo a escada quase sem me agentar, e parecia que algum tinha batido vrias 
vezes na minha cabea com um saco de pedras enquanto o Mestre contava para todo mundo que a irm Ernestine tinha avisado que se ele faltasse a mais uma formatura 
teria de repetir o ano. 
     Foi a que eu lembrei que as chaves do Rambler estavam no bolso da minha jaqueta de couro desde a noite anterior.
     Discretamente, fui subindo de novo a escada e fingi que tinha achado as chaves no patamar. O pessoal comemorou um pouco mas reclamou um bocado, pois o Soneca 
jurava que as tinha deixado penduradas no gancho da cozinha e no sabia como tinham ido parar no patamar.
     - Deve ter sido o fantasma do Dave - disse o Dunga, olhando de soslaio para o Mestre, que ficou totalmente sem graa.
     Ento entramos no carro e fomos embora.
     Claro que estvamos atrasados. Na Academia da Misso Junipero Serra, a formatura comea s 8 horas em ponto. Ns chegamos uns dois minutos depois. Nessa formatura, 
que dura mais ou menos quinze minutos antes do incio das aulas,  feita a chamada e so lidas comunicaes aos alunos, enfileirados separadamente por sexo, os garotos 
de um lado e as garotas de outro, como se fssemos missionrios quacres ou algo assim. Quando ns chegamos, claro que a formatura j tinha comeado. Eu pretendia 
passar agachada direto para o gabinete do padre Dominic, mas evidentemente no tive a menor chance. Irm Ernestine nos apanhou em cheio e nos fulminou com um olhar 
furibundo at que cada um de ns entrasse em forma. Eu no estava ligando muito para o que irm Ernestine anotava a meu respeito em seu caderninho negro, mas percebi 
que seria impossvel chegar ao gabinete do diretor, por causa das fitas isolantes amarelas que impediam a passagem pelos arcos ao redor do ptio - e, naturalmente, 
por causa de todos aqueles guardas que estavam l.
     S posso deduzir que todos os padres e freiras e o pessoal todo se levantou para as matinas, que  como eles chamam a primeira missa da manh, e deram l fora 
com a esttua do fundador da igreja sem cabea, a fonte quase sem gua nenhuma, o banco onde eu estivera sentada completamente retorcido e revirado e a porta da 
sala de aula do professor Walden em pandarecos.
     Compreensivelmente, eles surtaram e chamaram a polcia. O pessoal de uniforme estava por toda parte, colhendo impresses digitais e tirando medidas, como a 
distncia que a cabea de Junipero Serra percorrera e a velocidade em que precisava ter voado para fazer tantos buracos numa porta feita de madeira com espessura 
de sete centmetros, e coisas assim. Eu vi um sujeito metido num jaqueto de couro azul-marinho conversando com o padre Dominic, que parecia mesmo muito, mas muito 
cansado. No consegui que ele me visse, e conclu que teria de esperar o fim da formatura para sair de fininho e me desculpar com ele.
     Na formatura, a irm Ernestine, que era a vice-diretora, disse que aquilo tinha sido feito por vndalos. Um bando de vndalos tinha invadido a sala de aula 
do professor Walden e cometido aquele desatino todo na escola. Felizmente, acrescentou, o clice e a bandeja de ouro macio usados para o vinho e as hstias do sacramento 
no tinham sido roubados e continuavam em seu devido lugar no altar da igreja. Os vndalos tinham decapitado violentamente o fundador do nosso colgio, mas deixaram 
em paz o que era realmente valioso. Se algum de ns soubesse alguma coisa sobre aquela terrvel violncia, deveria informar imediatamente. E se no nos sentssemos 
 vontade para faz-lo pessoalmente, poderamos informar anonimamente - monsenhor Constantine estaria ouvindo confisses durante toda a manh.
     Corta essa... No era culpa minha se a Heather tinha ensandecido completamente. Nada disso. Se algum tinha que se confessar era ela.
     Ali na formatura eu estava bem atrs da Cee Cee que mal conseguia esconder sua felicidade com o que tinha acontecido; dava at para ver a manchete se formando 
em sua mente: "Vndalos arrancam a cabea do padre Serra". Estiquei um pouco o pescoo para tentar ver os veteranos. E se o Bryce estivesse l? Eu no estava conseguindo 
v-lo. Talvez o padre Dom j tivesse falado com ele e ele tivesse voltado para casa. Ele no podia deixar de ter visto que aquele estrago todo ali no ptio decorria 
de muita agitao espiritual, e no humana. E eu esperava que o padre Dom no tivesse recorrido aos piolhos.
     Tudo bem, era mais em mim do que no Bryce que eu estava pensando. Eu queria muito que o nosso encontro de sbado desse certo, e no que fosse cancelado por 
causa de piolhos. Por acaso  algum crime? No  possvel que uma garota comum tenha de passar o tempo todo enfrentando distrbios psquicos. Um pouquinho de romance 
tambm no faz mal nenhum. 
     Mas  claro que assim que a formatura acabou e eu tentei me encaminhar depressinha para o gabinete do padre Dom, a irm Ernestine me apanhou com a boca na botija, 
no exato momento em que eu tentava passar por baixo de uma das fitas amarelas, e foi dizendo:
     - Espera a um pouquinho, senhorita Simon. Talvez l em Nova York as pessoas possam ignorar fitas de isolamento da polcia, mas aqui na Califrnia no  nada 
recomendvel.
     Eu me endireitei. Quase tinha conseguido... Fiquei pensando umas coisas nada agradveis sobre a irm Ernestine, mas consegui dizer educadamente:
     Puxa, irm, sinto muito.  que eu preciso chegar ao gabinete do padre Dominic.
     O padre Dominic - disse friamente irm Ernestine - est muito ocupado esta manh. Ele est reunido com os policiais por causa do lamentvel incidente da noite 
passada. No vai poder falar com ningum mais pelo menos at depois do almoo.
     Eu sei que provavelmente no  certo ficar pensando em dar um golpe de carat no pescoo de uma freira, mas no conseguia me impedir. Ela estava me deixando 
nervosa.
     - Deixa eu lhe dizer uma coisa, irm - continuei. - O padre Dominic pediu que eu viesse falar com ele hoje de manh. Ele quer ver uns... uns documentos que 
eu trouxe da minha antiga escola. Eu tive de pedir que mandassem esses documentos por correio especial l de Nova York, e eles acabam de chegar...
     Fiquei achando que tinha reagido com incrvel rapidez mental, inventando aquela histria de documentos e correio especial, mas a irm Ernestine esticou o brao 
e disse:
     - Entregue-os a mim e eu os fao chegar ao padre. Droga!
     - ... - disse eu, recuando. - Pode deixar. Acho que eu vou... vou ento falar com ele depois do almoo.
     Irm Ernestine me olhou com um jeito de "eu sabia" e voltou sua ateno para o inocente garoto que cara na besteira de ir ao colgio de jeans, uma falta imperdovel. 
O guri tentou se justificar humildemente, dizendo que eram as nicas calas limpas que tinha naquele dia, mas a irm Ernestine ficou firme. Firme, infelizmente, 
no exato lugar por onde eu poderia passar a caminho do gabinete do diretor, tratando de anotar a falta do aluno.
     Eu no tinha outra opo seno ir para a sala de aula. Afinal, que poderia dizer ao padre Dominic que ele j no soubesse? Eu tinha certeza de que ele sabia 
que a Heather  que tinha devastado o colgio, e que eu tinha quebrado a janela da sala do professor Walden. Provavelmente ele nem ia estar assim to satisfeito 
comigo, logo, por que me preocupar? O que eu devia estar fazendo mesmo era tratar de fazer com que ele esquecesse de mim.
     A no ser que... onde andaria a Heather?
     Pelo que eu podia imaginar, ela ainda devia estar se recuperando de sua fria assassina da noite anterior. No vi qualquer sinal dela quando me encaminhei para 
a sala de aula do professor Walden para o primeiro perodo, o que era bom sinal: significava que o padre Dominic e eu teramos tempo para fazer algum plano antes 
que ela voltasse a atacar.
     Enquanto assistia  aula tentando me convencer de que tudo ia dar certo, eu no podia deixar de sentir uma certa pena do professor Walden. Ele estava com a 
porta da sua sala razoavelmente destruda. At que nem parecia estar se importando tanto com a janela quebrada. Claro que todo mundo no colgio estava comentando 
o que havia acontecido. As pessoas estavam dizendo que a decapitao de Junipero Serra tinha sido uma piada de mau gosto. Mas uma piada e tanto. Uma vez, h alguns 
anos, contara-me Cee Cee, os veteranos tinham amarrado travesseiros nos badalos dos sinos da igreja, de modo que quando foram tocados s saiu um ridculo som abafado. 
Acho que as pessoas ficaram achando que era uma gracinha do mesmo gnero.
     Se eles soubessem a verdade... O lugar da Heather, ao lado da Kelly Prescott, continuava vazio, enquanto o seu armrio - que agora era meu - ainda no podia 
ser usado por causa do amasso provocado pelo impacto do seu corpo.
     No deixou de ser irnico que, enquanto eu estava pensando exatamente nisto, a Kelly levantasse o brao e, recebendo autorizao do professor Walden para falar, 
perguntasse se ele no achava injusto que monsenhor Constantine decidisse que no haveria nenhum servio religioso em memria da Heather.
     O professor Walden recostou-se na cadeira e ps os ps em cima da mesa. E tratou de tirar o corpo fora: 
     No pergunte a mim. Eu s trabalho aqui.
     Mas o senhor no acha que  injusto? - insistiu a Kelly, voltando-se para o resto da turma com seus enormes clios cheios de rmel piscando muito. - A Heather 
freqentou este colgio durante dez anos. No d para entender que ela no possa ser homenageada em seu prprio colgio. E para dizer a verdade eu acho que o que 
aconteceu ontem foi um sinal...
     O professor Walden parecia estar se divertindo horrores:
     Um sinal, Kelly?
     Exatamente. Tenho certeza de que o que aconteceu aqui ontem  noite, inclusive aquela tora de madeira que quase matou o Bryce, tem ligao. No acho mesmo que 
a esttua do padre Serra tenha sido depredada por vndalos, e sim por anjos. Anjos que esto muito danados com o fato de monsenhor Constantine no permitir que os 
pais da Heather realizem seu funeral aqui.
     A turma toda comeou a cochichar. As pessoas ficavam olhando nervosas para o lugar vazio da Heather. Geralmente eu no falo muito no colgio, mas aquela eu
no podia deixar passar. Disse ento:
     - Voc est dizendo ento que foi um anjo que quebrou esta janela aqui atrs de mim, Kelly?
     Ela precisou virar-se para me ver:
     Bem... - fez ela. - Pode ter sido...
     Certo. E voc acha que foram anjos que arrombaram a porta da sala, arrancaram a cabea da esttua e arrasaram o ptio? 
     Kelly esticou o queixo para a frente.
     - Sim - disse. - Acho sim. Foram anjos inconformados com a deciso de monsenhor Constantine de no permitir que a gente homenageie a Heather.
     Eu balancei a cabea.
     - Besteira - disse.
     Kelly levantou as sobrancelhas:
     Como?!
     Besteira, Kelly. Acho que a sua teoria  pura besteira. A Kelly adquiriu uma colorao avermelhada das mais interessantes. Acho que ela provavelmente estava 
lamentando ter-me convidado para a festa na piscina.
     Voc no pode ter certeza de que no foram anjos, Suze - disse ela toda azeda.
     Na verdade posso, pois pelo que sei anjos no sangram, e o carpete estava cheio de sangue desde o lugar onde o vndalo se cortou ao arrombar a janela at aqui. 
Foi por isto que a polcia cortou pedaos do carpete para examin-los.
     A Kelly no foi a nica a engolir em seco. Todo mundo meio que surtou. Provavelmente eu no devia ter falado do sangue, ainda mais porque era meu, mas no podia 
deixar que ela ficasse dizendo que era tudo por causa dos anjos. Anjos uma droga. O que ela estava pensando? Que estava no cinema?
     - Muito bem, muito bem - interrompeu o professor Walden. - Agora, pessoal, est na hora do segundo perodo. Suzannah, posso falar com voc um instantinho? 
     Cee Cee virou-se para ficar abanando aqueles clios dela na minha direo.
     - Agora chegou a sua vez, otria - disse.
     Mas ela nem estava sabendo como podia estar certa. Bastava que qualquer um desse uma olhada nos band-aids que estavam no meu pulso, e ficaria sabendo que eu 
sabia por experincia prpria de onde vinha aquele sangue.
     Por outro lado, ningum podia ter algum motivo para suspeitar de mim, confere?
     Fui me aproximando da mesa do professor Walden com o corao na boca. Ele vai te entregar, pensei, furiosa. Voc  uma negao, Suzannah.
     Mas o professor Walden s queria me cumprimentar pelas notas de p de pgina da minha redao sobre a batalha de Bladensburgo, que ele havia notado quando eu 
a entreguei.
     Ah... - disse eu. - No  nada demais, professor.
     Sim, mas notas de p de pgina... - suspirou ele. - Desde que eu dava aulas para adultos na escola comunitria, nunca mais tinha voltado a ver notas de p de 
pgina serem usadas corretamente. Realmente, voc fez um excelente trabalho.
     Eu balbuciei um modesto obrigado. Eles no precisavam ficar sabendo que eu entendia tanto da batalha de Bladensburg porque uma vez tinha ajudado um veterano 
da guerra a levar dois antepassados dele at o local onde fora enterrado um saco de dinheiro que ele deixara cair na luta. Podem ser mesmo bem engraadas as coisas 
que ficam impedindo as pessoas de seguirem com sua vida... ou melhor, com sua morte.
     Eu estava quase dizendo ao professor Walden que gostaria muito, em condies normais, de ficar batendo um bom papo sobre grandes batalhas americanas, mas que 
tinha de ir (eu ia ver se a irm Ernestine ainda estava montando guarda no caminho para o gabinete do padre Dom), quando ele me deteve com estas simples palavras:
     -  engraado, realmente, que a Kelly tenha se referido daquela maneira  Heather, Suzannah.
     Eu olhei para ele desconfiada:
     Ah, ? Como assim?
     Bem, no sei se voc sabia, mas a Heather era vice-presidente da turma dos segundanistas, e agora que no a temos mais aqui eu estou recolhendo indicaes para 
o cargo. E acredite ou no, voc foi indicada. Doze vezes por enquanto.
     Meus olhos devem ter saltado da rbita. Esqueci completamente que eu tinha de me arrancar dali para ir falar com o padre Dominic.
     - Doze vezes?!
     - Sim,  estranho, no  mesmo? Eu no conseguia acreditar.
     Mas eu s estou aqui h um dia!
     O fato  que voc causou uma forte impresso. Eu mesmo me arriscaria a dizer que voc no fez exatamente inimigos ontem quando ameaou quebrar os dedos da Debbie
Mancuso depois da aula. Ela no  das colegas mais queridas...
     Eu fiquei olhando para ele. Quer dizer ento que o professor Walden realmente tinha ouvido a minha ameaa. O fato de ele ter ouvido e no me ter mandado direto
para o castigo me fez admir-lo de uma maneira que nenhum professor antes havia merecido.
     E acho tambm que o fato de voc ter empurrado o Bryce Martinson quando aquela tora de madeira vinha na direo dele tambm deve ter ajudado um pouco - acrescentou.
     Uau! - fiz eu.
     Provavelmente nem preciso lembrar aqui que na minha antiga escola eu no era certamente aquela que ganhava os concursos de popularidade. Eu nem me dava ao trabalho 
de me oferecer para ser lder de torcida ou madrinha do time. Mesmo considerando que na minha escola antiga ser lder de torcida era considerado uma enorme perda 
de tempo e que no Brooklyn no  exatamente um elogio ser chamada de madrinha de alguma coisa, o fato  que eu nunca teria conseguido ser qualquer das duas coisas. 
E ningum - mas ningum mesmo - nunca tinha me indicado antes para o que quer que fosse.
     Eu estava orgulhosa demais para seguir meu instinto, que me dizia: agradea, mas diga que no, e saia correndo.
     - Bem... - comecei. - Quais so as obrigaes do vice- presidente?
     O professor Walden explicou:
     - Ajudar o presidente a decidir como gastar a verba da turma, principalmente. No  muita coisa, um pouco mais de trs mil dlares. A Kelly e a Heather estavam 
planejando promover uma festa no Carmel Inn, mas...
     Trs mil dlares!? - repeti, provavelmente com o queixo cado.
     , eu sei que no  muito...
     E a gente pode gastar como quiser? - Minha mente estava girando. - Quer dizer que se a gente quisesse fazer uma srie de festinhas na praia poderamos?
     O professor Walden me olhou com curiosidade.
     - Claro. Mas o resto da turma precisa aprovar. Desconfio que pode estar rolando na administrao um papo sobre usar o dinheiro da turma para consertar a esttua 
do padre Serra, mas...
     O que quer que o professor Walden fosse acrescentar, no entanto, no conseguiu. A Cee Cee voltou correndo para a sala, os olhos muito arregalados por trs das 
lentes de seus culos de vidro colorido:
     - Venham, venham depressa! - berrava ela. - Aconteceu um acidente! O padre Dominic e o Bryce...
     Eu sa correndo feito uma bala:
     O qu? - perguntei, com muito mais nfase do que seria desejvel. - Que aconteceu com eles?
     Acho que esto mortos!
     

      Captulo 14
      
     
      Eu corri to depressa que mais tarde a irm Mary Claire, a treinadora de corrida, perguntou se eu queria entrar para a equipe.
     Mas a Cee Cee estava completamente enganada. Padre Dominic no estava morto. Nem o Bryce.
     E o que havia acontecido no tinha nada a ver com acidente.
     Como podia imaginar praticamente qualquer um, acontecera o seguinte: o Bryce entrou no gabinete do diretor por algum motivo, ningum sabe qual. Talvez um passe 
de atraso, j que ele tinha perdido a formatura - s que no, como eu esperava, porque o padre Dom o tivesse encontrado. O Bryce estava de p em frente  escrivaninha 
da secretria, embaixo do crucifixo gigante que, segundo o Adam, derramaria lgrimas de sangue se alguma vez houvesse uma formanda virgem na Academia da Misso (a 
secretria no estava l porque estava servindo caf aos guardas que continuavam l pelo ptio) quando aquela enorme cruz de quase dois metros de altura de repente 
se desgarrou da parede. Padre Dominic abriu a porta do seu gabinete exatamente na hora em que ela estava caindo para a frente, a ponto de esmagar o crnio do Bryce. 
Mas, como o padre Dominic deu um empurro nele, s a sua clavcula foi atingida.
     Infelizmente, o padre Dominic acabou recebendo todo o peso da cruz, que o projetou no cho, esmagou suas costelas e quebrou uma de suas pernas.
     O professor Walden e um grupo de irms ficou tentando fazer com que voltssemos para a sala de aula em vez de ficar atravancando a galeria,  espera de que 
o padre Dom e o Bryce sassem do gabinete. Uma parte do pessoal se afastou quando a irm Ernestine ameaou todo mundo de castigo, mas no eu. Eu no dava a menor 
bola se ficasse de castigo. Eu precisava saber se eles estavam bem. Irm Ernestine disse alguma coisa desagradvel, dando a entender que talvez a srta. Simon no 
se desse conta de como era ruim ficar de castigo na Academia da Misso. Eu respondi que, se ela estivesse me ameaando com castigos corporais, eu diria  minha me, 
que era apresentadora de um jornal local e chegaria l com um cmera to depressa que no daria nem tempo para algum dizer uma Ave Maria.
     Irm Ernestine ficou bem calada depois disso.
     Foi pouco depois que eu vi que o Mestre estava pertinho de mim. Como as crianas menores tm de ficar bem longe, do outro lado do colgio, eu olhei para ele 
e disse:
     E o que voc est fazendo aqui?
     Quero ver se ele est bem - respondeu, com as sardas se destacando mais que nunca, to plido ele estava.
     Voc vai arranjar problema - adverti. Irm Ernestine estava ocupadssima anotando os nomes das pessoas.
     No dou a mnima - fez o Mestre. - Eu quero ver.
     Eu dei de ombros. Aquele Mestre era mesmo um cara engraado. No tinha nada a ver com seus irmos e no era s por causa do cabelo ruivo. Lembrei-me do comentrio 
maldoso do Dunga sobre as chaves do carro e o "fantasma do Dave", e fiquei me perguntando at que ponto Mestre sabia alguma coisa, se  que sabia, sobre o que estava 
acontecendo ultimamente em seu colgio.
     Finalmente, quando parecia que j tinham passado vrias horas, eles saram l de dentro. Bryce foi o primeiro a aparecer, amarrado a uma maca e gemendo, lamento 
dizer, como um bebezinho. Eu j quebrei e desloquei um bocado de ossos, e podem ficar sabendo que di, mas no a ponto de ficar l deitada gemendo. Geralmente, quando 
me machuco eu nem me dou conta. Como ontem  noite, por exemplo. Quando realmente me machuco eu s consigo ficar rindo, pois di tanto que chega a ser engraado.
     E vou ter de reconhecer que eu meio que parei de gostar tanto do Bryce depois de v-lo agir daquela maneira como um beb...
     Especialmente quando vi o padre Dom, que foi trazido em seguida pelos paramdicos numa cadeira de rodas. Ele estava inconsciente, com os cabelos brancos caindo 
para o lado de um jeito to triste e um corte parcialmente coberto por gaze acima do olho direito. Em minha pressa de chegar ao colgio, eu no tinha comido nada 
de manh, e tenho de reconhecer que a viso do pobre padre Dominic com os olhos fechados e sem os culos me fez sentir meio tonta. Na realidade, pode ser que eu 
tenha vacilado um pouco, e provavelmente teria cado se o Mestre no tivesse apanhado a minha mo e dito, confiante:
     - Fique tranqila. Eu tambm fico enjoado quando vejo sangue.
     Mas no foi a viso do sangue do padre Dom vazando pelo curativo em sua cabea que me deixou enjoada. Foi a constatao de que eu havia fracassado. Eu tinha 
fracassado terrivelmente. Foi por pura sorte que a Heather no tinha conseguido matar os dois. Era exclusivamente por causa da rpida reao mental do padre Dom 
que ele e Bryce ainda estavam vivos. E no havia sido por minha causa. No mesmo.
     Pois se na noite anterior eu tivesse agido melhor aquilo no teria acontecido. No teria acontecido mesmo.
     Foi a que eu fiquei danada. Danada para valer.
     De repente, entendi o que eu tinha de fazer. Olhei para o Mestre e perguntei:
     H algum computador aqui no colgio? Um computador com acesso  Internet?
     Claro - respondeu Mestre, parecendo surpreso. - Na biblioteca. Por qu?
     Eu larguei sua mo.
     - Esquece. Volte para sua sala. 
     Suze...
     Quem no estiver na sala de aula dentro de um minuto ser suspenso por tempo indeterminado - anunciou irm Ernestine imperiosamente.
     Mestre puxou a minha manga.
     O que est acontecendo? - quis saber. - Para que voc quer um computador?
     Para nada - respondi. Por trs do porto de ferro batido que dava para o estacionamento, os para-mdicos estavam fechando as portas das ambulncias que levariam
padre Dom e o Bryce. Um segundo depois, estavam se afastando em meio a sirenes e luzes piscando.
      que... So coisas que voc no entenderia, David. No so coisas cientficas.
     Mestre respondeu, muito indignado:
     - Sou capaz de entender muita coisa que no  cientfica. Msica, por exemplo. Aprendi sozinho a tocar Chopin em meu teclado eletrnico. Isto no tem nada de 
cientfico. O gosto pela msica  puramente emocional, assim como o gosto pela arte. Sou capaz de entender arte e msica. Portanto, corta essa, Suze. Pode me contar. 
Tem alguma coisa a ver com... aquilo que a gente estava comentando na outra noite?
     Eu baixei o rosto e olhei para ele surpresa. Ele deu de ombros.
     - Era a concluso lgica. Fiz um rpido exame da esttua (rpido porque no consegui me aproximar como gostaria, por causa das fitas isolantes e da equipe que 
recolhia provas) e no encontrei marcas de serra ou qualquer outro sinal da maneira como a cabea foi cortada. No existe a menor possibilidade de cortar bronze
to certinho sem usar instrumentos pesados, que nunca poderiam ter sido levados at ali...
     - Sr. Ackerman! Est querendo ser anotado! - ameaou irm Ernestine, que no parecia estar brincando.
     David fez um ar de irritao.
     No - respondeu.
     No o qu?
     No, irm. - Ele olhou em minha direo, como se pedisse desculpas. - Acho melhor ir andando. Mas ser que podemos voltar a falar deste assunto  noite em casa? 
Eu descobri umas coisas sobre... bem, sobre aquilo que voc me pediu. Voc sabe. - E arregalou os olhos, cmplice. - Sobre a casa.
     Ah, sim - respondi. - Genial. OK.
     Sr. Ackerman!
     David voltou-se para ver a freira.
     - Espere s um minuto, OK, irm? Estou tentando conversar aqui com ela.
     O rosto dela, uma mulher de meia-idade, ficou completamente lvido. Parecia incrvel. Ela reagiu da maneira mais infantil, como se fosse ela que tivesse doze 
anos, e no o David.
     - Faa o favor de me acompanhar, rapazinho! - disse, puxando-o pela orelha.
     - Estou vendo que sua meia irm ps na sua cabea algumas idias muito interessantes da cidade grande sobre como os meninos devem falar com os mais velhos...
     David emitiu um rudo como se fosse um animal ferido, mas a acompanhou, recurvado como um camaro de tanta angstia que estava sentindo. Eu juro que no teria 
feito nada, nada mesmo, se de repente no tivesse visto a Heather de p por trs do porto, rindo s gargalhadas.
     - Minha nossa! - exclamou ela, meio engasgada, de tanto que estava rindo. - Se voc tivesse visto a sua cara quando disseram que o Bryce estava morto! Juro! 
Foi a coisa mais engraada que eu j vi! - Ela parou de rir para ajeitar seus longos cabelos e prosseguiu: - Sabe o que mais? Acho que vou esmagar mais algumas pessoas 
hoje. Talvez comece com aquele carinha ali...
     Eu avancei em direo a ela.
     - Se encostar a mo no meu irmo eu enfio a sua cara de volta naquele tmulo de onde saiu rastejando.
     Heather limitou-se a rir, mas a irm Ernestine, que, s ento me dei conta, pensou que eu me dirigia a ela, soltou o David to depressa que parecia que o garoto 
de repente tinha pegado fogo.
     - O que foi que disse?
     Irm Ernestine estava ficando meio roxa. Atrs dela, Heather se escangalhava de rir,
     - Agora voc conseguiu mesmo. Deteno por uma semana!
     E sem mais nem menos desapareceu, deixando mais uma barafunda dos diabos para eu resolver. 
     Para surpresa tanto minha quanto, suponho, dela prpria, irm Ernestine s conseguia ficar olhando para mim. David estava ali esfregando a orelha com ar de 
espanto. Ento eu disse o mais depressa que pude:
     - Agora vamos voltar para a sala. S estvamos preocupados com o padre Dominic e queramos acompanh-lo at a sada. Obrigada, irm.
     Irm Ernestine continuou olhando fixo para mim sem dizer nada. Era uma mulher grande, no to alta quanto eu em minhas botas negras de salto alto, mas muito 
mais corpulenta, com aqueles seios enormes. Entre os dois pendia uma cruz de prata. Inconscientemente, irm Ernestine tocava a cruz com os dedos enquanto me olhava. 
Mais tarde, Adam, que tinha visto a cena toda, diria que irm Ernestine segurava com fora a cruz, como se quisesse proteger-se de mim. O que no  verdade. Ela 
limitou-se a tocar a cruz, como se quisesse ter certeza de que continuava l. E estava. Com toda certeza.
     Acho que foi naquele momento que o David deixou de ser Mestre para mim, e passou a ser mesmo David.
     - No se preocupe - disse-lhe pouco antes de nos separarmos, pois ele parecia to preocupado e to engraadinho com seu cabelo ruivo, suas sardas e suas orelhas 
pontudas. Estiquei a mo e desarrumei aquela cabeleira vermelha: -Vai dar tudo certo.
     David olhou para mim.
     - Como voc sabe? - perguntou. 
     Eu recolhi minha mo.
     Pois  claro que a verdade  que eu no sabia. Quer dizer, que tudo ia dar certo. Muito pelo contrrio, na realidade.
     

      Captulo 15
      
     O almoo j tinha quase acabado quando eu finalmente consegui pegar o Adam de jeito. Eu tinha passado quase a aula inteira com a cara enfiada num computador
na biblioteca. Ainda no tinha comido, mas a verdade  que no estava com a menor fome.
     - Ei - chamei, sentando ao lado dele e cruzando as pernas de um jeito que minha saia preta subisse s um pouquinho. - Voc veio de carro para o colgio hoje 
de manh?
     Adam bateu no peito. Ele tinha comeado a beliscar um salgadinho no exato momento em que eu me sentei. Quando finalmente conseguiu que ele descesse, disse, 
todo orgulhoso:
     - Claro que vim. Agora que estou com a minha carteira, sou uma verdadeira mquina de dirigir. Voc devia ter sado com a gente ontem  noite, Suze. Foi o mximo! 
Depois que a gente saiu do Caf Clutch, fomos dar uma volta pela Avenida Dezessete. Voc j fez isso alguma vez? Cara, com a lua que estava fazendo ontem  noite, 
o mar estava to bonito...
     - Ser que voc topava me levar a algum lugar depois das aulas?
     Adam levantou-se de repente, assustando duas enormes gaivotas que estavam perto do banco onde ele se sentara ao lado de Cee Cee.
     Est brincando? Aonde quer ir?  s dizer, Suze, e eu te levo. Las Vegas? Quer ir a Las Vegas? Nenhum problema. Eu tenho 16 anos, voc tem 16 anos. Podemos 
nos casar l com a maior facilidade. Meus pais deixam a gente morar com eles, sem problema. Algum problema em ficar no meu quarto? Juro que a partir de agora eu 
tomo cuidado com as coisas...
     Adam - interferiu a Cee Cee. - Deixa de ser espaoso. Duvido muito que ela queira casar com voc.
     No acho uma boa idia casar de novo antes de conseguir divrcio do meu primeiro marido - disse eu, com a cara mais sria. - O que eu estou querendo mesmo 
ir ao hospital visitar o Bryce.
     Os ombros do Adam caram.
     - Ah - fez ele, sem conseguir esconder o desnimo. - S isso?
     A eu saquei que tinha dito a coisa errada. Mas no dava para voltar atrs. Felizmente, a Cee Cee veio em meu socorro, dizendo, bem estudada:
     - Sabe o que mais, uma matria sobre o Bryce e o padre Dominic bravamente lutando para se recuperar dos ferimentos no seria uma m idia para o jornal. Voc 
se importa se eu for com voc, Suze?
     - Claro que no - respondi, o que era, naturalmente, uma mentira. Com a Cee Cee do lado, seria difcil fazer tudo que eu tinha de fazer sem precisar explicar 
um monte de coisas...
     Mas que escolha eu tinha? Nenhuma.
     Como eu j tinha garantido a minha carona, comecei a procurar o Soneca. Encontrei-o cochilando e o cutuquei com a ponta da bota para acord-lo. Quando ele comeou 
a piscar para mim por trs dos culos escuros, eu disse que no esperasse por mim depois das aulas, pois j tinha arranjado carona. Ele resmungou e voltou a dormir.
     Dei um jeito ento de achar uma cabine telefnica.  estranho quando a gente no sabe o telefone de nossa prpria me. Quer dizer, eu ainda sabia de cor o nosso 
nmero l no Brooklin, mas no tinha a menor idia de qual era meu novo nmero de telefone. Ainda bem que o havia anotado em minha caderneta. Fui at a letra S, 
de Simon, encontrei o nmero e disquei. Eu sabia que no tinha ningum em casa, mas queria me garantir por todos os lados. A deixei gravada na secretria eletrnica 
a mensagem de que talvez me atrasasse na volta do colgio, pois estava saindo com dois novos amigos. Eu tinha certeza de que a minha me ia adorar quando voltasse 
da estao e ouvisse aquela mensagem. Quando a gente ainda morava no Brooklin, ela estava sempre preocupada, achando que eu era anti-social. Estava sempre dizendo: 
     - Suzinha, voc  uma moa to bonita... No entendo por que nenhum rapaz telefona para voc. Quem sabe se voc no parecesse to... bem, to durona?... Que 
tal deixar a jaqueta de couro descansar um pouco?
     Ela provavelmente morreria de alegria se estivesse no estacionamento depois das aulas e ouvisse o Adam quando eu me aproximei do seu carro.
     - Olha s, Cee, aqui est ela - disse ele, abrindo a porta do carona do seu carro, que era simplesmente um New Beetle, o novo fusca (acho que os pais do Adam 
no estavam propriamente passando necessidade). - Venha, Suze, voc vai sentar bem aqui ao meu lado.
     Atravs dos meus culos escuros - como sempre, a bruma da manh j se dissipara, e agora, s trs da tarde, o sol estava castigando do alto de um cu de um 
azul perfeito -eu vi a Cee Cee esparramada no banco de trs.
     Hmm,  mesmo? - disse. - Mas a Cee Cee chegou primeiro. Eu fico l atrs mesmo. No dou a mnima.
     No quero nem saber - cortou o Adam, segurando a porta aberta para mim. - Voc  que  a garota nova. A garota nova sempre senta no banco da frente.
     Isso mesmo, at se recusar a dormir com ele - soltou a Cee Cee l do fundo do banco de trs. - A tambm ser relegada ao banco de trs.
     Adam retrucou com voz cavernosa:
     - Finja que no est ouvindo esta voz das profundezas. Eu sentei no banco da frente e Adam educadamente fechou a porta para mim.
     - Est falando srio? - perguntei a Cee Cee, virando-me para trs enquanto o Adam dava a volta no carro para entrar.
     Cee Cee piscou por trs de suas lentes protetoras:
     - Voc acha realmente que algum seria capaz de dormir com ele?
     Tratei de processar a resposta.
     Quer dizer ento que a resposta  no - disse.
     Acertou na mosca - respondeu a Cee Cee no exato momento em que o Adam entrava no carro.
     Muito bem - disse o motorista, aquecendo os dedos antes de ligar a ignio. - Acho que essa histria toda com a esttua, o padre Dom e o Bryce deixou todo mundo 
muito estressado. Meus pais tm uma jacuzzi, o que  perfeito para a tenso que todos ns sofremos hoje, e sugiro ento que a gente passe primeiro l em casa para 
um bom banho...
     Sabe o que mais? - disse eu. - Vamos deixar a jacuzzi para outra vez e ir direto para o hospital. Talvez depois, se der tempo...
     Uau! - fez o Adam, parecendo que estava nas nuvens. - Existe um deus l no cu!
     L do banco de trs, a Cee Cee cortou a animao dele:
     - Ela disse talvez, seu otrio. Minha nossa, tente se controlar.
     Adam me deu uma olhada enquanto ia saindo da vaga:
     Estou forando a barra?
     Hmm - disse eu. - Talvez...
     O problema  que h muito tempo no aparecia uma garota nem de longe interessante por aqui. - Enquanto o Adam dizia isto, eu constatava algo aliviada que ele 
dirigia com muito cuidado. - H dezesseis anos eu estou cercado de Kellys e Debbies.  um enorme alvio ter uma Suzannah Simon por perto para variar. Voc simplesmente 
acabou com a Kelly hoje de manh quando disse que anjos no deixam marcas de sangue.
     Adam continuou com seu discurso at o hospital. Eu no entendia como a Cee Cee era capaz de agentar aquilo. A menos que eu estivesse muito enganada, ela sentia 
por ele exatamente o mesmo que ele sentia por mim. S que eu no achava que o interesse dele por mim era muito srio, pois se fosse ele no estaria brincando com 
o assunto. J o interesse da Cee Cee por ele me parecia ser verdadeiro. Claro que ela o provocava e at o insultava, mas eu tinha olhado pelo espelho retrovisor 
umas duas vezes e vi que ela estava olhando para ele de um jeito que s podia ser considerado apatetado.
     Mas s quando ela sabia que ele no estava olhando.
     Quando o Adam parou em frente ao hospital de Carmel, eu pensei que ele tinha parado num clube ou numa casa particular por engano. Claro que seria uma casa daquelas 
muito grandes mesmo, mas l na Califrnia no seria assim nada de mais...
     Foi ento que eu vi uma discreta plaqueta com a inscrio "Hospital". Samos do carro e atravessamos um jardim impecvel, com canteiros cheios de flores brotando. 
O lugar estava cheio de beija-flores e eu voltei a ver algumas daquelas palmeiras que nunca esperara ver to ao norte do Equador. 
     No balco de informaes, perguntei pelo quarto de Bryce Martinson. Eu no tinha certeza de que ele havia dado entrada, mas sabia por experincia prpria, infelizmente, 
que, em caso de acidente com ferimentos de cabea, geralmente a pessoa passa a noite no hospital para observao. E estava certa. Bryce estava l, assim como o padre 
Dominic, em quartos bem em frente um do outro.
     Ns no ramos os nicos a estar visitando os dois, nem de longe. O quarto do Bryce estava cheio. Aparentemente no havia limite para o nmero de pessoas autorizadas 
a entrar num quarto de paciente, e parecia at que quase toda a classe dos veteranos da Academia Missionria Junipero Serra estava ali no quarto do Bryce. Bem no 
meio daquele quarto ensolarado e alegre, com flores por todo lado, o Bryce estava deitado com o ombro engessado e o brao direito pendurado acima da cabea. Estava 
com aparncia muito melhor do que de manh, principalmente, suponho, porque o haviam enchido de analgsicos. Quando me viu na porta, ele abriu aquele sorriso largo 
e disse, prolongando bem as slabas:
     Suze!
     Puxa, e a, Bryce? - disse eu, encabulada. Todo mundo tinha se voltado para ver com quem ele estava falando. Quase s havia garotas ali. E todas fizeram o que 
tantas garotas costumam fazer: me filmaram da cabea aos ps (eu nem tinha tomado banho ao acordar porque estava to atrasada, de modo que no estava exatamente 
com o cabelo em seus melhores dias...). 
     E todas deram aquele sorrisinho afetado.
     No de um jeito que o Bryce tivesse notado. Mas deram.
     Mas ainda que no desse a menor bola para o que pudesse estar pensando de mim um bando de garotas que nunca tinha encontrado e provavelmente nunca voltaria 
a encontrar, eu fiquei vermelha.
     Pessoal - disse o Bryce, parecendo meio alto, mas de um jeito simptico. - Esta  a Suze. Suze,  o meu pessoal.
     Ah - respondi. - Tudo bom?
     Uma das garotas, que estava sentada na beira da cama do Bryce num vestido de linho branco muito engomadinho, foi dizendo:
     Ah, voc  a garota que salvou a vida dele ontem. A meia-irm do Jake.
     Isso a, eu mesma - disse. No havia a menor, mas a menor possibilidade de que eu conseguisse perguntar ao Bryce o que precisava perguntar-lhe com todas aquelas 
pessoas ali no quarto. Cee Cee tinha empurrado o Adam para o quarto do padre Dom, para que eu pudesse ficar um pouco sozinha com o Bryce, mas parecia que no tinha 
adiantado nada. No havia a menor possibilidade de eu conseguir ficar um minuto sozinha com o cara. A menos que...
     A menos que eu pedisse.
     - Bom - fui dizendo. - Preciso falar com o Bryce um instantinho. Ser que vocs se importam?
     A garota que estava na beira da cama foi apanhada de surpresa.
     - Pode falar. No somos ns que vamos impedir. 
     Eu a olhei bem nos olhos e disse, com minha voz mais firme de mediadora:
     - Preciso falar com ele sozinha.
     Algum deu um assobio longo e profundo. Ningum se mexeu. At que o Bryce falou:
     - Olha a, rapaziada. Vocs ouviram o que ela disse. Podem ir saindo.
     Deus abenoe a morfina,  tudo que posso dizer.
     A classe dos veteranos foi ento saindo de m vontade, todo mundo me lanando olhares fulminantes. Bryce ergueu uma das mos, que estava presa a alguma coisa, 
e disse:
     - Vem c, Suze. D uma olhada s nisso.
     Eu me aproximei da cama. Agora que estvamos sozinhos, dava para ver que o Bryce conseguira um quarto bem grande. Era tambm muito alegre, pintado de amarelo, 
com a janela dando para o jardim.
     - Viu s o que eu consegui? - perguntou Bryce, mostrando-me um pequeno aparelho que cabia na palma da mo, com um boto no alto. - Uma bomba de analgsico s 
para mim. A qualquer momento que eu sentir dor, basta apertar este boto e ela libera codena direto no meu sangue. Legal, no?
     O cara estava em outra. Estava mais que evidente. De repente, eu me dei conta de que minha misso no seria assim to difcil, no fim das contas.
     - Beleza, Bryce - respondi. - Fiquei mesmo muito chateada quando soube do seu acidente. 
     Uau! - fez ele, com um risinho de satisfao. - Pena que voc no estava l. Talvez pudesse ter me salvado como da outra vez.
      - disse eu, pigarreando meio sem jeito. - Voc parece que est atraindo acidentes ultimamente...
      mesmo - respondeu ele, fechando os olhos e deixando-me em pnico ante a idia de que estivesse adormecendo. Mas logo depois abriu os olhos e me olhou com 
ar meio triste. - Suze, acho que no vou conseguir, no.
     Eu fiquei olhando para ele. Caramba, que bebezo!
     - Claro que vai. Voc s est com a clavcula quebrada, mais nada. No demora nada e vai estar bom.
     Ele deu um risinho:
     No, no... Estou dizendo que acho que no vou conseguir ir ao nosso encontro de sbado  noite.
     Ah!... - disse eu, piscando. - Claro, claro que no. Nem eu estava mais pensando nisso. Preciso te pedir um favor, Bryce. Talvez voc ache estranho... (na verdade, 
dopado do jeito que estava, duvido que achasse estranho) mas eu estava aqui me perguntando se, quando voc e a Heather ain da namoravam, ela no... nunca lhe deu 
nada?
     Ele ficou piscando para mim meio desorientado.
     Nunca me deu nada? Voc quer dizer um presente? - Sim.
     Claro. Ela me deu um suter de caxemira no Natal. Eu fiz que sim com a cabea. Um suter de caxemira no ia adiantar nada para mim.
     -Tudo bem. Mais alguma coisa? Talvez... um retrato dela? 
     Ah, sim! - respondeu ele. - Claro, claro. Ela me deu seu retrato no colgio.
      mesmo? - fiz eu, tentando no parecer muito excitada. - E por acaso voc est com ele aqui? Na sua carteira, talvez?
     Era uma aposta arriscada, eu sabia perfeitamente, mas muitas pessoas s arrumam suas carteiras uma vez por ano, se tanto...
     Ele fez uma careta. Provavelmente pensar era doloroso para ele, pois logo em seguida tratou de injetar o analgsico umas duas vezes. Em seguida, ficou com a 
expresso relaxada.
     - Claro - disse ento. - Ainda tenho a foto dela. Minha carteira est naquela gaveta ali.
     Eu abri a gaveta da mesa ao lado de sua cama. E l estava realmente a carteira, fininha, de couro preto. Eu a apanhei e a abri. A foto da Heather estava entre 
um carto American Express e um bilhete de telefrico de estao de esqui. Ela estava cheia de glamour, com toda aquela cabeleira loura caindo num dos ombros e olhando 
insinuante para a cmera. Nas minhas fotos de colgio, eu sempre fico parecendo como se algum tivesse gritado "Fogo!". No conseguia entender como um cara que estava 
saindo com uma garota como aquela podia convidar para sair algum como eu.
     - Voc me empresta este retrato? - perguntei. - Preciso dele s por um tempinho. Devolvo logo. - O que era uma mentira, mas achei que de outro modo ele no 
me emprestaria a foto. 
     Claro, claro - disse ele, sacudindo uma das mos.
     Obrigada.
     Enfiei a foto na minha mochila no exato momento em que uma mulher alta, de seus 40 anos, foi entrando, coberta de jias e trazendo uma caixa de doces.
     Bryce, querido - disse ela. - Onde esto seus amiguinhos? Eu fui at a padaria para trazer uns beliscos.
     Daqui a pouco eles voltam, me - respondeu o Bryce meio sonolento. - Esta  a Suze. Ela salvou a minha vida ontem.
     A Sra. Martinson estendeu a mo direita, macia e bronzeada.
     - Prazer em conhec-la, Susan - disse ela, mal tocando os meus dedos. - Voc consegue acreditar no que aconteceu com o pobrezinho do Bryce? O pai dele est
furioso. Como se as coisas j no estivessem suficientemente complicadas, com aquela maldita garota... bem, voc sabe. E agora isto. Juro que fica parecendo que 
aquele colgio est amaldioado ou algo assim.
     Eu disse:
     - . Bem, prazer em conhec-la.  melhor eu ir.
     E ningum protestou contra minha partida: a Sra. Martinson porque pouco estava ligando, e o Bryce porque tinha adormecido.
     Encontrei Adam e Cee Cee em frente a um quarto do outro lado do corredor. Enquanto eu estava me aproximando deles, Cee Cee levou um dedo aos lbios:
     - Oua - disse ela. 
     Eu fiz exatamente o que ela sugeria.
     Simplesmente no podia ter acontecido em pior hora - dizia uma voz conhecida, de homem mais velho. - E agora que faltam menos de duas semanas para a visita 
do arcebispo?...
     Sinto muito, Constantine - dizia o padre Dominic com a voz fraca. - Sei perfeitamente que isto deve estar sendo estressante para voc.
     E ainda por cima com o Bryce Martinson! Sabe quem  o pai dele? Simplesmente um dos melhores advogados de Salinas!
     Padre Dom est levando um sabo - sussurrou o Adam para mim. - Pobre coitado.
     Ele bem que podia simplesmente dizer a monsenhor Constantine que fosse se afogar no lago - disse Cee Cee com os olhos faiscando.
     Eu sussurrei:
     - Vamos ver se a gente consegue ajud-lo. Talvez vocs pudessem distrair o monsenhor. E a eu vou ver se o padre Dom precisa de alguma coisa. Sabe como , Bem 
depressinha antes da gente ir embora.
     Cee Cee deu de ombros:
     Por mim tudo bem.
     Estou nessa - concordou Adam.
     Eu ento chamei o padre Dominic em voz alta e fui entrando no quarto.
     O quarto no era to grande nem to alegre quanto o do Bryce. As paredes eram bege, e no amarelo, e s havia um vaso de flores. Pelo que pude perceber, a janela 
dava para o estacionamento. E ningum se tinha dado ao trabalho de pendurar o padre Dominic em alguma mquina de bombear analgsicos. No sei que tipo de plano de 
sade os padres tm, mas posso dizer que no eram to bons quanto deveriam.
     Seria pouco dizer que o padre Dominic ficou surpreso com a minha entrada. Seu queixo simplesmente caiu. Ele no parecia capaz de dizer coisa nenhuma. Mas no 
tinha problema, pois atrs de mim foi entrando a Cee Cee, que foi explicando:
     - Puxa, monsenhor, estvamos procurando o senhor em toda parte. Gostaramos de fazer uma entrevista exclusiva, se o senhor concordar, sobre as conseqncias 
do ato de vandalismo da noite passada na visita que o arcebispo est para fazer. Conseqncias negativas, certo? O senhor tem algo a dizer? Talvez o senhor pudesse 
dar uma chegadinha at o corredor, onde eu e meu colaborador poderemos...
     Meio atarantado, monsenhor Constantine acompanhou Cee Cee at a porta, bem irritado:
     - Escute aqui, mocinha...
     Eu mais que depressa fui chegando para o lado do padre Dominic. No posso dizer que estava exatamente excitada por encontr-lo. Quer dizer, eu sabia que ele 
provavelmente no estava l muito satisfeito comigo. Foi em mim que a Heather atirou a cabea do padre Serra, e eu achava que ele provavelmente sabia disto e muito 
provavelmente tambm no estava l simpatizando demais comigo. 
     Pelo menos era o que eu estava pensando. Mas  claro que estava errada. Eu sou muito boa para ficar imaginando o que as pessoas mortas esto pensando, mas ainda 
no consegui acertar muito com os vivos.
     - Suzannah - disse padre Dominic com sua voz meiga.
     - Que est fazendo aqui? Est tudo bem? Eu estava muito preocupado com voc...
     Provavelmente eu deveria ter esperado... Padre Dominic no estava zangado comigo, absolutamente. S estava preocupado. Mas era ele o verdadeiro motivo de preocupao. 
Alm daquele horrvel rasgo acima de um dos olhos, ele estava completamente lvido. Ou melhor, cinzento, parecendo muito mais velho do que era. S os olhos, azuis 
como o cu l fora, continuavam como sempre foram, brilhantes e cheios de bom humor inteligente.
     Ainda assim, fiquei de novo furiosa por v-lo daquela maneira. Heather ainda no sabia, mas ia se ver comigo, e como!
     - Preocupado comigo? - perguntei, olhando fixo para ele. - Por que est preocupado comigo? No fui eu que quase fui esmagada hoje de manh por um crucifixo.
     Padre Dom sorriu, matreiro.
     No, mas acho que voc talvez precise explicar uma coisa. Por que no me disse, Suzannah? Por que no me disse o que pretendia fazer? Se eu soubesse que voc 
estava pretendendo aparecer na Misso sozinha no meio da noite, nunca teria permitido.
     Foi exatamente por isto que eu no lhe disse - respondi.
     - Oua, padre, sinto muito pela esttua e pela porta da sala de aula do professor Walden e tudo mais. Mas eu precisava tentar falar com ela pessoalmente, entende? 
De mulher para mulher. Eu no sabia que ela ia ficar completamente ensandecida comigo.
     Mas o que voc podia esperar? Suzannah, voc no viu o que ela tentou fazer com aquele rapaz ontem?...
     Sim, mas aquilo dava para entender. Quer dizer, ela gostava muito dele. Ela realmente o ama loucamente. Mas eu no imaginava que fosse me perseguir tambm. 
Afinal, eu no tinha nada a ver com aquela histria. S estava tentando mostrar a ela o que ela podia fazer...
     O que era exatamente o que eu vinha fazendo desde que ela comeou a assombrar a Misso.
     Certo. Mas a Heather no est a fim de aceitar nada que lhe propomos.  como estou lhe dizendo, a guria pirou. Agora est quietinha porque acha que conseguiu 
matar o Bryce e provavelmente tambm est exausta, mas daqui a pouco vai comear a atacar de novo, e s Deus sabe o que poder fazer agora que sabe do que  capaz.
     Padre Dominic ficou me olhando com curiosidade, completamente esquecido da sua preocupao com a chegada do arcebispo.
     Como assim, "agora que sabe do que  capaz"?
     Bom, d para perceber que a noite passada foi apenas um ensaio geral. Pode estar certo de que muito pior vir da Heather, agora que ela sabe o que pode fazer.
     Padre Dominic balanou a cabea, confuso.
     - Voc a viu hoje? Como sabe tudo isto?
     Eu no podia falar sobre o Jesse para o padre Dominic. No podia mesmo. No era da conta dele, para comeo de conversa. Mas eu tambm tinha a impresso de que 
poderia choc-lo, saber que havia um sujeito vivendo no meu quarto. Sabe como , padre Dom era um padre, essas coisas...
     - Escute s - eu disse. - Tenho pensado muito nisso, e no vejo outra maneira. O senhor j tentou argumentar com ela e eu tambm. E veja s no que deu. O senhor 
est no hospital e eu preciso ficar o tempo todo olhando ao meu redor, onde quer que v. Acho que chegou a hora de resolver isto de uma vez por todas.
     Padre Dom piscou: - O que est querendo dizer, Suzannah? De que est falando?
     Respirei fundo.
     - Estou falando do que ns, mediadores, fazemos como ltimo recurso.
     Ele ainda parecia confuso.
     ltimo recurso? Acho que no estou entendendo o que voc quer dizer...
     Fazer um exorcismo - disse eu.
     

      Captulo 16 
     
     Nem pensar - disse padre Dominic. - Padre - tentei argumentar. - No vejo outra sada. Ns sabemos perfeitamente que ela no ir por vontade prpria. E ela 
 perigosa demais para ficar por a perambulando indefinidamente. Acho que vamos precisar dar um empurro.
     Padre Dominic tirou os olhos de mim e ficou com o olhar perdido num ponto do teto.
     - No  para isto que estamos aqui, pessoas como voc e eu, Suzannah - disse ele com a voz mais triste que eu jamais ouvira. - Ns somos as sentinelas dos portes 
do Alm. Somos ns que ajudamos a guiar as almas perdidas para seu destino final. E no houve um s esprito ajudado por mim que no tivesse passado pelo porto 
por vontade prpria...
     Isso a. E se a gente fechar os olhos na noite de Natal, Papai Noel vai aparecer. Devia ser muito bom, pensei, ver o mundo pelos olhos do padre Dom. Ficava 
parecendo um lugar muito legal. Muito melhor que o mundo no qual eu vivia h dezesseis anos.
     Certo - disse eu. - Bom, no vejo outro jeito.
     Um exorcismo - murmurou padre Dominic, pronunciando a palavra como se fosse algo nojento.
     Oua - prossegui, comeando a me arrepender de ter dito alguma coisa. - Acredite, no  um mtodo que eu recomendo sempre. Mas no acho que tenhamos muita escolha. 
A Heather j no  um perigo apenas para o Bryce. - Eu no queria contar-lhe o que ela havia dito sobre o David. J podia at v-lo saltando da cama e berrando por 
um par de muletas. Mas como eu j tinha deixado escapar o que estava planejando, precisava mostrar a ele por que considerava necessria uma medida to extrema. - 
Ela  um perigo para o colgio todo e precisa ser contida - disse ento.
     Ele assentiu com a cabea.
     - Sim, sim, voc tem razo. Mas Suzannah, voc tem de prometer que vai esperar que eu tenha alta. Conversei com a mdica, e ela disse que pode me dar alta j 
na sexta-feira. Com isto, teremos tempo suficiente para pesquisar a metodologia apropriada... - ele deu uma olhada para a mesinha- de-cabeceira. - Quer me dar aquela 
Bblia ali, Suzannah? Quem sabe no o encontramos aqui...
     Eu lhe entreguei a Bblia.
     - Tenho plena convico de que domino perfeitamente a coisa - disse eu. 
     Ele levantou os olhos e me fixou com aquele seu olharzinho triste de criana. Pena que j fosse to velho, e ainda por cima padre. Fiquei me perguntando quantos 
coraes ele no teria partido antes de encontrar sua vocao.
     - E como  que voc pode dominar perfeitamente uma coisa complicada como um exorcismo catlico romano? - quis saber ele.
     Eu me mexi, meio sem jeito.
     Bem, eu no estava pretendendo usar exatamente a verso catlica romana.
     Existe alguma outra?
     Mas claro! A maioria das religies tem sua verso. Pessoalmente, prefiro a umbanda.  bem objetiva. Nada de sortilgios demorados ou coisas do gnero.
     Ele parecia estar sofrendo:
     Macumba?
     Isso mesmo.  o vodu brasileiro. Eu descobri na Internet. S precisamos de um pouco de sangue de galinha e...
     Maria Santssima, me de Deus! - interrompeu padre Dominic, levando algum tempo para se recuperar e prosseguir: - Fora de questo. Heather Chambers era uma 
catlica batizada e, apesar da causa de sua morte, merece um exorcismo catlico, se no um enterro catlico. No momento ela no tem grandes chances de ir para o 
Cu, devo reconhecer, mas posso garantir que pretendo fazer tudo para que tenha a oportunidade de cumprimentar So Pedro no porto.
     Padre Dom - eu disse. - Realmente no acho que faa a menor diferena se ela tiver um exorcismo catlico, brasileiro, pigmeu ou o que seja. A dura realidade 
 que se houver um Cu, no existe a menor possibilidade de que Heather Chambers v para l.
     Padre Dominic fez um muxoxo de desaprovao.
     Suzannah, como pode dizer uma coisa dessas? Todo mundo tem alguma coisa de bom. Acho que at voc  capaz de ver isso.
     At eu? Como assim, at eu?
     Estou querendo dizer que at Suzannah Simon, que pode ser muito dura com os outros, deve ser capaz de entender que at no ser humano mais cruel existe a flor 
do bem. Talvez um brotinho muito pequeno mesmo, carente de gua e luz do sol, mas ainda assim uma flor.
     Fiquei me perguntando que analgsicos estariam dando ao padre Dom. E disse:
     - Tudo bem ento, padre. S sei que, aonde quer que a Heather v, no ser para o Cu. Se  que existe um Cu...
     Ele sorriu para mim com tristeza.
     - Eu gostaria apenas, Suzannah, que voc tivesse em matria de f no Senhor metade do que tem de coragem - disse. - Oua-me um instante. Voc no pode, simplesmente 
no pode tentar deter a Heather sozinha. Ficou perfeitamente claro que ela quase a matou na noite passada. Eu no conseguia acreditar quando cheguei e vi os estragos 
que ela tinha provocado. Voc teve muita sorte de sair com vida. E pelo que aconteceu esta manh tambm est claro, como voc mesma diz, que ela est apenas acumulando 
foras. 
     Seria uma burrice, uma burrice criminosa, se voc tentasse de novo fazer alguma coisa sozinha.
     Eu sabia que ele tinha razo. Pior ainda, se eu levasse adiante aquela histria de exorcismo, no poderia contar com a ajuda do Jesse, pois o exorcismo poderia 
muito bem mand-lo de volta para o criador, juntinho com a Heather.
     - Alm disso - prosseguiu padre Dominic -, no h qualquer motivo para se apressar, no  mesmo? Agora que ela j conseguiu mandar o Bryce para o hospital, 
no far nenhuma outra tolice, pelo menos at ele voltar para o colgio. Parece que ele  a nica pessoa contra a qual ela alimenta instintos assassinos...
     Eu no disse nada. E como poderia? O pobre infeliz parecia to pattico, deitado naquela cama... Eu no queria dar-lhe mais motivos de preocupao. Mas a verdade 
 que eu no poderia esperar que o padre Dom sasse do hospital. A Heather no estava brincando. A cada dia que passava, ela s ia ficando mais forte e mais perversa 
e mais cheia de dio. Eu tinha de me livrar dela, e precisava ser logo.
     De modo que cometi algo que deve ser um pecado mortal. Menti para um padre.
     Ainda bem que eu no sou catlica.
     - No se preocupe, padre Dom - disse. - Vou esperar que o senhor se sinta melhor.
     Mas o padre Dominic no era nenhum bobo.
     Prometa-me, Suzannah - insistiu.
     Prometo. 
     Claro que eu tinha cruzado os dedos. Eu esperava que, se existisse um deus, isto servisse para neutralizar o pecado de mentir para um dos seus mais devotados 
servidores.
     - Deixe-me ver - murmurava padre Dominic. - Vamos precisar de gua benta, naturalmente. Mas isto no  problema. E, naturalmente, de um crucifixo.
     Enquanto ele matutava sobre os itens necessrios, Adam e Cee Cee entraram no quarto.
     - E a, padre Dom? - foi dizendo o Adam. - O senhor est pssimo!
     Cee Cee cutucou-o com o cotovelo.
     - Adam - sussurrou ela, voltando-se com vivacidade para o padre. - No d bola para ele, padre Dom. Eu acho que o senhor parece timo. Parece mesmo, para quem 
quebrou um bocado de ossos...
     Crianas! - fez padre Dominic, realmente contente por v-los. - Mas que bom! Mas por que esto desperdiando uma tarde bonita como esta para visitar um velho 
num hospital? Vocs deviam estar na praia curtindo o sol.
     Na verdade estamos fazendo uma matria sobre o acidente para as Notcias da Misso - informou Cee Cee. - Acabamos de entrevistar o monsenhor.  realmente uma 
pena essa histria da visita do arcebispo e tudo mais, e a esttua do padre Serra sem cabea...
     Isso a - fez o Adam. - Um horror mesmo.
     No faz mal - disse padre Dominic. -  o empenho e a preocupao de vocs que vo realmente impressionar o arcebispo. 
     - Amm - disse Adam, solene.
     Antes que uma de ns duas tivesse tempo de ralhar com o Adam por causa do sarcasmo, uma enfermeira entrou e comunicou a Cee Cee e a mim que tnhamos de sair 
porque ela ia dar banho de esponja no padre Dom.
     Banho de esponja! - espantou-se o Adam enquanto caminhvamos para o carro. - No padre Dom do banho de esponja, mas e eu, que realmente saberia apreciar uma 
coisa dessas, que  que me do?...
     Uma oportunidade de servir de motorista para as duas garotas mais bonitas de Carmel - adiantou-se Cee Cee.
     T bom - concordou Adam, voltando-se para mim: - No que voc no seja a garota mais bonita de Carmel, Suze... Eu s estava querendo dizer... Bem, voc sabe...
     Sei - disse eu, sorrindo.
     Puxa vida, banho de esponja! E voc viu s aquela enfermeira? - continuou Adam, empurrando o encosto do banco do carona para a Cee Cee se esgueirar para o assento 
de trs. - Alguma coisa deve ter nessa histria de ser padre. Talvez eu devesse me candidatar.
     L de trs, a Cee Cee respondeu:
     - Ningum se candidata.  uma vocao. E voc no ia gostar nada, Adam, pode crer. Padres no podem jogar Nintendo.
     Adam engoliu esta.
     - Talvez eu pudesse fundar uma nova ordem - disse ele, concentrado. - Como os franciscanos, s que seramos a Ordem dos Felizardos. Nosso lema seria "Nota dez 
para todos, pizza para todo mundo". 
     Cee Cee interrompeu:
     - Cuidado com a gaivota!
     Ns estvamos na Rodovia Litornea de Carmel. Pouco depois da mureta de pedra a nossa direita estava o Oceano Pacfico, brilhando como uma jia  luz da gigantesca 
bola de fogo amarela do sol. Provavelmente eu o devia estar contemplando muito demoradamente (eu ainda no tinha me acostumado com sua presena constante), pois 
o Adam foi tratando de se enfiar com o carro numa vaga que acabava de ser deixada livre por um BMW. Eu fiquei olhando para ele interrogativamente, enquanto ele perguntava:
     - Voc ainda no conseguiu parar para ficar olhando o pr-do-sol?
     Sa do carro numa frao de segundo.
     Pouco depois, estava me perguntando como  que nunca tinha pensado antes em me mudar para a Califrnia. Sentada numa manta que o Adam tirou da mala do carro, 
observando os atletas correndo e os surfistas de fim de tarde, os ces correndo atrs de frisbees e os turistas com suas cmeras, estava me sentindo to bem como 
no me sentia h muito tempo... Talvez fosse porque eu ainda estava num regime de dormir apenas quatro horas por noite. Talvez, simplesmente o cheiro da gua do 
mar me estivesse deixando meio embriagada. Mas o fato  que estava me sentindo realmente em paz, como se fosse pela primeira vez na vida.
     O que no deixava de ser estranho, levando-se em conta que dentro de poucas horas eu estaria em luta contra as foras do Mal. 
     At que essa hora chegasse, no entanto, decidi que ia curtir a vida. Voltei o rosto para o sol que se punha, sentindo os seus raios quentes na bochecha, e fiquei
ouvindo o barulho das ondas, os gritos das gaivotas e a conversa de Cee Cee com o Adam.
     - A eu disse para ela, Claire, voc j tem quase 40 anos. Se voc e o Paul querem ter outro filho,  melhor andarem depressa. Vocs esto correndo contra o
tempo - disse o Adam, bebendo um refrigerante que havia comprado numa lanchonete perto do lugar onde estacionamos. - Ela ficou dizendo que meu pai e ela no queriam
que eu me sentisse ameaado por um outro filho e eu respondi que no me sentia ameaado por bebs. Sabe o que realmente me faz sentir ameaado? Esses orangotangos
que ficam tomando esterides, do tipo Brad Ackerman, isto sim.
     Cee Cee lanou um olhar de advertncia para Adam e depois olhou para mim:
     - E como voc est se dando com seus meios-irmos, Suze?
     Eu desviei meu olhar do sol.
     - Acho que bem - respondi. - Mas  verdade que o Dun... quer dizer, o Brad, toma esterides?
     O Adam respondeu:
     - Eu no devia ter dito isto. Sinto muito. Tenho certeza de que ele no toma. Mas aqueles caras todos da equipe de luta-livre, eles realmente so de dar medo. 
E tm tanta raiva de gays... que d para desconfiar de suas preferncias sexuais. Eles todos pensam que eu sou gay, mas no sou exatamente eu que fico metido num 
colante agarrando as coxas de outros caras.
     Eu senti vontade de pedir desculpas em nome do meu meio-irmo e foi o que fiz, acrescentando:
     - No estou to certa assim de que ele seja gay. Outro dia ele ficou todo feliz quando a Kelly Prescott ligou para nos convidar para a festa em sua piscina 
no sbado.
     Adam assobiou e de repente Cee Cee perguntou:
     - Voc no prefere algo melhor que esta manta? Quem sabe uma toalha de praia de caxemira?...  o tipo de toalha que a Kelly e o pessoal dela usam na praia.
     Eu fiquei piscando, percebendo que acabava de cometer uma gafe.
     U, eu no sabia... Pensei que a Kelly tambm tinha convidado vocs. Achei que ela ia convidar todos os segundanistas.
     Com certeza que no - disse Cee Cee, fungando. - S os segundanistas com status, o que no  caso do Adam nem o meu.
     Mas voc  a editora do jornal do colgio - ponderei.
     Certo - respondeu o Adam. - Traduza isto como a mesma coisa que bosta, e vai entender por que nunca fomos convidados para uma festa na piscina da princesa Kelly.
     Fiquei calada por um minuto, ouvindo as ondas. Mas acabei dizendo:
     No que eu estivesse pensando em ir...
     No mesmo? - e os olhos de Cee Cee se esbugalharam por trs dos culos. 
     - No. No incio, porque eu tinha um encontro com o Bryce, que acabou sendo cancelado. Mas agora porque... bom, se vocs no forem, com quem eu vou conversar?
     Cee Cee deitou-se na manta.
     - Suze - disse ela. - Voc alguma vez pensou em ser vice-presidente da turma?Eu achei graa.
     Espera a, eu sou a mais nova da turma, lembra?
     Isso a - fez o Adam. - Mas voc leva jeito. Vi que voc tem alguma coisa de lder na maneira como acabou com a raa da Debbie Mancuso ontem. Os homens sempre 
admiram as garotas que parecem capazes de dar um murro na cara de outra garota a qualquer momento.  mais forte que ns. Talvez seja gentico - concluiu ele, dando 
de ombros.
     Certamente vou levar isto em considerao - disse eu, rindo. - Cheguei a ouvir um boato de que a Kelly pretendia gastar todo o oramento da turma numa festa...
     Exatamente - confirmou Cee Cee. - Ela faz isto todo ano.  aquela baboseira da dana da primavera. Um saco. Pelo menos para quem no est de namorado, no serve 
para nada. No d para fazer mais nada, s danar.
     Espera a - atalhou Adam. - Lembra aquela vez em que a gente levou bales de gua?
     Bom, naquele ano foi divertido - reconheceu Cee Cee.
     Eu estava pensando - interferi - que talvez fosse melhor uma coisa assim. Sabe como . Um piquenique na praia. Talvez at dois... 
     - Isso mesmo! - exclamou o Adam. - Com fogueira! O meu lado piromanaco sempre quis fazer uma fogueira na praia.
     Cee Cee concordou:
     - Exatamente!  exatamente o que a gente devia fazer. Suze, voc tem de concorrer a vice-presidente!
     Santa virgem, mas o que foi que eu fiz? Eu no queria ser vice-presidente da turma de segundo ano! No queria me envolver com essas coisas! Eu no tinha o menor 
esprito de comunidade, no tinha opinio sobre nada! Que diabos estava eu fazendo? Ser que tinha perdido a cabea?
     - Olha l! - disse Adam de repente, apontando para o sol. - L vai ele.
     Enquanto ia desaparecendo no horizonte, a enorme bola alaranjada parecia estar mergulhando no mar. No tinha nada respingando nem nenhuma fumaa, mas eu seria 
capaz de jurar que tinha ouvido o sol atingindo a superfcie da gua.
     L vai o sol - cantou Cee Cee suavemente.
     L l l l l - continuou o Adam.
     L vai o sol - prossegui.
     Tudo bem, tenho de reconhecer que era meio infantil, ficar ali sentado cantando, enquanto o sol se punha. Mas tambm era divertido. L em Nova York, a gente
costumava ficar sentado no parque vendo os policiais  paisana prenderem traficantes de drogas. Mas no dava para comparar com o prazer de cantar despreocupado na 
praia enquanto o sol se pe.
     Alguma coisa estranha estava acontecendo. E eu no sabia direito o que era.
     - Eu j sei. T legal - cantamos os trs em unssono.
     Estranhamente, naquele exato momento, eu realmente acreditei que seria assim. Que estaria tudo bem.
     E foi a que me dei conta do que estava acontecendo.
     Eu estava me integrando. Eu, Suzannah Simon, a mediadora. Pela primeira vez na vida eu estava me integrando com alguma coisa.
     E fiquei feliz. Realmente feliz. Naquele momento, eu realmente acreditava que tudo estaria bem.
     Mal sabia eu!...
     

      Captulo 17
      
     Meu despertador tocou  meia-noite. Eu o desliguei, bati palmas para acender a luz, rolei na cama e fiquei olhando para o dossel l em cima.
     Isso mesmo. Tinha chegado o dia D. Ou dia E, no caso.
     Eu estava to cansada depois do jantar que sabia que nunca conseguiria se no tirasse uma soneca. Disse  minha me que ia l para cima fazer o dever de casa, 
e que depois ia me deitar para tirar uma soneca. Quando a gente morava no Brooklin, no teria o menor problema. Minha me me teria deixado sossegada, exatamente 
como eu pedia. Mas na casa dos Ackerman a expresso "quero ficar sozinha" aparentemente no significava absolutamente nada. E no porque a casa estivesse cheia de 
fantasmas por todo lado. No, para variar, eram os vivos que ficavam me perturbando.
     Primeiro foi o Dunga. Quando me sentei para desfrutar de mais um jantar gastronmico imaculadamente preparado por meu padrasto, pairava uma certa dvida, pois 
no fim das contas eu s havia chegado em casa depois das seis. Como sempre, chegou a hora do "onde voc estava?" da minha me (muito embora eu me tivesse dado ao 
trabalho de deixar aquele bilhete para ela). Depois o Andy veio com o seu "foi divertido?". E logo em seguida tive de ouvir um "com quem voc estava?" logo de quem? 
Do Mestre. E quando eu informei que estivera com Adam McTavish e Cee Cee Webb, Dunga fez uma careta de nojo e lanou, sem parar de mastigar sua almndega:
     - Caramba! Os esquisitos da turma. Andy interveio:
     - Ei, veja como fala.
     - Puxa, pai - insistiu Dunga. - Uma  uma albina superesquisita e o outro  boiola.
     Isto lhe valeu um espetacular cascudo do pai, que tambm o deixou de castigo por uma semana. Com isto, no pude deixar de lembrar ao Dunga mais tarde, quando 
estvamos tirando a mesa, que ele no poderia ir  festa na piscina de Kelly Prescott, para a qual, por sinal, tinha sido convidado graas a mim, a rainha dos esquisitos.
     - Pena mesmo, meu chapa - disse eu, dando um tapinha de solidariedade na bochecha do Dunga.
     Ele empurrou a minha mo.
     Ah, ? - foi dizendo. - Bom, pelo menos ningum vai me chamar de bicha amanh.
     Ora, ora, meu benzinho - continuei, beliscando a mesma bochecha. - Voc nunca vai precisar se preocupar de ser chamado disso. S te xingam de coisas muito piores.
     Ele voltou a agarrar minha mo, aparentemente to furioso que ficou sem fala por algum tempo.
     - Prometa que nunca vai mudar - pedi. - Voc  mesmo um barato exatamente do seu jeito...
     Dunga me chamou de um nome muito feio, no exato momento em que seu pai entrava na cozinha com o resto da salada.
     Andy deu-lhe mais uma semana de castigo e depois mandou-o para o quarto. Para mostrar como tinha ficado aborrecido, Dunga botou para tocar os Beastie Boys to 
alto que eu no conseguia dormir, pelo menos at que o Andy voltou a interferir, tomando as caixas de som. De repente tudo ficou um enorme sossego e eu j estava 
pegando no sono quando algum bateu na minha porta. Era o Mestre.
     Hmm - comeou ele, olhando nervosamente para a escurido do meu quarto, o quarto "mal-assombrado" da casa. - Ser que a hora  apropriada para... falar das 
coisas que eu andei descobrindo? Quer dizer, sobre a casa... E as pessoas que morreram aqui...
     Pessoas? No plural?
     Com certeza - prosseguiu Mestre. - Consegui encontrar uma quantidade incrvel de documentos sobre os crimes que foram cometidos nesta casa, em muitos casos 
crimes de homicdio em todos os graus. Como era uma estalagem, havia sempre muitos moradores temporrios, boa parte dos quais estava voltando para casa depois de 
fazer fortuna na corrida do ouro no norte do estado. Muitos foram assassinados enquanto dormiam e tiveram seu ouro roubado, possivelmente pelos prprios donos do 
estabelecimento, segundo certas verses, porm mais provavelmente por outros moradores...
     Temendo que estivesse para ouvir que o Jesse tinha morrido exatamente dessa maneira e nada interessada em ficar sabendo mais sobre as causas de sua morte, especialmente 
se ele estivesse ali por perto para ouvir tambm, eu o interrompi:
     - Escuta s, Mestre... quer dizer, Dave. Acho que at hoje ainda no consegui me recuperar da viagem, de modo que vou tentar tirar uma soneca das boas. Ser 
que no podemos falar disso amanh no colgio? Quem sabe almoamos juntos...
     Mestre arregalou os olhos,
     - Est falando srio? Vai querer almoar comigo? Fiquei olhando para ele.
     Mas claro! Por qu? Existe alguma regra proibindo que o pessoal do segundo grau almoce com o pessoal do primeiro?
     No - respondeu ele. -  s que... nunca acontece.
     Bom, pois eu vou - insisti. - Tudo certo? Voc compra as bebidas e eu pago a sobremesa.
     Beleza! - exclamou Mestre, que voltou para seu quarto como se eu tivesse prometido que amanh lhe daria de presente o trono da Inglaterra.
     Eu j estava quase comeando a dormir de novo, quando ouvi baterem na porta novamente. Dessa vez, quando abri, l estava o Soneca, parecendo mais desperto que 
eu, para variar.
     - Olha s - comeou ele. - No quero saber se voc vai usar o carro de noite, mas vai botando as chaves l no gancho, OK?
     Eu fiquei olhando para ele.
     Eu no tenho sado com o seu carro  noite, So... quer dizer, Jake.
     Seja l o que for - insistiu ele. - Apenas trate de deixar as chaves onde as encontrou. E no seria nada mau se voc contribusse de vez em quando com a gasolina...
     Eu respondi bem devagar, para ele entender:
     Eu no tenho sado com o seu carro  noite, Jake.
     Ningum tem nada a ver com o uso que voc faz do seu tempo - insistiu Soneca. - No acho um barato viver em gangues, mas cada um sabe da sua vida. Apenas trate 
de botar minhas chaves no lugar, onde eu possa encontr-las.
     Entendi que no tinha sentido ficar discutindo, concordei e fechei a porta.
     Depois do qu, finalmente consegui umas boas horas de sono. No cheguei propriamente a acordar me sentindo nova (talvez eu pudesse dormir por mais um ano), 
mas de qualquer maneira estava me sentindo um pouco melhor.
     Pelo menos, melhor o suficiente para ir acertar os fundilhos de algum fantasma.
     Algumas horas antes eu havia juntado tudo de que ia precisar. Minha mochila estava cheia de velas, pincis, um recipiente para sangue de galinha, que eu havia 
comprado no aougueiro aonde fizera o Adam me levar antes de me deixar em casa, e vrios outros apetrechos indispensveis para a realizao de um bom exorcismo  
brasileira. Estava completamente preparada para ir em frente. S faltava calar meus tnis, e l ia eu.
     S que, naturalmente, o Jesse tinha de aparecer exatamente no momento em que eu estava pulando do telhado da varanda.
     - Tudo bem - fui dizendo, enquanto me endireitava, com os ps doendo um pouco, apesar de ter aterrissado em terra fofa. - Vamos deixar uma coisa bem clara logo 
de sada. Voc no vai dar as caras l na Misso esta noite. Entendido? Se aparecer por l, vai se arrepender, e no ser pouco.
     Jesse estava recostado num dos pinheiros gigantes do nosso jardim. Simplesmente recostado, os braos cruzados, me olhando como se eu fosse alguma atrao especial 
ou coisa parecida.
     - Estou falando srio - continuei. - No vai ser uma noite nada boa para fantasmas. Nada boa mesmo. De modo que se eu fosse voc no dava as caras por l.
     Deu para perceber que o Jesse estava sorrindo. A lua no era to forte como na noite anterior, mas ainda assim havia luar e dava para eu ver que as curvas na 
ponta de seus lbios voltavam-se para cima, e no para baixo.
     Suzannah - disse ele. - O que voc est querendo?
     Nada - respondi, caminhando em direo  garagem e apanhando a bicicleta de dez marchas. - Preciso apenas acertar uma coisas. 
     Jesse aproximou-se de mim enquanto eu botava o capacete.
     Com a Heather? - perguntou, polidamente.
     Isso a. Com a Heather. Sei que as coisas saram do controle da ltima vez, mas dessa vez vai ser diferente...
     Como, exatamente?
     Eu passei a perna por cima daquela barra cretina que eles pem nas bicicletas para garotos e me posicionei bem no alto da rua, com os dedos firmes no guido.
     - Tudo bem - disse ento. - Vou te dar uma colher. Vou fazer um exorcismo.
     Sua mo direita voou e agarrou firme a barra entre minhas mos.
     - Um o qu?! - fez ele, com uma voz completamente destituda do bom humor que a caracterizava at ento.
     Eu engoli em seco. Tudo bem, eu no estava assim to confiante quanto queria parecer. Na realidade, estava praticamente tremendo em cima de meus All-Star. Mas 
que mais podia eu fazer? Eu tinha de deter a Heather antes que ela fizesse mal a algum mais. E seria mesmo sensacional se todo mundo simplesmente me ajudasse nisso.
     Voc no pode me ajudar - fui dizendo, completamente fria. - V se fica afastado de l esta noite, Jesse, caso contrrio poder ser exorcizado tambm.
     Voc perdeu o juzo - disse ele, com o mesmo tom indiferente que eu tinha passado a usar.
     Provavelmente - reconheci, desanimada. 
     Ela vai mat-la - insistiu Jesse. - No est entendendo?  isso que ela quer.
      No - respondi, sacudindo a cabea. - Ela no quer me matar. Primeiro ela quer matar todo mundo que  importante para mim. S depois  que quer me matar.
     Eu funguei. No sei por qu, mas meu nariz estava escorrendo. Provavelmente porque estava muito frio. Eu no entendia como aquelas palmeiras conseguiam ficar 
vivas. Estava fazendo uns cinco graus l fora,
     - Mas ela no vai conseguir, entendeu? - continuei. - Eu vou impedi-la. Agora solte a minha bicicleta.
     Jesse sacudiu a cabea.
     No, no. Nem mesmo voc seria capaz de fazer uma coisa to idiota.
     Nem mesmo eu? - retruquei, meio chateada, mesmo sem querer. - Muito obrigada.
     Ele me ignorou.
     O padre est sabendo disso, Suzannah? Voc contou ao padre?
     Hmm, claro. Ele est sabendo. Ele, hmm... vai se encontrar comigo l.
     O padre vai se encontrar com voc?
     Sim, claro, claro - disse eu, rindo meio nervosa. - Voc no est pensando que eu ia tentar uma coisa dessas sozinha, no  mesmo? Puxa, eu no sou to burra
assim, por mais que voc pense.
     Ele j estava segurando a bicicleta com menos firmeza.
     - Bem, se o padre vai estar l... 
     - Claro, claro. Com toda certeza.
     Ele voltou a segurar firme. A outra mo do Jesse veio vindo na minha direo, e um longo dedo ficou sacudindo bem no meu nariz enquanto ele dizia:
     - Voc est mentindo, no est? O padre no vai estar l coisa nenhuma. Ela o machucou, no  mesmo, hoje de manh? Foi o que eu pensei. Ela o matou?
     Eu balancei a cabea. De repente fiquei sem vontade de falar. Era como se tivesse alguma coisa na minha garganta, uma coisa me machucando.
     Por isso  que voc est com tanta raiva - disse Jesse, pensativo. - Eu devia ter imaginado. Voc est indo l para acertar contas com ela pelo que ela fez 
com o padre.
     E se for isto? - explodi. - Ela bem que merece!
     Ele abaixou o dedo, agarrando o guido da minha bicicleta com as duas mos. E posso dizer que ele era bem forto para um cara que est morto. Eu no conseguia 
me mexer com ele agarrado daquele jeito.
     Suzannah - disse ele. - No  assim que se fazem as coisas. No foi para isto que voc recebeu este extraordinrio dom, no para fazer coisas assim...
     Dom?! - exclamei eu, apertando os dentes para no cair na gargalhada. -  isso a, Jesse. Eu recebi mesmo um dom dos mais preciosos. E sabe o que mais? Estou 
de saco cheio. Mas estou mesmo. Eu achei que vindo para c poderia comear tudo de novo. Achei que as coisas poderiam ser diferentes. E sabe o que mais? So diferentes 
mesmo. So muito piores! 
     Suzannah...
     O que voc acha que eu devo fazer, Jesse? Amar a Heather pelo que ela fez? Abraar seu esprito ferido? Sinto muito, mas  impossvel. Talvez o padre Dom fosse 
capaz, mas eu no e ele est fora da jogada, de modo que vamos fazer as coisas do meu jeito. Vou me livrar dela, e se voc quer o seu prprio bem, Jesse, fica fora 
dessa.
     Dei um tranco bem forte no pedal e ao mesmo tempo agarrei o guido com toda fora. Foi to inesperado para o Jesse, que ele largou a bicicleta involuntariamente. 
Um segundo depois eu estava a caminho, projetando cascalho para trs com a roda traseira e cobrindo Jesse de poeira. Enquanto ia descendo pela rua, ainda pude ouvi-lo 
dizer um monte de coisas em espanhol. Provavelmente estava xingando. E com toda certeza a palavra hermosa no foi pronunciada.
     Grande parte da paisagem que ia percorrendo ao descer eu no consegui ver. O vento estava to frio que ficavam saltando lgrimas pelas minhas bochechas e at
o meu cabelo. Felizmente no havia muito trnsito, de modo que quando eu atravessei o cruzamento, no tinha importncia que no estivesse vendo muita coisa. De qualquer 
maneira, os carros iam parando para eu passar.
     Eu sabia que dessa vez seria mais difcil entrar no colgio. Eles deviam ter aumentado a segurana por causa do que acontecera na noite anterior. Mais segurana? 
A verdade  que bastava terem providenciado alguma segurana. 
     E foi o que fizeram. Havia um carro da polcia no estacionamento, com as luzes apagadas. Simplesmente l, parado, com o luar refletido nos vidros das janelas 
fechadas. O motorista - com certeza um novato, para ser encarregado de uma misso to chata - provavelmente estava ouvindo msica, embora de onde eu estava, junto 
ao porto do estacionamento, no desse para ouvir nada.
     De modo que eu ia precisar encontrar uma outra maneira de entrar. Sem problema. Escondi a bicicleta num arbusto e calmamente fui dar uma volta ao redor do colgio.
     No  muito fcil impedir que uma garota de 16 anos razoavelmente esbelta entre num prdio. Eu sou um bocado flexvel. E tambm tenho juntas bem elsticas. 
No vou contar aqui como  que acabei conseguindo entrar, pois no quero que as autoridades escolares descubram (nunca se sabe, pode ser que eu precise fazer tudo 
de novo algum dia), mas digamos que se algum  encarregado de fazer um porto  melhor ter certeza de que ele chegou mesmo at o cho. Aquele vo entre o cimento 
e o ponto onde comea a base do porto  exatamente o espao de que uma garota como eu precisa para se insinuar.
     L dentro do estacionamento, as coisas pareciam bem diferentes da noite anterior - e muito mais aterrorizantes. Todos os holofotes estavam apagados (o que no 
me parecia exatamente uma boa medida de segurana, mas  claro que a Heather podia perfeitamente ter arrebentado todas as lmpadas), de modo que toda a rea estava
escura e cheia de sombras assustadoras. A fonte tambm estava desligada.
     Dessa vez, s dava para ouvir os grilos. S grilos cantando nos hibiscos. Nada de errado com os grilos. Os grilos so amigos.
     No havia o menor sinal da Heather. No havia qualquer sinal de ningum. O que era bom.
     Fui caminhando com o mximo de cuidado (o que no era to difcil com os meus tnis) at o armrio que eu estava... compartilhando com a Heather. A me ajoelhei 
e abri minha mochila.
     Primeiro, acendi as velas. Precisava delas para enxergar ao redor. Segurando um acendedor de grelha de churrasco que havia trazido contra a base de uma das 
velas, derreti e pinguei um pouco de cera no piso e firmei a vela naquela goma. Repeti a operao com todas as outras velas at formar um crculo luminoso  minha 
frente. Abri ento a tampa do recipiente com o sangue de galinha.
     No vou descrever aqui a forma que eu tinha de desenhar no centro do crculo de velas para que o exorcismo desse certo. Exorcismo  o tipo da coisa que a gente 
no deve tentar fazer em casa, por pior que seja a assombrao. E s deve ser confiado a uma profissional como eu. Afinal, ningum ia querer machucar algum fantasma 
inocente que estivesse s passando por ali. Tipo exorcizar a vov ou coisa do gnero...
     E tambm no  recomendvel que as pessoas comecem a mexer com macumba, e por isto no vou repetir aqui a invocao que tive de fazer em portugus mesmo. Digamos 
apenas que mergulhei meu pincel no sangue de galinha e fiz o desenho adequado, emitindo as palavras exigidas. Foi s quando retirei a fotografia da Heather da mochila 
que notei que os grilos haviam parado de cantar.
     - Que diabos voc acha que est fazendo? - disse ela, bem atrs do meu ombro.
     Eu no respondi. Botei a foto no centro da forma que eu havia pintado. Ela ficou bem iluminada pelas velas. Heather aproximou-se mais.
     - Onde foi que arranjou esta foto minha?
     Eu me limitei a pronunciar as palavras que tinha de dizer em portugus. O que pareceu irritar ainda mais a Heather.
     Bom, parece mesmo que temos de reconhecer que tudo irritava a Heather.
     - O que voc pensa que est fazendo? - perguntou ela de novo. - Que lngua  essa que est falando? E para que esta pintura vermelha?
     Como eu no respondesse, a Heather comeou a ficar ainda mais abusada - o que parecia ser a sua especialidade.
     - Olha aqui, sua vaca - foi dizendo, botando a mo no meu ombro e me puxando nada delicadamente. - Est me ouvindo?
     Eu interrompi o ritual.
     - Pode me fazer um favor, Heather? - perguntei. - Quer ficar bem ali perto do seu retrato?
     Heather sacudiu a cabea e seus longos cabelos loiros reluziram  luz das velas.
     - O que est acontecendo com voc? - perguntou ela com grosseria. - Est bbada por acaso? No vou ficar em lugar nenhum. Isso a... isso  sangue? 
     Eu dei de ombros. Ela continuava com a mo no meu ombro.
     Sim - respondi. - Mas no se preocupe.  s sangue de galinha.
     Sangue de galinha? - repetiu Heather com uma careta. - Chocante. Est brincando comigo? Para que isto?
     Para te ajudar - respondi. - Para te ajudar a ir embora.
     Heather apertou os dentes. As portas dos armrios comearam a sacudir. Mas no muito. S o suficiente para que eu ficasse sabendo que a Heather no estava nada 
satisfeita.
     Pensei que tinha deixado bem claro ontem  noite que eu no vou a lugar nenhum - disse ela.
     Voc disse que queria ir embora.
     Exatamente - respondeu ela, enquanto os segredos das trancas dos armrios comeavam a girar ruidosamente. - Para minha antiga vida.
     Pois eu descobri uma maneira...
     As portas comearam a parecer tambores, de tanto que sacudiam.
     Esquece - respondeu ela.
     Esquece, no: lembra. Voc s precisa ficar de p aqui, no meio dessas velas, perto do seu retrato.
     Nem precisei insistir. Num segundo, ela estava exatamente onde eu queria que estivesse.
     Tem certeza de que isto vai funcionar? - quis saber, toda excitada.
      melhor que funcione, caso contrrio terei desperdiado minha cota de velas e sangue de galinha - respondi. 
     E as coisas vo voltar a ser exatamente como eram? Quer dizer, como eram antes de eu morrer?
     Claro - respondi. Fiquei me perguntando se era o caso de me sentir culpada por estar mentindo. Eu no me sentia nem um pouco culpada. S sentia um grande alvio. 
Tinha sido tudo to fcil. - Agora fique calada um pouco para eu dizer as palavras.
     Ela estava louca para colaborar. Ento eu disse as palavras
     E disse as palavras.
     E disse as palavras de novo.
     Eu j estava comeando a me preocupar, achando que nada ia acontecer, quando a luz das velas comeou a tremer. E no estava passando nenhum vento.
     - No est acontecendo nada - queixou-se a Heather, mas eu mandei que ela se calasse.
     As chamas voltaram a tremer. De repente, acima da cabea da Heather, onde devia estar o telhado da galeria, apareceu um buraco cheio de gases vermelhos dando 
voltas. Eu fiquei olhando para aquele buraco.
     Heather,  melhor voc fechar os olhos - disse ento. Ela prontamente obedeceu.
     Por qu? Est funcionando?
      - disse eu. - Est funcionando sim.
     Heather disse alguma coisa do tipo "legal", mas no pude ouvir bem. No dava para ouvir direito porque o gs vermelho que ficava girando no ar, e que parecia 
mesmo uma fumaa, estava comeando a sair do buraco e fazia uma espcie de ronco. Logo depois, longos anis daquela coisa comearam a envolver a Heather, difanos 
como uma bruma. S que ela no sabia, pois estava de olhos fechados.
     - Estou ouvindo alguma coisa - disse ela. - Est acontecendo?
     Acima de sua cabea, o buraco havia aumentado muito. Dava para ver uns relmpagos l dentro. No parecia o lugar mais atraente do mundo. No estou dizendo que 
eu tinha aberto uma porta para o inferno ou coisa parecida (pelo menos era o que eu esperava), mas certamente se tratava de uma dimenso que no era a nossa, e com 
toda franqueza no parecia um lugar muito agradvel para visitar, muito menos para viver por toda a eternidade.
     - S mais um minutinho e voc chega l - disse eu, enquanto aumentava o nmero de anis vermelhos de fumaa ao redor daquele corpinho de animadora de torcida.
     Heather ajeitou os cabelos longos.
     - Oh meu Deus! - fez ela. - Mal posso esperar. A primeira coisa que vou fazer  ir ao hospital pedir desculpas ao Bryce. Voc no acha uma boa idia, Suzinha?
     Eu respondi, enquanto o trovo aumentava e os relmpagos ficavam mais freqentes:
     Claro,  uma grande idia.
     Tomara que a minha me no tenha jogado minhas roupas fora - prosseguiu a Heather. - S porque eu estava morta. Voc acha que a minha me pode ter jogado fora 
as minhas roupas, Suzinha? Acha mesmo? - insistiu ela, abrin do os olhos.
     Eu gritei: 
     - Fique de olhos fechados!
     Mas j era tarde. Ela j tinha visto. Puxa vida, ela tinha visto. Ficou meio segundo olhando para aqueles anis ao seu redor e comeou a berrar.
     E no estava berrando de medo, no senhor. A Heather no estava com medo. Estava furiosa. Para valer.
     - Sua vaca! - gritou. - Voc no est me mandando de volta! No mesmo! Est me mandando embora!
     E de repente, no momento em que o trovo comeava a ficar ainda mais forte, a Heather saiu do crculo.
     Assim mesmo. Ela simplesmente deu um passo para fora. Como se no tivesse a menor importncia. Como no jogo da amarelinha. Aqueles anis de fumaa que estavam 
ao redor dela simplesmente desapareceram. Sumiram como fumaa. E o buraco acima da cabea de Heather se fechou.
     Bom, vou ter de confessar que fiquei muito danada. Eu tinha tido um trabalho enorme para conseguir aquilo.
     - Ah, no - resmunguei, aproximando-me da Heather e agarrando-a, pelo pescoo mesmo. - Volte j para l. Volte para l imediatamente - disse, com os dentes 
trincados.
     Heather limitou-se a rir. Estava presa numa gravata, e ainda ria.
     Por trs dela, no entanto, as portas dos armrios comearam a se sacudir de novo. Mais alto que nunca.
     - Voc  uma mulher morta - disse ela. - Voc j est morta, Simon. E sabe o que mais? Vou dar um jeito para que os outros tambm se juntem a voc. Todos aqueles 
seus amigos esquisitos. E aquele seu meio-irmo tambm. 
     Eu apertei ainda mais o seu pescoo.
     - No creio. Acho mesmo  que voc vai voltar para onde estava e desaparecer como um fantasma bem bonzinho.
     Ela riu de novo.
     - Vamos ver isto, ento - desafiou, com os olhinhos azuis brilhando enlouquecidamente.
     Bem, se era assim que ela queria...
     Dei-lhe um murro daqueles com o punho direito. E antes que ela conseguisse se recuperar, acertei-lhe um outro com a esquerda. Se ela sentiu os golpes, no deixou 
transparecer. No, no  verdade. Eu sei que ela sentiu os golpes porque as portas dos armrios de repente comearam a abrir e fechar. Fechar no  bem a palavra. 
Comearam a abrir e a bater, mas a bater com muita fora mesmo, sacudindo toda a galeria.
     No estou brincando. A galeria toda estava indo e vindo, como se o piso fosse de ondas do mar. As grossas pilastras de madeira que sustentavam o telhado arqueado 
se sacudiam naquele cho que as mantivera firmes e fortes por quase trezentos anos. Trezentos anos de terremotos, incndios e inundaes, e bastava o fantasma de 
uma animadora de torcida para que elas tremessem nas bases.
     Como vocs podem ver, essa histria de mediao no tem nada de divertido.
     E de repente eram os dedos dela que estavam ao redor da minha garganta. No sei como foi possvel. Acho que eu devo ter ficado perturbada com aquele tremor 
todo. A coisa estava muito esquisita. Eu a agarrei pelos braos e comecei a tentar empurr-la de volta para o crculo de velas. Ao mesmo tempo, murmurava a invocao 
em portugus sem tirar o olho dos caibros que ondulavam l em cima, na esperana de que o buraco voltasse a se abrir para a terra das sombras.
     - Cala a boca! - gritou a Heather quando ouviu o que eu estava dizendo. - Cala essa boca! Voc no vai me mandar embora! Meu lugar  aqui!  muito mais o meu 
lugar do que o seu!
     Eu ficava repetindo as palavras. E continuava a empurr-la.
     - Quem voc pensa que ? - gritava Heather com o rosto vermelho de raiva. Com o canto dos olhos, eu vi um vaso de gernios levitar alguns centmetros acima 
da balaustrada de pedra em que se encontrava. - Voc no  ningum! Voc s est no colgio h dois dias. Dois dias! Est pensando que pode ir chegando e mudar tudo? 
Acha que pode simplesmente ir tomando o meu lugar? Quem voc pensa que ?
     Eu chutei uma perna e, agarrando bem os braos dela, dei-lhe uma rasteira e ambas camos no cho. O vaso de flores foi atrs, no porque tivssemos esbarrado 
nele, mas porque a Heather o atirou contra mim. Eu me abaixei no ltimo instante, e o pesado vaso de argila se espatifou contra os armrios, numa exploso de terra, 
gernios e cacos de barro. Agarrei a Heather pelos longos e lindos cabelos louros. No era um gesto dos mais elegantes, mas tambm no tinha sido muito elegante 
da parte dela atirar gernios em mim. 
     Ela comeou a berrar de novo, chutando e se retorcendo como uma enguia, enquanto eu a arrastava e ao mesmo tempo a empurrava em direo ao crculo de velas. 
Ela havia comeado a fazer outros objetos levitarem. As trancas saltaram das portas dos armrios e voaram em minha direo como pequenos discos voadores. Depois 
surgiu um tornado, sugando tudo que estava dentro dos armrios para a alameda, de modo que apostilas e fichrios voavam para cima de mim de todas as direes. Eu 
fiquei com a cabea abaixada, mas no perdi o controle dela quando o livro de trigonometria de algum me atingiu em cheio no ombro. E ficava repetindo as palavras 
que certamente haveriam de abrir de novo aquele buraco.
     Por que voc est fazendo isto? - berrou Heather. - Por que simplesmente no me deixa em paz?
     Porque no.
     Eu estava lanhada, sem flego, pingando de suor, s pensando em largar ela ali mesmo, dar meia-volta e ir para casa, jogar-me na cama e dormir por um milho 
de anos.
     Mas no podia.
     Ento o que fiz foi dar-lhe um murro bem no peito, mandando-a de volta para o meio do crculo de velas. E no exato momento em que ela tropeou na foto que havia 
dado ao Bryce, o buraco que aparecera acima de sua cabea voltou a se abrir. Desta vez a fumaa vermelha fechou-se em torno dela como um sufocante e espesso cobertor 
de l. Ela no ia se soltar de novo. No com aquela facilidade. 
     A fumaa vermelha a seu redor era to espessa que eu j no podia v-la, mas certamente a ouvia. Seus gritos dariam para despertar os mortos - s que ela era 
a nica morta ali, naturalmente. Troves ribombavam acima de sua cabea. L dentro do buraco que voltara a se abrir, eu julgava estar vendo estrelas brilharem.
     Por qu? - berrava Heather. - Por que est fazendo isto comigo?
     Porque eu sou a mediadora - respondi.
     E de repente duas coisas aconteceram quase simultaneamente.
     A fumaa vermelha que envolvia a Heather comeou a ser sugada para o buraco que girava em espiral, levando-a consigo.
     E os poderosos pilares que sustentavam a galeria partiram-se em dois como se fossem de gesso.
     E foi a que a galeria desmoronou em cima de mim.
     

      Captulo 18
      
     No tenho a menor idia de quanto tempo eu fiquei l deitada debaixo das pranchas de madeira e das telhas quebradas do desmoronamento. Pensando bem, devo ter
perdido a conscincia, ainda que por alguns minutos apenas.
     S lembro de uma coisa dura batendo na minha cabea, e quando vi estava tudo completamente escuro ao meu redor e parecia que eu ia sufocar.
     Um dos truques favoritos de certos fantasmas  sentar-se no peito da vtima quando ela est despertando, para que a pobre coitada pense que est sendo sufocada 
sem saber por qu. Eu no estava entendendo direito o que estava acontecendo, e por alguns instantes cheguei a pensar que tinha fracassado e que a Heather ainda 
estava neste mundo, sentada no meu peito, torturando-me e se vingando do que eu tentara fazer. 
     Mas a eu pensei que talvez estivesse morta.
     No sei por qu. Mas me ocorreu. Talvez fosse daquele jeito, estar morto. Pelo menos inicialmente. Era assim que a Heather devia ter-se sentido quando acordou 
no seu caixo. Devia ter-se sentido do mesmo jeito que eu naquela hora: presa, sufocada, paralisada pelo medo. Minha nossa, no  de estranhar que ela estivesse 
sempre to mal-humorada. Ela s podia mesmo estar querendo voltar desesperadamente para o mundo que conhecera antes de morrer. Aquilo era horrvel. Era pior do que 
horrvel. Era o inferno.
     Mas a eu mexi uma das mos, a nica parte do corpo que ainda conseguia mexer, e senti uma coisa spera e fria sobre mim. Foi ento que entendi o que havia 
acontecido. A galeria tinha desmoronado. A Heather tinha usado seu ltimo restinho de poder de movimentar as coisas para me atingir. E tinha feito um belo trabalho, 
pois eu no conseguia me mexer, presa debaixo de sabe-se l quantos quilos de madeira e telhas espanholas.
     Legal, Heather. Obrigada mesmo,
     Eu devia estar com medo, pois estava completamente paralisada, incapaz de me mexer, na mais total escurido. Mas antes mesmo que pudesse entrar em pnico, ouvi 
algum me chamando pelo nome. No incio achei que podia estar ficando louca. Afinal, ningum sabia que eu tinha ido ao colgio, exceto o Jesse, claro, e eu deixara 
bem claro para ele o que lhe aconteceria se aparecesse por l. Ele no era burro. Sabia perfeitamente que eu ia fazer um exorcismo. Ser que tinha decidido aparecer 
assim mesmo? Ser que tudo j tinha se acalmado? Eu no sabia. E se ele entrasse no crculo de velas e sangue de galinha, ser que seria sugado para o mesmo mundo 
de sombras que havia levado a Heather? Agora eu estava comeando a entrar em pnico.
     - Jesse! - berrei, esmurrando o pedao de madeira que estava bem em cima de mim e recebendo no rosto uma pequena chuva de lascas de madeira e poeira. - Sai 
da! - gritei. Aquela poeira toda estava me asfixiando, mas eu no me importava. - Vai embora!  perigoso!
     De repente, um enorme peso foi retirado do meu peito e eu voltei a ver. Acima de mim estava o cu de um azul de veludo, salpicado de uma poeira de estrelas. 
E naquela moldura de estrelas um rosto se debruava sobre mim com expresso preocupada.
     - Ela est aqui! - gritou o Mestre, com a voz quase irreconhecvel. - Jake, eu a encontrei!
     Um outro rosto veio juntar-se ao primeiro, envolto numa moldura de longos cabelos loiros.
     - Jesus Cristo - disse Soneca ao me ver, com a voz arrastada. - Voc est bem, Suze?
     Eu fiz que sim com a cabea, atordoada.
     - Me ajudem a sair daqui - disse ento.
     Os dois conseguiram tirar de cima de mim os pedaos maiores de madeira. Depois o Soneca mandou que eu passasse meus braos ao redor do seu pescoo, o que eu 
fiz, enquanto o David me segurava pela cintura. Com os dois me puxando e eu empurrando com os ps, finalmente consegui me livrar dos escombros. 
     Ficamos um minuto sentados na escurido do ptio, recostados no pedestal da esttua decapitada de Junipero Serra. Simplesmente ficamos ali, ofegando e olhando 
as runas do colgio. Bom, acho que estou exagerando um pouco. A maior parte do colgio ainda estava de p. E por sinal o mesmo tambm acontecia com a maior parte 
da galeria. S havia desabado a parte que ficava em frente ao armrio da Heather e  sala de aula do professor Walden. Aquele monte de madeira retorcida convenientemente 
ocultava qualquer resqucio de minhas atividades noturnas, inclusive as velas, que naturalmente haviam desaparecido. No havia qualquer sinal da Heather. A noite 
parecia perfeitamente tranqila, s ouvamos nossa prpria respirao. E os grilos.
     Foi assim que eu fiquei sabendo que a Heather realmente tinha ido embora. Os grilos haviam voltado a cantar.
     - Minha nossa! - voltou a dizer o Soneca, ainda ofegante. - Tem certeza de que est bem, Suze?
     Voltei-me para ele. Ele estava usando apenas um par de jeans e uma jaqueta do exrcito, que tinha enfiado sem nem ter tempo para vestir antes uma camisa. Pude 
ver ento que o Soneca tinha a mesma barriga de tanque que o Jesse.
     Como  que eu podia quase ter morrido sufocada e ainda estar ali minutos depois observando coisas como os msculos abdominais do meu meio-irmo?
     - Claro - respondi, afastando uma mecha de cabelo dos olhos. - Eu estou bem. Talvez um pouco zonza, mas nada quebrado. 
     Talvez seja melhor lev-la para o hospital para um check-up - disse David com a voz ainda bem alterada. - Voc no acha que  melhor lev-la para o hospital 
para um check-up, Jake?
     No - disse eu. - Nada de hospital.
     Voc pode ter tido uma concusso - insistiu David. - Ou uma fratura do crnio. Voc pode at entrar em coma durante o sono e nunca mais voltar. Precisa pelo 
menos tirar uma radiografia. Talvez at seja bom uma tomografia...
     No - cortei, sacudindo a poeira do meu colante com as mos e levantando-me. Meu corpo estava bem maltratado, mas inteiro. - Vamos. Vamos embora daqui antes 
que chegue algum. Eles no podem deixar de ter ouvido tudo isto - prossegui, apontando com o queixo para a parte do complexo onde viviam os padres e as freiras. 
Em algumas janelas j se viam as luzes acesas. - No quero que vocs tenham problemas.
     Isso a - concordou Soneca, levantando-se. - Mas voc bem que podia ter pensado nisso antes...
     Samos do mesmo jeito que havamos entrado. Como eu, David tambm passara por baixo do porto principal, destrancando-o por dentro para deixar o Soneca entrar. 
Samos o mais discretamente possvel e corremos para o Rambler, que o Soneca havia estacionado num lugar mais escuro, fora do raio de viso do carro da polcia. 
Este ainda estava no mesmo lugar e seu ocupante no tinha sequer tomado conhecimento do que havia acontecido a algumas dezenas de metros de distncia. Ainda assim, 
eu no queria correr nenhum risco, tentando passar despercebida por ele para pegar a bicicleta. Deixamos que ela ficasse l, na esperana de que ningum a encontraria.
     No caminho para casa, meu novo irmozo Jake ficou o tempo todo me passando sermo. Provavelmente ele estava pensando que eu estava no colgio no meio da noite 
participando de alguma cerimnia de gangue. No estou brincando. Ele estava realmente furioso com a coisa. Queria saber se eu estava consciente do tipo de amigos 
que vinha freqentando, gente disposta a me deixar morrer debaixo de um monte de telhas. Disse que se eu estivesse entediada ou em busca de emoes fortes o melhor 
que tinha a fazer era pegar uma prancha de surf e ir para a praia:
     - Se  para rachar a cabea ao meio, pelo menos que seja pegando uma onda, garota.
     Agentei aquele sermo com a maior elegncia possvel. Afinal, eu no podia exatamente dizer a ele o real motivo para estar no colgio quela hora. S interrompi 
o Jake uma vez durante seu discurso contra as gangues, para perguntar como ele e David tinham tido a idia de ir me buscar.
     - No sei - respondeu Jake enquanto subamos a rua. - S sei que eu estava pegando pesado no sono quando de repente o Dave estava me sacudindo, dizendo que 
tnhamos de ir ao colgio para te encontrar. E como  que voc sabia que ela estava l, Dave?
     O rosto do David estava excepcionalmente branco, mesmo levando-se em conta a luz do luar. 
     - No sei - respondeu ele tranqilamente. - Acho que foi s uma intuio.
     Voltei-me para ele, mas ele desviou o olhar.
     E eu fiquei pensando: esse garoto est sabendo.
     Mas eu estava cansada demais para falar a respeito naquela hora. Entramos em casa, aliviados porque o nico morador que acordou com nossa chegada foi o Max, 
que ficou sacudindo o rabo e tentando nos lamber enquanto nos encaminhvamos para nossos quartos. Antes de entrar no meu quarto, olhei para o David s uma vez, para 
ver se queria ou precisava dizer-me alguma coisa. Mas no. Ele simplesmente foi entrando no seu quarto e fechando a porta, como um menininho assustado. Meu corao 
se encheu de orgulho por ele.
     Mas s durou um segundo. Eu estava cansada demais para pensar em alguma outra coisa que no fosse a cama - nem mesmo no Jesse. Amanh de manh, pensei, enquanto 
tirava minhas roupas cheias de poeira. Amanh de manh eu falo com ele.
     Mas no falei. Quando acordei, a luz do lado de fora da minha janela estava estranha. Quando levantei a cabea e vi o relgio, entendi por qu. Eram duas horas 
da tarde. Toda aquela bruma da manh j se tinha dissipado e o sol castigava como se estivssemos em pleno vero e no no ms de janeiro.
     - Muito bem, hein, dorminhoca.
     Olhei na direo da porta do quarto e l estava o Andy, recostado no portal com os braos cruzados. Ele estava sorrindo, o que provavelmente queria dizer que 
estava tudo bem. Mas ento o que eu estava fazendo na cama s duas horas da tarde de um dia de aula?
     - Est se sentindo melhor? - quis saber o Andy.
     Eu empurrei um pouco as cobertas. E se eu estivesse doente? No seria nada difcil fingir. Eu estava mesmo me sentindo como se tivessem jogado uma tonelada 
de tijolos na minha cabea.
     O que, de certa forma, no estava muito longe da verdade.
     Hmm - fiz eu. - No muito.
     Vou lhe trazer uma aspirina. Parece que o cansao da viagem te pegou de jeito, hein! Como no conseguimos te acordar hoje cedo, decidimos deix-la dormir. Sua 
me pediu que a desculpasse, mas teve de ir para o trabalho. Deixou-me cuidando das coisas. Espero que voc no se importe.
     Eu tentei sentar-me, mas estava difcil. Parecia que eu tinha sido espancada em cada msculo do corpo. Afastei o cabelo dos olhos e olhei para ele:
     - No precisava - disse. - No precisava ter ficado em casa por minha causa.
     Andy deu de ombros.
     - No faz mal. Praticamente no tenho conseguido falar com voc desde que voc chegou, e achei ento que a gente podia botar a conversa em dia. Quer alguma 
coisa para almoar?
     No exato momento em que ele fez a pergunta, meu estmago deu um ronco. Eu estava morta de fome. 
     Ele ouviu e abriu um sorriso:
     - Sem problema. Vista-se e desa. Vamos almoar ao ar livre. O dia est lindo.
     Precisei me esforar para sair da cama. Eu estava de pijama e sem muita vontade de me vestir. De modo que apenas vesti um par de meias e um roupo, escovei 
os dentes e fiquei uns momentos olhando pela janela enquanto tentava desembaraar o cabelo. A cpula vermelha da igreja da Misso brilhava no sol. Por trs dela, 
dava para ver o mar reluzindo.  distncia, ningum diria que tanta destruio havia acontecido ali na noite anterior.
     No demorou e um delicioso cheiro de comida chegou l da cozinha, e decidi descer a escada. Andy estava fazendo sanduches Reuben. Mas ele foi logo me expulsando 
da cozinha em direo ao enorme deque que tinha construdo atrs da casa. A rea estava inundada de sol e eu me estirei numa das chaises longues, me sentindo por 
alguns momentos como uma estrela de cinema. Pouco depois o Andy chegou com os sanduches e uma jarra de limonada, e eu fui para a mesa com o pra-sol verde e mandei 
ver. Para um no nova-iorquino, at que o Andy fazia um Reuben razovel.
     Ele passou bem uma meia hora me fazendo um verdadeiro interrogatrio... mas no sobre o que havia acontecido na noite da vspera. Para minha surpresa, Soneca 
e Mestre tinham ficado de boca fechada. Andy estava completamente por fora do que tinha acontecido. S queria saber se eu estava gostando do colgio, se estava feliz, 
blablabl... 
     S tinha um detalhe. Enquanto me perguntava se eu estava gostando da Califrnia, e se era realmente to diferente assim de Nova York (sorveto), ele acabou 
dizendo:
     - Quer dizer ento que voc dormiu tranqilamente durante o seu primeiro terremoto...
     Eu quase me engasguei.
     O qu?
     O seu primeiro terremoto. Houve um terremoto esta noite, por volta das duas horas. No foi dos mais fortes, apenas uns quatro graus, mas o suficiente para me 
acordar. Nada foi destrudo, exceto l na Misso. A galeria desmoronou. O que alis no deve ter surpreendido. H anos eu venho avisando os padres sobre o perigo 
daquela madeira.  quase to antiga quanto a prpria Misso. No se podia esperar mesmo que durasse para sempre.
     Eu estava mastigando mais devagar. Minha nossa. A despedida da Heather devia mesmo ter dado umas boas sacudidelas, para se fazer sentir daquele jeito por todo 
o vale e at nas colinas.
     Mas isto ainda no explicava por que o David decidira ir me procurar no colgio.
     Eu tinha voltado para o quarto e estava no assento da janela folheando uma revista de moda bem bobinha, tentando imaginar onde o Jesse tinha ido parar, quanto 
tempo ainda teria de esperar at que ele voltasse a aparecer para me fazer mais um dos seus sermes e se ele ainda seria capaz de me chamar novamente de hermosa,
quando os garotos chegaram do colgio. Dunga passou direto pelo meu quarto (ele ainda no tinha me perdoado por ter ficado de castigo) mas o Soneca mostrou a cabea,
viu que eu estava bem e foi embora, balanando a cabea. O nico a bater na porta foi o David. Eu o convidei a entrar, e ele entrou, timidamente.
     Trouxe o seu dever de casa. O professor Walden me deu para entregar a voc. Mandou dizer que espera que voc esteja melhor.
     Puxa - disse eu. - Obrigada, David. Pode deixar a na cama.
     Foi o que ele fez. Mas em vez de se retirar, ele ficou ali, olhando para a guarda da cama. Percebi que estava querendo dizer alguma coisa e fiquei calada, esperando 
que ele resolvesse se abrir,
     Cee Cee mandou um beijo - disse ele. - E aquele outro cara tambm, o Adam McTavish.
     Legal - respondi.
     Fiquei esperando. David no me desapontou.
     Est todo mundo comentando - foi dizendo.
     Comentando o qu?
     Voc sabe. O terremoto. Que a Misso deve estar bem em cima de alguma falha geolgica que ainda era desconhecida, pois o epicentro parece ter sido... bem do 
lado da sala de aula do professor Walden.
     Eu fiz apenas "hmm" e virei a pgina da revista.
     - Quer dizer ento que voc nunca vai me contar?... - fez o David.
     Eu nem olhei para ele. 
     Contar o qu?
     O que est acontecendo. Por que voc estava no colgio no meio da noite. Como a galeria desmoronou. Tudo isso.
      melhor voc no ficar sabendo - respondi, virando a pgina. - Confie em mim.
     Mas no tem nada a ver com... com o que o Jake disse, certo? Essa histria de gangue.
     No - respondi.
     Olhei ento para ele. O sol, entrando pela janela, ressaltava o rosado da sua pele. Aquele garoto, com seus cabelos ruivos e as orelhas pontudas, tinha salvo 
a minha vida. Eu lhe devia uma explicao, era o mnimo que podia fazer.
     Eu vi, sabia? - disse David.
     Viu o qu?
     O fantasma.
     Ele estava olhando para mim, plido e intenso. Parecia srio demais para um guri de doze anos.
     Que fantasma? - perguntei.
      O que vive aqui. Neste quarto. - Ele olhou ao redor, como se esperasse encontrar o Jesse em algum cantinho do meu ensolarado quarto. - Ele me procurou esta 
noite. Juro. Me acordou. Ficou me falando sobre voc. Foi assim que fiquei sabendo. Foi assim que eu soube que voc estava enrascada.
     Fiquei olhando para ele de queixo cado. O Jesse? O Jesse tinha contado para ele? O Jesse o tinha acordado?
     - Ele no me deixava em paz - prosseguiu David, com a voz trmula. - Ele ficava... me tocando. No ombro. Era frio e reluzia. Era apenas uma coisa fria e reluzente, 
e dentro da minha cabea uma voz ficava me dizendo que eu tinha de ir ao colgio para te ajudar. No estou mentindo, Suze. Juro que aconteceu realmente.
     - Eu sei, David - disse eu, fechando a revista. - Acredito em voc.
     Ele j estava de novo com a boca aberta para jurar outra vez que era tudo verdade, mas ao me ouvir dizer que acreditava nele voltou a fech-la. S voltou a 
abri-la para perguntar, meio desconfiado:
     Acredita mesmo?
     Acredito - respondi. - No pude dizer ontem  noite mas estou dizendo agora. Obrigada, David. Voc e o Jake salvaram a minha vida.
     Ele estava tremendo. Precisou sentar na minha cama, caso contrrio poderia at cair.
     - Ento... - disse ele. - Ento  verdade? Quer dizer que foi mesmo o... o fantasma?
     -Foi.
     Ele ficou um tempo digerindo a resposta.
     E por que voc estava no colgio?
      uma longa histria - respondi. - Mas juro que no tinha nada a ver com gangues.
     Ele ficou piscando para mim.
     Ento tem a ver com... o fantasma?
     No o que te visitou. Mas tinha mesmo a ver com um fantasma. 
     Os lbios do David se mexeram, mas acho que ele no estava muito consciente de estar falando. Da sua boca saiu aquela pergunta espantada:
     Existe mais de um?
     Ah, muito mais de um - respondi. Ele continuava olhando fixo para mim.
     E voc... voc  capaz de v-los?
     - David - disse eu ento -, no  uma coisa que eu me sinta  vontade para comentar...
     - Voc viu o da noite passada? O que foi me acordar?
     - Sim, David. Eu o vi.
     - E sabe quem ? Sabe como ele morreu? Eu balancei a cabea.
     No. No se lembra? Voc ia investigar para mim. Ele pareceu despertar.
     - Ah, claro! Esqueci. Estive consultando uns livros ontem. Espere um minuto s. No saia da.
     Ele saiu correndo do quarto, j completamente esquecido do choque que acabara de sofrer. Eu fiquei exatamente onde estava, como ele havia pedido. Fiquei me 
perguntando se o Jesse estava por ali ouvindo. E achei que seria muito bom para ele se estivesse.
     Segundos depois o David estava de volta, trazendo uma pilha de enormes livros empoeirados. Pareciam muito velhos, e quando ele sentou ao meu lado e comeou 
a folhe-los sofregamente, eu vi que eram mesmo muito antigos. Nenhum deles tinha sido publicado depois de 1910. O mais antigo tinha sido publicado em 1849. 
     Veja - disse David, folheando um grande volume encadernado em couro intitulado A minha Monterey, de um certo coronel Harold Clemmings. O estilo narrativo do 
coronel era dos mais maantes, mas o livro tinha ilustraes, o que no deixava de ajudar, embora fossem em preto-e-branco.
     Veja - voltou a dizer o David, mostrando a reproduo de uma fotografia da casa em que estvamos. S que ela estava muito diferente, sem a varanda nem a garagem. 
As rvores ao redor tambm eram bem menores. - Olha s,  a casa quando ainda era um hotel. Ou uma estalagem, como diziam na poca. Est dizendo aqui que a casa 
tinha pssima fama. Muitas pessoas foram assassinadas aqui. Esse coronel Clemmings conta uma poro de detalhes. Voc acha que o fantasma que veio falar comigo ontem 
 noite  uma delas? Uma das pessoas que morreram aqui?
     Bem - disse eu -, muito provavelmente.
     David comeou a ler em voz alta - depressa e de uma maneira inteligente, sem tropear nas palavras antigas mais difceis - as diversas histrias das pessoas 
que tinham morrido na Casa da Colina, como a chamava o coronel Clemmings.
     Mas nenhuma daquelas pessoas chamava-se Jesse. Nenhuma delas nem de longe se parecia com ele. Ao terminar, David olhou para mim cheio de expectativa:
     - Talvez seja o fantasma daquele dono de lavanderia chins - disse. - O tal que levou um tiro porque aquele janota no achava que ele estava lavando direito 
as suas camisas. 
     Eu sacudi a cabea.
     No. O nosso fantasma no  chins.
     Ah... - e David voltou a consultar o livro. - E este aqui? O tal que foi morto pelos escravos...
     Acho que no - disse eu. - Ele tinha apenas um metro e sessenta de altura.
     E este outro aqui? O dinamarqus que foi apanhado trapaceando nas cartas e levou um tiro...
     Ele no  dinamarqus - respondi, dando um suspiro. David franziu a boca.
     Ento o que ele era? Eu balancei a cabea.
     - No sei. Tem alguma coisa de espanhol. E tambm... - mas eu no queria ficar falando disso bem ali no meu quarto, onde o Jesse podia estar ouvindo, aqueles 
detalhes sobre os olhos midos e os longos dedos morenos...
     Quer dizer, eu no queria que ele ficasse achando que eu gostava dele ou coisa assim.
     Foi a que eu lembrei do leno. Quando acordei na manh seguinte, depois de lavar o sangue, ele tinha desaparecido, mas eu ainda lembrava as iniciais. MDS.
     - Essas letras te dizem alguma coisa?
     Ele ficou pensando por uns momentos. Depois fechou o livro do coronel Clemmings e abriu um outro, ainda mais velho e empoeirado. Era to antigo que o ttulo 
havia desaparecido da lombada. Mas quando David o abriu, pude ver o ttulo na folha de rosto: A Vida no norte da Califrnia de 1800 a 1850. 
     David percorreu o ndice no fim do volume e falou:
     A-r!
     A-r o qu? - perguntei.
     Exatamente o que eu havia pensado - respondeu ele, buscando uma das ltimas pginas do livro. - Aqui - prosseguiu. - Eu sabia. Tem uma fotografia dela.
     Ele me entregou o livro, mostrando uma pgina recoberta por um tecido.
     O que  isto? - perguntei. - Para que este leno de papel?
     No  leno de papel.  papel de seda. Eles usavam para proteger as fotos nos livros. Pode levantar.
     Eu levantei o tecido. Por baixo dele havia a reproduo em preto-e-branco de uma pintura, em papel brilhante. Era um retrato de mulher. Embaixo, a inscrio: 
Maria de Silva Diego, 1830-1916.
     Meu queixo caiu. MDS! Maria de Silva!
     Ela parecia mesmo do tipo que levava um leno como aquele na manga do vestido. Estava usando um vestido branco cheio de babados - ou pelo menos parecia branco 
na foto - com seus lustrosos cabelos negros colhidos em bands dos dois lados da cabea e uma enorme jia antiga daquelas bem caras presa a uma corrente de ouro 
em seu longo pescoo. Era uma bela mulher de ar altivo, olhando para um dos lados com uma expresso que se poderia dizer de... de desprezo.
     Olhei para o David.
     - Quem era ela? - perguntei. 
     - Simplesmente a garota mais famosa da Califrnia na poca em que esta casa foi construda - disse ele, tirando o livro da minha mo e voltando a folhe-lo. 
- Na poca, o seu pai, Ricardo de Silva, era praticamente o dono de toda a regio de Salinas. Ela era sua nica filha e tinha um dote e tanto. Mas no era por isto 
que os caras queriam casar com ela. Ou pelo menos no era o nico motivo. Naquela poca, uma garota como ela era realmente considerada bonita.
     Eu disse:
     Mas ela  mesmo muito bonita. David olhou para mim com um risinho:
     , isso mesmo.
     Sim, muito bonita mesmo.
     David viu que eu estava falando srio e deu de ombros.
     - No importa. O pai queria que ela casasse com um fazendeiro rico, um primo que estava perdidamente apaixona do por ela, mas ela s pensava nesse outro cara 
chamado Diego. - Ele consultou o livro. - Felix Diego. O sujeito era a maior roubada, traficante de escravos. Pelo menos era o que fazia antes de vir para a Califrnia 
para ficar rico na corrida do ouro. E o pai da Maria era contra a escravido, alis, tambm contra a corrida do ouro. De modo que Maria e o pai entraram em conflito 
para saber com quem ela ia se casar, o primo ou o traficante de escravos, at que o pai avisou que ia deserd-la se ela no casasse com o primo. Foi o bastante para 
Maria tomar uma deciso rapidinho, pois ela gostava muito de dinheiro. Tinha aproximadamente uns sessenta vestidos, numa poca em que a maioria das mulheres tinha 
apenas dois, um para o trabalho e outro para a igreja.
     - E o que aconteceu? - interrompi. No estava dando a mnima para quantos vestidos aquela mulher tinha. S queria saber onde entrava o Jesse.
     David voltou a consultar o livro.
     O mais incrvel  que no fim das contas a Maria conseguiu o que queria.
     Como assim?
     - O primo no apareceu para o casamento. Eu fiquei olhando:
     - No apareceu? Como assim, no apareceu?
     Exatamente isto. Ele nunca mais apareceu. Ningum sabe o que aconteceu com ele. Ele deixou seu rancho alguns dias antes do casamento, para chegar a tempo ou 
qualquer coisa assim, e ningum mais teve notcias dele. Nunca mais. Ponto final. Neca de pitibiriba.
     E... - eu sabia a resposta, mas mesmo assim tinha de perguntar. - E o que aconteceu com a Maria?
     Ah, ela casou com o traficante de escravos caador de ouro. Claro que depois de deixar passar um certo tempo. Naquela poca essas coisas tinham mil regras. 
O pai dela ficou to decepcionado com o primo que acabou dizendo  Maria que podia fazer o que quisesse, e que se danasse. Foi o que ela fez. Mas no se danou nem 
um pouquinho. Ela e o traficante de escravos tiveram 11 filhos, herdaram as propriedades quando o pai dela morreu e souberam administr-las muitssimo bem... 
     Eu levantei a mo.
     Espera a. Como se chamava o primo? David consultou o livro.
     Hector.
     Hector?
     - Sim - respondeu David, olhando de novo no livro. - Hector de Silva. Mas a me chamava-o de Jesse.
     Quando voltou a levantar os olhos, ele deve ter visto algo estranho na minha expresso, pois perguntou, com uma vozinha mida:
      o nosso fantasma?
      o nosso fantasma - respondi, calmamente.
     

      Captulo 19
      
     Pouco depois o telefone tocou. Dunga gritou l de cima que era para mim. Ao atender, ouvi a Cee Cee berrando do outro lado da linha:
     Sra. vice-presidente - dizia ela -, sra. vice-presidente, alguma coisa a declarar?
     No - respondi -, e que histria  essa de vice-presidenta?
     Voc ganhou a eleio.
     Por trs da voz dela eu ouvia o Adam dizendo "Parabns!".
     Que eleio? - perguntei, desconcertada.
     Para vice-presidente! - Cee Cee parecia chateada. - Eehhh...
     E como  que eu posso ter ganho se nem estava l?
     No tem importncia. Voc recebeu dois teros dos votos dos segundanistas. 
     Dois teros? - Tenho de reconhecer que fiquei chocada. - Mas Cee Cee, por que  que essa gente toda votou em mim? Eles nem me conhecem. Eu sou a novata do colgio.
     Que que eu posso fazer? - perguntou Cee Cee. - Voc parece uma lder nata.
     Mas...
     E provavelmente o fato de ser de Nova York no atrapalhou nem um pouquinho, pois aqui todo mundo  fascinado com qualquer coisa que seja de Nova York.
     Mas...
     E alm do mais voc fala to depressa...
     Falo?
     Claro que fala, o que faz voc ficar parecendo to inteligente... Quer dizer, eu realmente acho que voc  inteligente, mas voc tambm fica parecendo por falar 
to rpido. E voc usa tanta roupa preta... E como sabe, preto  superchique.
     Mas...    
     E ainda por cima o fato de voc ter salvo o Bryce daquela tora de madeira... As pessoas acham o mximo esse tipo de coisa.
     Eu fiquei pensando que provavelmente dois teros dos segundanistas do Colgio da Misso votariam no coelhinho da pscoa se algum tivesse tido a idia de inscrev-lo 
como candidato. Mas no cheguei a dizer. Em vez disso, disse:
     Bem. Legal, acho eu.
     Legal? - fez a Cee Cee, parecendo surpresa. - Legal?  s o que voc tem a dizer? Voc j parou para pensar como vamos nos divertir com todo esse dinheiro? 
As coisas legais que vamos poder fazer?
     Acho mesmo... genial - respondi.
     Genial? Suze,  simplesmente sensacional! Vamos ter um semestre simplesmente sen-sa-cio-nal! Estou to orgulhosa de voc!
     Desliguei o telefone me sentindo meio zonza. No  todo dia que algum  eleito vice-presidente de uma turma que est freqentando h menos de uma semana.
     Mal tinha acabado de pr o telefone no gancho quando ele voltou a tocar. Dessa vez era uma voz de garota que eu no reconheci, pedindo para falar com a Suze 
Simon.
     Falando - respondi, e a Kelly berrou no meu ouvido.
     Minha nossa! - gritou ela. - Voc ficou sabendo? No est eltrica? Vamos ter um ano do barulho!
     Do barulho. Certo. Calmamente, eu respondi:
     Estou louca para trabalhar com voc.
      Olha s - disse a Kelly, de repente falando srio. - Temos de nos encontrar logo para escolher a msica.
     Que msica?
     Para a festa, u. - Dava para ouvir que ela estava folheando um fichrio. - Eu at j sei de um DJ. Ele me enviou uma lista de msicas, e ns s precisamos 
escolher. Que tal amanh de noite? Que est acontecendo com voc? Voc nem foi  aula hoje. Est pensando que tem alguma doena contagiosa?
     Eu respondi: 
     - Hmm, no... Olha, Kelly, sobre essa festa, no sei no... Estava pensando que talvez fosse melhor gastar o dinheiro... bem, quem sabe um piquenique na praia...
     Ela repetiu, num tom de voz completamente morno:
     Um piquenique na praia.
     Claro. Com vlei, fogueira para churrasco e tudo mais. - Eu comecei a enrolar o fio do telefone no dedo. - Depois que conseguirmos a cerimnia de homenagem 
 Heather, naturalmente.
     Cerimnia?
     A cerimnia fnebre. Veja bem: aposto que voc j reservou o salo do Carmel Inn para a festa, confere? S que em vez de dar uma festa, eu acho que devamos 
organizar uma cerimnia de homenagem  Heather. Eu realmente acho que ela gostaria que fosse assim.
     Kelly continuava com aquela voz de pasmaceira:
     Mas voc nem chegou a conhecer a Heather.
     Bem, tem razo - respondi. - Mas tenho a sensao de que sei muito bem que tipo de garota ela era. E tenho certeza de que uma cerimnia fnebre no Carmel Inn 
 exatamente o que ela gostaria.
     Kelly ficou um minuto sem dizer nada. J tinha me ocorrido que ela podia no gostar das minhas sugestes, mas ela no ia poder mesmo fazer nada. Afinal, a vice-presidenta 
era eu. E ningum tinha o direito de pedir o meu impeachment, a no ser que eu fosse expulsa do colgio.
     Como ela no respondia, eu disse: 
     - Bom, por enquanto voc no precisa se preocupar, Kell. Ah, sim, sobre a sua festa no sbado, eu tambm convidei a Cee Cee e o Adam, espero que voc no se 
importe.  estranho, mas eles disseram que no foram convidados. S que numa turma pequena como a nossa, no pega bem no convidar todo mundo, entende? Caso contrrio, 
as pessoas que no foram convidadas vo pensar que voc no gosta delas. Mas  claro que no caso da Cee Cee e do Adam voc apenas esqueceu, confere?
     Voc ficou maluca? - fez a Kelly. Preferi ignorar:
     At amanh, ento - limitei-me a dizer.
     Minutos depois, o telefone voltou a tocar. Eu mesma atendi, pois parecia que tudo estava dando certo para mim. E estava mesmo. Era o padre Dominic.
     Suzannah - foi ele dizendo, naquela voz grave to agradvel. - Espero que no se importe por eu estar ligando para sua casa. Mas liguei s para cumpriment-la 
por ter vencido a eleio na turma dos segundanistas...
     No precisa se preocupar, padre Dom - disse eu. - No tem ningum na extenso. S eu.
     Mas o que  que voc tinha na cabea? - perguntou ele, num tom de voz completamente diferente. - Voc me prometeu! Voc me prometeu que no ia voltar ao colgio!
     Sinto muito - respondi. - Mas ela estava ameaando machucar o David, e eu...
     No quero saber nem se ela estava ameaando a sua me, mocinha. Da prxima vez ter de esperar por mim. 
     Est entendendo? Nunca mais vai tentar fazer uma coisa to imprudente e arriscada como um exorcismo sem uma alma que possa ajud-la! Eu respondi:
     Est bem. Mas eu estava esperando mais ou menos que no fosse haver uma prxima vez.
     No fosse haver uma prxima vez? Voc perdeu o juzo? Esqueceu que somos mediadores? Enquanto houver espritos, continuar havendo sempre uma prxima vez para 
ns, mocinha, e no se esquea disso.
     Como se eu pudesse. Bastava olhar ao redor da minha cama a qualquer hora do dia ou da noite para dar de cara com o lembrete, na forma de um caubi assassinado.
     Mas achei que no fazia sentido contar isto ao padre Dominic. Disse ento:
     Lamento pela galeria, padre Dominic. Seus pobres passarinhos...
     No se preocupe com os meus passarinhos. O que interessa  que voc est bem. Quando eu sair desse hospital, vamos ter uma longa conversa, Suzannah, sobre tcnicas 
adequadas de mediao. Nunca ouvi falar desse seu hbito de sair por a esmurrando a cara dessas pobres almas penadas.
     Eu achei graa:
     Tudo bem. Suas costelas devem estar doendo, no?
     Esto mesmo, algumas. Mas como voc sabe? - perguntou ele, com voz macia.
     Porque o senhor est sendo to amvel... 
      Oh, desculpe... - fez ele, realmente parecendo sentido. -  que... minhas costas realmente esto doendo. Mas voc soube da notcia?
     Qual delas? Que eu fui eleita vice-presidente dos segundanistas ou que quase derrubei o colgio ontem  noite?
     Nenhuma das duas. Encontraram uma vaga para o Bryce no Colgio Robert Louis Stevenson. Ele ser transferido assim que voltar a andar.
     Mas... - Podia parecer ridculo, mas fiquei triste com aquela notcia. - Mas agora a Heather se foi. Ele no precisa ser transferido.
     A Heather pode ter ido embora - respondeu padre Dominic educadamente -, mas sua lembrana ainda est muito vivida para os que foram... digamos, afetados por 
sua morte. Voc no vai querer criticar o rapaz por querer uma oportunidade de comear de novo num colgio onde as pessoas no estejam cochichando sobre ele.
     Est certo - disse eu, meio de m vontade, pensando na cabeleira loura do Bryce.
     Os mdicos esto dizendo que eu vou poder voltar a trabalhar na segunda-feira. Gostaria que voc viesse ao meu gabinete.
     Est certo - repeti, com o mesmo entusiasmo de antes. Padre Dominic nem pareceu ter percebido.
     Ento nos vemos l - disse ele, e acrescentou, pouco antes de eu desligar: - Enquanto isto, Suzannah, tente no destruir o que restou do colgio, est bem?
     Ha, ha - fiz eu, e desliguei. 
     Sentada no assento da janela, encostei o queixo nos joelhos e fiquei olhando para o vale l embaixo e a curva da baa. O sol comeava a se pr a oeste. Ainda 
no tinha encostado na gua, mas no demoraria a faz-lo. Meu quarto estava todo vermelho e dourado e, ao redor do sol, o cu parecia todo listrado. As nuvens tinham 
tantas cores - azul, roxo, vermelho, laranja - quanto as fitas que certa vez eu vira flutuando ao vento no alto de um poste numa quermesse. Como a janela estava
aberta, eu tambm sentia o cheiro do mar. A brisa trazia at mim aquele cheiro salgado, mesmo no alto da colina onde eu me encontrava.
     Fiquei me perguntando se o Jesse tambm costumava sentar-se naquela janela para sentir o cheiro do mar antes de morrer. Antes que o amante de Maria de Silva, 
Felix Diego, entrasse no quarto e o matasse, como eu estava certa de que havia acontecido.
     Como se estivesse ouvindo meus pensamentos, Jesse de repente materializou-se a alguns passos de mim.
     - Caramba! - exclamei, apertando uma mo contra o corao, que comeou a bater to rpido que eu achei que podia explodir. - Voc precisa mesmo ficar fazendo 
isto?
     Ele estava recostado, como quem no quer nada, numa das vigas da minha cama, com os braos cruzados.
     Sinto muito - disse ento, sem parecer que estava sentindo coisa nenhuma.
     Olhe aqui - fui dizendo. - Se ns dois vamos continuar convivendo, por assim dizer, precisamos estabelecer certas regras. E a regra nmero um  que voc precisa 
parar de ficar me assombrando desse jeito.
      E como voc sugere que eu torne minha presena conhecida? - perguntou Jesse, com os olhos brilhando um bocado para um fantasma.
     No sei - respondi. - Voc no pode sacudir umas correntes ou algo assim?
     Ele balanou a cabea.
     Acho que no. E qual seria a regra nmero dois?
     Regra nmero dois... - e a minha voz parecia no estar saindo direito enquanto eu ficava olhando para ele. No era justo. No era mesmo. Os mortos no deviam 
ter aquela pinta toda do Jesse, recostado ali na minha cama com o sol entrando de lado e ressaltando suas feies perfeitas...
     Ele levantou a sobrancelha, aquela que tinha a ferida.
     - Algo errado, mi hermosa? - perguntou.
     Fiquei olhando para ele. Era evidente que ele no sabia que eu sabia. Sobre as iniciais MDS. Eu queria perguntar-lhe a respeito, mas ao mesmo tempo parecia
que no queria. Alguma coisa estava prendendo o Jesse neste mundo, alguma coisa o impedia de ir para o mundo que o esperava e eu tinha a sensao de que tinha a 
ver com a maneira como ele perdeu a vida. Mas como ele no parecia fazer tanta questo de falar a respeito, fiquei achando que no tinha nada a ver com isso.
     Isto era completamente indito. Quase sempre, os fantasmas estavam o tempo todo em cima de mim implorando que eu os ajudasse. Mas no Jesse. 
     Pelo menos at agora.
     Quero te perguntar uma coisa - disse ele, to de repente que eu cheguei a pensar que ele podia ter lido os meus pensamentos.
     O qu? - perguntei, deixando de lado a revista e levantando.
     Ontem  noite, quando voc me disse para no me aproximar do colgio porque ia fazer um exorcismo...
     Eu olhei para ele:
     - Sim?...
     - Por que me deu este aviso? Eu ri aliviada. Era s aquilo?
     Eu avisei porque se voc fosse l teria sido sugado como a Heather.
     Mas no seria a melhor maneira de se livrar de mim? Voc ficaria com este quarto s para voc, exatamente como quer.
     Fiquei olhando para ele horrorizada.
     Mas isto... isto seria totalmente errado. Agora ele estava sorrindo.
     Entendo. Contrrio s regras?
     Isso mesmo - respondi.
     - Quer dizer ento que voc no me convocou - e ele deu um passo em minha direo - porque est comeando a gostar de mim ou algo assim?
     Para cmulo do desnimo, senti que meu rosto comeava a se esbrasear. 
     - No - respondi, teimosa. - Nada disso. S estou tentando respeitar as regras. Que, por sinal, voc violou ao acordar o David.
     Jesse deu mais um passo na minha direo.
     - Eu no podia deixar de acord-lo. Voc tinha dito para eu no ir at o colgio. Eu no tinha outra escolha. Se no tivesse mandado o seu irmo para ajud-la, 
voc agora estaria mortinha.
     Infelizmente sabia que ele estava certo. Mas  claro que eu no ia reconhecer.
     Absolutamente - fui dizendo. - Eu estava com tudo perfeitamente sob controle. Eu...
     Voc no estava controlando nada - riu-se o Jesse. - Voc foi at l empurrando com a barriga, sem ter planejado nada, sem...
     Eu tinha um plano - respondi, furiosa, dando um passo em direo a ele, o que nos deixou de repente quase encostando no nariz um do outro. - Quem voc pensa 
que , para estar a dizendo que eu no tinha nenhum plano? Estou acostumada a fazer isto h anos, sabia? Anos! E nunca precisei da ajuda de ningum. E muito menos 
de algum como voc.
     De repente ele parou de rir. Agora parecia zangado.
     Algum como eu? Como assim? Do que foi mesmo que voc me chamou? De caubi?
     No - disse eu. - Estou querendo dizer de algum morto.
     Jesse vacilou, como se eu lhe tivesse dado um murro. 
     A partir de agora vamos combinar assim - fui dizendo. - A regra nmero dois fica sendo que voc no se mete no que  meu e eu no me meto no que  seu.
     Boa - respondeu ele, curto e grosso.
     Boa - fiz eu. - E muito obrigada.
     Ele ainda estava zangado. E perguntou, de m vontade:
     Por qu?
     Por ter salvado a minha vida.
     De repente, ele j no parecia zangado. Suas sobrancelhas, que estavam completamente franzidas, relaxaram.
     Quando eu vi, ele tinha esticado os braos e ps as mos nos meus ombros.
     Aposto que eu no teria sido apanhada de surpresa daquele jeito se ele tivesse enfiado um garfo em mim. O fato  que estou acostumada a esmurrar fantasmas, 
mas no estou acostumada a v-los olharem para mim como se... como se...
     Bem, como se fossem me beijar.
     Mas antes que eu tivesse tempo de pensar no que ia fazer - fechar os olhos e deixar que ele fosse em frente ou aplicar a regra nmero trs: proibido qualquer
contato fsico - a voz da minha me veio l de baixo.
     - Suzannah! - chamou ela. - Suzinha, sou eu, estou em casa!
     Eu olhei para o Jesse. Ele imediatamente tirou as mos de mim. Um segundo depois, minha me abriu a porta do quarto e o Jesse desapareceu.
     - Suzinha - foi dizendo ela, aproximando-se e me abraando. - Como esto as coisas? Espero que no tenha ficado aborrecida porque deixamos voc dormir. Voc
parecia to cansada...
     No - respondi, ainda meio tonta pelo que tinha acontecido com o Jesse. - No faz mal.
     Parece que voc acabou no agentando. Era mesmo de se esperar. Correu tudo bem aqui com o Andy? Ele disse que preparou almoo para voc.
     Ele preparou um excelente almoo - respondi feito um rob.
     E o David trouxe o seu dever de casa, pelo que fiquei sabendo - prosseguiu ela, afastando-se de mim e caminhando em direo ao assento da janela. - Estvamos
pensando em preparar um espaguete para o jantar. Que acha?
     Parece timo - disse eu, voltando a mim e vendo que ela estava olhando para fora da janela. Logo em seguida dei-me conta de que no lembrava jamais t-la visto
to... to serena.
     Talvez fosse porque ela tinha parado de tomar caf quando nos mudamos para a Califrnia.
     Mas era mais provvel mesmo que fosse amor.
     O que est olhando, me? - perguntei.
     Nada, meu amor - respondeu ela com um sorrisinho. -  s o pr-do-sol.  to lindo! - Ela virou-se para passar o brao em volta do meu ombro, e l ficamos as 
duas observando enquanto o sol mergulhava no Pacfico em meio quele violento festival de vermelhos, roxos e dourados. - Quem disse que a gente poderia ver um pr-do-sol 
assim l em Nova York? No  mesmo? 
      Tem razo - respondi.
     Ento - disse ela, dando-me um aperto. - O que acha? Acha ento que podemos ficar por aqui um tempo?
     Claro que ela estava brincando. Mas de certa maneira no estava.
     - Claro - respondi. - Vamos ficar aqui.
     Ela sorriu para mim e voltou a olhar para o pr-do-sol. O ltimo pedacinho da enorme rodela de fogo estava desaparecendo no horizonte.
     L vai o sol - disse ela.
     Eu j sei, t legal - completei.












http://groups-beta.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups-beta.google.com/group/digitalsource

157
